Os 11 maiores clássicos interestaduais do Brasil

Grenal. Fla-Flu. Dérbi Paulistano. Clássico Mineiro. Atletiba. Ba-Vi. E muitos outros. As rivalidades regionais são a alma do futebol brasileiro. Quando o esporte começou a se estruturar em um país do tamanho do nosso, ele nada mais era do que uma coleção de campeonatos locais sem nenhuma conexão uns com os outros. Nessas disputas bairristas surgiram as primeiras grandes glórias e os primeiros grandes heróis, e engrandeceram-se os clubes. Confrontos com décadas de tradição, que atravessam gerações, continuam vivos e sustentando a mística do país do futebol.

Com o passar dos anos, e a expansão e valorização de torneios nacionais, surgiram novas rivalidades. Confrontos cada vez mais frequentes e importantes entre times de estados diferentes permitiram que eles construíssem entre si as suas rixas, as suas culturas e as suas histórias. Hoje, perto da maioridade do século XXI, não é absurdo dizer que alguns confrontos interestaduais estão entre as principais rivalidades do nosso futebol.

Com base em decisões importantes, polêmicas e momentos marcantes protagonizados juntos, compilei aqui os embates mais interessantes que pegam BRs e cruzam divisas. Roupa suja se lava em casa, mas às vezes é muito divertido ir comprar briga em outra vizinhança.

11. Corinthians x Vasco

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Dois clubes historicamente identificados com o povão, o que dá à sua rivalidade uma dimensão de massas. Recentemente este embate teve um revival de respeito, com os times disputando o título do Campeonato Brasileiro de 2011 e as quartas-de-final da Libertadores de 2012 (melhor para o Corinthians nas duas ocasiões). Corinthians e Vasco fizeram história juntos ao protagonizarem a primeira final do Mundial de Clubes da Fifa, em 2000. Após superarem Real Madrid e Manchester United em fase preliminar, os elencos estelares alvinegros e cruzmaltinos protagonizaram boa briga em campo. A taça só ganhou dono nos pênaltis, quando Edmundo errou a última cobrança e o time paulista saiu vencedor. As origens da rivalidade, porém, remontam aos anos 50, quando o Vasco de Ademir, Danilo e Augusto e o Corinthians de Luizinho, Cláudio e Baltazar batalharam ponto a ponto por três Rio-São Paulo (disputados em pontos corridos naquela época). O time da Colina só conseguiu ficar à frente em 1952, mas acabou perdendo a taça para a Portuguesa em dois jogos extras. Em 1950 e 1953 o Corinthians levou, tendo o Vasco como vice.

10. Cruzeiro x Palmeiras

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Os maiores representantes das colônias italianas no Brasil compartilharam holofotes nos quadrangulares finais dos Robertões de 1969 e 1970 e do Brasileiro de 1973, mas tiveram o ápice da rivalidade no final dos anos 90, quando se encontraram em vários mata-matas decididos com gols no final. Na primeira peleja dessa série, decisão da Copa do Brasil de 1996, o Cruzeiro levou. O momento mais especial foi o ano de 1998: no intervalo de sete meses, os Palestras decidiram a Copa do Brasil, uma quarta-de-final do Campeonato Brasileiro e a Copa Mercosul (edição inaugural). O Cruzeiro levou a melhor no Brasileiro, em melhor de três com três expulsões no jogo final, mas o Palmeiras conseguiu levantar as duas taças. Depois disso, houve encontro decisivo nas quartas-de-final da Libertadores de 2001, com mais uma conclusão dramática: vitória palmeirense só nos pênaltis. Detalhe interessante é que, nesse confronto, o Cruzeiro contava com Alex e Oséas, jogadores que haviam participado das disputas anteriores entre os clubes vestindo a camisa do Palmeiras. A rivalidade arrefeceu um pouco nos últimos anos, já que o Palmeiras tem sofrido para encontrar embalo enquanto o Cruzeiro está frequentemente nas disputas de Brasileiros e Libertadores.

9. Corinthians x Internacional

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Essa rixa tem um pezinho no passado, mas suas motivações principais são definitivamente modernas. O primeiro ato de maior tensão foi no Brasileiro de 1976, quando o Inter foi bicampeão nacional em cima do Corinthians e, de quebra, impediu o clube paulista de sair do seu jejum de mais de 20 anos sem títulos. Mas a disputa de Brasileiro que realmente fez a relação entre gaúchos e paulistas pegar fogo foi a de 2005. O campeonato teve vários jogos anulados devido ao esquema de manipulação de resultados conduzido pelo árbitro Edílson Pereira de Carvalho. Com todos os placares originais, o Internacional levaria a taça. Na nova tabela depois das partidas serem redisputadas, o Corinthians sagrou-se campeão. A polêmica só cresceu graças ao encontro decisivo entre os dois times na antepenúltima rodada, valendo a liderança. No segundo tempo, o volante Tinga foi atingido na área pelo goleiro Fábio Costa. O juiz não só não marcou o pênalti como expulsou o colorado por simulação. O placar final de empate favoreceu o Timão. O Inter jamais esqueceu os acontecimentos daquele ano. Antes da final da Copa do Brasil de 2009, a diretoria do clube gaúcho preparou um DVD com supostos erros de arbitragem a favor do adversário ao longo dos anos, como forma de pilhar a torcida, pressionar a arbitragem e fazer manchetes. O Corinthians acabou vencendo também aquele torneio e, até hoje, usa o caso do DVD para provocar o Internacional quando os times se enfrentam.

8. Cruzeiro x São Paulo

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Os clubes são brasileiros, mas o clássico tem a maior cara de América do Sul. Cruzeiro e São Paulo já se confrontaram em seis edições de torneios continentais, sendo três Libertadores, uma Mercosul, uma Recopa Sul-Americana e uma Supercopa Libertadores. O time celeste leva vantagem no saldo geral dos confrontos, tendo triunfado em quatro, mas a única disputa direta de título nesse histórico (a Recopa de 1993) está na sala de troféus do Tricolor – vitória só nos pênaltis após dois empates sem gols. A rivalidade é também uma das mais notáveis da era de pontos corridos do Campeonato Brasileiro, já que Cruzeiro e São Paulo são os maiores campeões nacionais do período, com três taças cada, e dividem constantemente as primeiras posições. Talvez o embate mais lembrado entre os dois adversários seja a final da Copa do Brasil de 2000, com os ídolos Sorín e Raí em campo. O São Paulo buscava seu primeiro título na competição, e estava levando com um empate por 1-1 no Mineirão (o jogo de ida havia terminado em 0-0). No último minuto, porém, o cruzeirense Geovanni cobrou uma falta perfeita, por baixo da barreira, e virou o jogo. O detalhe é que ele foi orientado para a batida pelo ex-são-paulino Müller, que vestia a camisa azul naquele dia.

7. Corinthians x Flamengo

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Não poderia ficar de fora o duelo entre os dois clubes com as maiores torcidas do país. Quando Corinthians e Flamengo se encontram, o calor das arquibancadas é garantido e tanto a Fiel quanto a Nação tornam-se personagens centrais e inescapáveis do confronto. Apesar desse fator nada irrelevante, essa rivalidade não sobe mais na lista por um motivo surpreendente: os dois times nunca protagonizaram grandes disputas diretas entre si. Batalharam em apenas uma final: a Supercopa do Brasil de 1991, segunda e última edição do torneio que reunia os campeões do Brasileiro e da Copa do Brasil do ano anterior. O Timão venceu com gol de Neto, após falha do goleiro Zé Carlos. Os rivais também se encontraram nas quartas-de-final de um Brasileiro (1984), uma Copa do Brasil (1989) e um Rio-São Paulo (1997), e nas oitavas da Libertadores de 2010. O Flamengo levou a melhor em quase todos esses episódios, só sofrendo a eliminação no Brasileiro. É parte da história da rivalidade, ainda, o Rio-São Paulo de 1958, ainda disputado em pontos corridos, no qual o Corinthians venceu o Flamengo na última rodada e praticamente tirou das mãos do adversário a taça, que ficou com o Vasco.

6. Palmeiras x Vasco

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Novamente um clássico entre colônias, desta vez os italianos de São Paulo contra os portugueses do Rio de Janeiro. Encontramos o primeiro duelo de grande porte na semifinal da Copa Rio de 1951, torneio reconhecido pela Fifa como antecessor do Mundial de Clubes. O eventual campeão Palmeiras, de Oberdan, Waldemar Fiúme e Jair, derrubou em dois jogos o Vasco ainda recheado de jogadores do Expresso da Vitória dos anos 1940. Meio século depois, também num palco internacional, os clubes tiveram outro embate marcante, que entrou para a história como um dos maiores jogos do futebol brasileiro. Foi na Copa Mercosul de 2000, cujo título só foi decidido no terceiro jogo, após uma vitória para cada lado. No antigo Palestra Itália, o Vasco de Mauro Galvão, Juninho Pernambucano e Romário virou no segundo tempo um jogo que perdia por 3-0. Foi um troco pelo Rio-São Paulo do mesmo ano, vencido pelo Palmeiras em cima dos cruzmaltinos com goleada. No saldo geral das finais disputadas, porém, o Vasco ainda leva a melhor, por ter superado os palmeirenses no Brasileiro de 1997. Além das decisões, o que abrilhanta a relação entre Palmeiras e Vasco é a idolatria compartilhada por um dos principais jogadores brasileiros do fim do século XX: Edmundo, herói de vários títulos com as duas camisas.

5. Internacional x São Paulo

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Muitos dos clássicos aqui listados têm uma história antiga, datada do futebol em preto e branco narrado por Fiori Gigliotti. A grande exceção é Inter x São Paulo, que foi praticamente todo construído no terceiro milênio. Não que não tenham existido momentos notáveis no passado – estiveram juntos no quadrangular final do Brasileiro de 1973, por exemplo. Mas é inegável que as batalhas nas Libertadores de 2006 e 2010 – ambas vencidas pelo Colorado – elevaram esse jogo a um novo patamar. Em 2006, Inter e São Paulo fizeram a segunda final consecutiva do torneio entre times brasileiros, e o time gaúcho impediu o Tricolor de ser bicampeão com duas performances dominantes, inclusive vencendo o primeiro jogo no Morumbi. Quatro anos depois o duelo foi pela semifinal, e novamente o Inter saiu vencedor, se bem que com um pouco mais de dificuldade. Nesses dois encontros, passaram pelos gramados ídolos dos dois clubes do calibre de Fernandão (que vestiu as duas camisas), Rogério Ceni, Lugano e D’Alessandro. Some-se a isso as frequentes disputas no topo da tabela nos Campeonatos Brasileiros de pontos corridos e temos aí uma das maiores rivalidades modernas do futebol nacional.

4. Cruzeiro x Internacional

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Desenterre sua calça boca-de-sino e sua saia flower power porque vamos mergulhar nos anos 1970, quando Cruzeiro e Internacional ostentavam os melhores esquadrões do futebol brasileiro e, durante alguns anos, dominaram o cenário como jamais uma dupla fora do eixo Rio-São Paulo faria de novo. Em 74 eles participaram juntos do quadrangular final do Brasileiro, com o time celeste sendo vice do Vasco. Em 75, fizeram a final do campeonato, em jogo único vencido pelo Inter com o famoso “gol iluminado” do xerife Elías Figueroa. A desforra cruzeirense viria já no ano seguinte, eliminando o Colorado da fase de grupos da Libertadores, com direito a um jogo de ida épico, do qual falei aqui. O Cruzeiro seria campeão continental e o Inter alcançaria o bi nacional, o que credenciou ambos para voltar à Libertadores em 77, quando voltaram a se pegar na segunda fase de grupos – de novo, melhor para o time mineiro. Os nomes que desfilaram por esse confronto naqueles dias – Falcão, Piazza, Figueroa, Palhinha, Valdomiro, Nelinho… – já são o suficiente para elevá-lo a um dos maiores de todos os tempos. E olha que nem mencionei os Brasileiros de 1987 (semi, Inter) e 2000 (quartas, Cruzeiro).

3. Botafogo x Santos

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Gostou dos anos 1970? Então vamos voltar mais uma década. É lá que encontramos as raízes do clássico Botafogo x Santos, que salta para o top 3 desta lista apenas pelo nível dos craques que se enfileiravam diante uns dos outros sempre que os dois times se encontravam entre os anos 1950 e 1960. Veja a foto acima e tente não permitir que a radiação mitológica que dela emana derreta seus olhos. Estamos falando da base da seleção naquele que foi, possivelmente, o melhor momento da história do futebol brasileiro. Eu poderia até deixar para lá os jogos em si, mas seria uma injustiça com a final da Taça Brasil de 1962, por exemplo, que foi decidida a favor do Santos em três grandes partidas. Ou com a semifinal da Libertadores de 1963, que já veio aqui para o blog. Ou com o Rio-São Paulo de 1964, cuja taça acabou dividida porque os times ficaram empatados em pontos e não houve datas para jogos de desempate (aconteceu só o primeiro, que terminou com vitória do Botafogo e três expulsões, incluindo Pelé e Manga). Os clubes passaram maus bocados por algum tempo depois dessa fase áurea, mas reviveram os bons dias na final do Brasileiro de 1995, quando o Botafogo de Túlio superou o Santos de Giovanni.

2. Corinthians x Fluminense

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Você deve ter percebido uma semelhança geral entre os clássicos desta lista até agora: cada um deles teve um momento de auge, um intervalo de anos em que os dois times em questão estavam particularmente bem e se encontravam com frequência em jogos decisivos. Corinthians x Fluminense ganha terreno sobre as outras por se diferenciar justamente nisso: teve diversos pontos de conflito acentuado ao longo da história, o que torna esta uma das rivalidades interestaduais mais frequentemente renovadas. Um desses pontos é bem recente: os dois times brigaram bem de perto pelo título do Brasileiro de 2010, que ficou nas mãos do Tricolor carioca. Outros Brasileiros da história tiveram Flu e Timão como protagonistas de semifinais: encontraram-se em 2002 (deu Corinthians), 1984 (deu Fluminense) e, no maior de todos os jogos entre eles, 1976. Foi quando a torcida corintiana protagonizou a famosa invasão do Maracanã, botando 70.000 fiéis na casa do adversário para ajudar o time a derrubar o esquadrão da Máquina Tricolor, que era favorito. A Máquina, aliás, contava com Rivellino, ex-ídolo alvinegro que deixara o time paulista a pontapés por não conseguir quebrar o jejum de títulos que assombrava o Parque São Jorge – e estreara pelo Flu no ano anterior com três gols sobre o ex-clube. Anos antes, o Fluminense havia perdido dois Rio-São Paulo graças ao Corinthians, que levou em 1954 e evitou que o rival fosse campeão em 1952 vencendo-o na última rodada. Porém, no mesmo 52, poucos meses depois, o Fluminense conquistaria a Copa Rio ao derrotar na final justamente quem? Pois é. Eu disse que eram muitos acontecimentos.

1. Atlético Mineiro x Flamengo

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Sabe o que faltou para a maioria das rivalidades que ficaram para trás? Uma boa de uma briga. Justamente por isso Atlético e Flamengo garantem o topo. As controvérsias que rodearam a final do Campeonato Brasileiro de 1980 e o jogo-desempate da Libertadores de 1981 marcam a relação entre os dois times até hoje. Para a torcida atleticana, derrotar o Flamengo é um prazer que vale mais do que apenas os três pontos. Os flamenguistas, por sua vez, têm um infalível ingrediente para provocações. E não são esses fatores que caracterizam uma verdadeira rivalidade? Ambos os confrontos vencidos pelo time carioca e tiveram arbitragem polêmica, com várias expulsões contestadas de jogadores atleticanos que inviabilizaram a reação do Galo – que era bem possível, visto que o escudo do clube era defendido naqueles tempos por Reinaldo, Cerezo, Éder e muitos outros. O Flamengo triunfante era o de Zico e Júnior, e certamente teria sido muito menos celebrado se não tivesse batido um adversário de tamanha qualidade – apesar dos dramas do apito, claro. Os times ainda se encontrariam em outros momentos importantes mais tarde. Em 1987, o Flamengo bateu o Atlético na semifinal do Brasileiro, rumo ao título da famigerada Copa União. O Galo pôde sentir um pouco do gosto da vingança em 2014, ao derrubar o Fla na semifinal da Copa do Brasil com uma gigantesca recuperação no jogo de volta. Mas nenhuma vitória apaga a lembrança daqueles embates dos anos 1980, que sempre estarão vivos para ambos os lados, como testemunho da maior rivalidade interestadual do futebol brasileiro.