11 jogadores conhecidos por um único lance

Tornar-se famoso no concorrido mundo do futebol não é fácil. Mesmo anos de treino e trabalho podem acabar reduzidos a uma carreira sem brilho, recordada apenas em algum almanaque muitíssimo especializado. Entrar na consciência coletiva dos torcedores requer, além de muito talento, uma boa dose de sorte. Portanto, não surpreende que alguns atletas que conseguem ter seus instantes de maior renome não têm a sorte de repeti-los.

Esses jogadores acabam reconhecidos, para a posteridade, como atores principais de momentos muito específicos, e nada mais. Caso sejam citados nas enciclopédias do futebol, será certamente a partir desses eventos, que se tornam o fato definidor e justificador de suas trajetórias. Para o bem ou para o mal.

Aqui estão 11 dos mais celebrizados one-hit wonders do futebol brasileiro.

11. Guinei foi o primeiro vilão do Corinthians na Libertadores

O Corinthians tem uma longa e (nada) nobre linhagem de jogadores que falham e prejudicam o time em momentos cruciais na Libertadores. Agora que o clube já venceu o torneio essa memória não é tão pesada, mas, antes do título de 2012, cada mata-mata continental corintiano era um exercício em tentar adivinhar quem botaria água no chope. E tudo começou em 1991, na segunda Libertadores disputada pelo Corinthians, com o jovem zagueiro Guinei. Revelado pelo São Bento, ele fora titular na conquista do Brasileiro do ano anterior e era uma promessa alvinegra. No segundo jogo das oitavas-de-final contra o Boca Juniors, com 0-0 no placar e já no segundo tempo, o beque pestanejou ao dominar uma bola fácil na lateral-esquerda e a perdeu para Alfredo Graciani, que marcou. O detalhe é que Guinei já havia falhado em dois gols xeneizes no jogo de ida, que o Corinthians perdera por 3-1. Mas uma coisa é vacilar na Bombonera, outra é diante da Fiel. Com a eliminação (o placar final foi de 1-1), o jogador foi ostracizado. Rodou por times de todo o país e sumiu, mas é sempre lembrado como o primeiro bode expiatório do Corinthians em uma Libertadores.

10. Dalmo deu o bi mundial ao Santos

Não houve time brasileiro igual ao Santos dos anos 1960. Abrilhantavam o esquadrão os nomes de Pelé, Gilmar, Zito, Pepe, Mauro, Coutinho e… Dalmo. O lateral-esquerdo, com passagens também por Paulista e Guarani, foi provavelmente o mais anônimo herói santista dos anos dourados do clube. Mas era titular absoluto da defesa e autografou um dos principais momentos daquela história. Em 1963 o Santos conquistou o bi da Libertadores e o direito de defender o título mundial. O adversário era o Milan, que venceu o primeiro jogo em casa, por 4-2. Mesmo sem Pelé e Zito, machucados, o time conseguiu devolver o placar no Brasil – diga-se de passagem, em grande jogo, arrancando a virada após sair perdendo por 2-0 num dia chuvoso, com o campo enlameado. As regras do tempo previam um jogo-desempate, que foi disputado no Maracanã. Aos 30 do primeiro tempo da “nega”, pênalti para o Santos. Na ausência do Rei, quem pegou a bola foi Dalmo, que era um grande batedor (algumas fontes o creditam como inventor da paradinha). De perna direita (curiosamente era destro), colocou no cantinho, fora do alcance do goleiro Luigi Balzarini, e fez o gol do título. Falecido no início deste ano, Dalmo teve ali seu momento único de protagonismo no maior time do futebol brasileiro em todos os tempos.

9. e 8. Valido empurrou Argemiro. Ou não?

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Dois em um! É impossível não ligar esses nomes numa lista como esta, porque eles compartilham o lance que os notabilizou. Flamengo e Vasco disputavam o jogo final do Campeonato Carioca de 1944. Os rubro-negros perseguiam um inédito tricampeonato, enquanto o clube da Colina buscava acabar com um jejum de sete anos. O empate dava a taça ao Vasco. Com a linha ofensiva em pandarecos (Perácio fora, Zizinho, Pirillo e Modesto Bria baleados), o Flamengo apostava suas fichas no ponta-direita argentino Agustín Valido. Ele fora um importante personagem do clube em anos anteriores, mas encontrava-se aposentado havia mais de um ano – voltou excepcionalmente para a fase final do estadual a pedido dos cartolas. Faltando quatro minutos para o fim do jogo do segundo tempo, com o placar intocado e o título se encaminhando para São Januário, uma bola é levantada na área e Valido salta. Quem o marca é o médio Argemiro, jogador que despontara na Portuguesa Santista e até fez parte do elenco da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938, como reserva (participou de um jogo). Valido chega na bola primeiro e cabeceia para dentro. Argemiro, indignado, denuncia que o argentino se valeu de um empurrão. As fotos do lance mostram, de fato, a mão de Valido nas costas do adversário no momento do salto – mas o gol foi confirmado. Flamengo tricampeão, Vasco inconformado, fim de uma das mais memoráveis decisões de um Carioca e polêmica estabelecida para as futuras gerações.

7. Galatto virou a Batalha dos Aflitos

A epopeia do Grêmio para sair da segunda divisão em 2005 é fartamente conhecida e documentada. Quadrangular final, última rodada, jogo contra o Náutico no Estádio dos Aflitos. Quem ganhar sobe e o empate é tricolor, mas o time tem um homem a menos e pênalti contra aos 35 do segundo tempo. Na confusão após a marcação, mais três jogadores gremistas são avermelhados. A partida fica interrompida por quase meia hora e a torcida timbu sobe a pressão nas arquibancadas. Bola na rede é vitória certa do time da casa, porque o Grêmio não teria como reagir com sete em campo e emocionalmente esfarrapado. Você, claro, sabe que o Náutico perdeu o pênalti e, na sequência, Anderson fez o gol que deu ao Grêmio a partida, o título da Série B e o acesso. Do inferno ao céu em questão de segundos. E ponto de virada desse cenário todo, o momento em que a maré tornou a estar a favor dos gaúchos foi responsabilidade do goleiro Galatto. Então com 22 anos, produto das categorias de base tricolores, ele defendeu com os pés a cobrança do lateral Ademar e deu nova vida ao time. Revigorado, o Grêmio buscou o gol. Galatto se consagrou ali. Nos anos seguintes, porém, não se firmou no time, teve algum sucesso com o Atlético Paranaense sem brilhar e depois colecionou várias camisas. Ainda joga (defende o Juventude), mas será eternamente o goleiro da Batalha dos Aflitos.

6. Nildo evitou o gol 1000 de Pelé

A Fonte Nova registrou em 1969 o possível único caso na história do futebol de um zagueiro que é vaiado pela própria torcida por evitar um gol do adversário. O Brasil vivia a contagem regressiva para o milésimo gol da carreira de Pelé. A cada jogo do Santos, todas as atenções se voltavam para onde quer que o time estivesse, na esperança de que o camisa 10 botasse mais bolas para dentro e chegasse cada vez mais perto da marca milenar. Em partida válida pelo Robertão daquele ano, o time paulista foi a Salvador enfrentar o Bahia – e Pelé tinha 999. Tão querido era o Rei pelos torcedores do Brasil inteiro e tão histórico era o momento que até mesmo os tricolores presentes dedicavam algumas preces à possibilidade de testemunharem in loco o gol mil. E ele quase veio. Uma bola sobrou para Pelé na área após uma bobeada da defesa. Ele deu uma finta de corpo num zagueiro, driblou o goleiro e empurrou para as redes desguardadas. Todos se erguem dos assentos. Eis que surge em disparada o outro beque, Nildo, apelidado de Birro Doido, campeão estadual com o Bahia em 1967. Na velocidade, ele esticou a perna esquerda e bloqueou a trajetória da bola, evitando o milésimo por milímetros. Fez o seu trabalho com louvor e… tomou uma senhora descompostura do estádio inteiro. O Bahia foi o auge da carreira de Nildo, e adiar o grande feito do rei do futebol foi o seu cartão de visitas para sempre.

5. Anselmo lavou a alma dos flamenguistas

A Libertadores ainda é um torneio rústico, para dizer o mínimo, mas já foi bem mais indomável. Em 1981, Flamengo e Cobreloa disputaram a final. O time de Zico tinha mais bola, mas o adversário chileno tinha o zagueiro Mario Soto, notório açougueiro em campo. Depois de o Flamengo levar o primeiro jogo, no Maracanã, o Cobreloa assegurou sua sobrevivência com uma vitória magra em Santiago, ajudada pelas agressões de Soto a Adílio e Lico – o último teria que ficar fora do jogo de desempate. Reza a lenda que o beque usava uma pedra para golpear os oponentes, e que até o ditador Augusto Pinochet, presente ao estádio, teria se espantado com a violência do conterrâneo. O título seria decidido em Montevidéu, e o Flamengo fez valer a sua superioridade. Resolvida a taça, faltava resolver Mario Soto. O técnico Carpegiani chamou o centroavante reserva Anselmo e colocou-o em campo nos minutos finais com apenas uma ordem: “Vai lá e quebra ele”. Missão dada é missão cumprida. Foi direto a Soto e sentou-lhe a mão na cabeça sem hesitação ou disfarce – e, como definiria Júnior anos depois, “com a força de 15 milhões de flamenguistas”. O chileno caiu nocauteado e Anselmo foi prontamente expulso. Voltou ao Brasil festejado pela massa rubro-negra como o vingador da Libertadores. Ficou no Flamengo até o ano seguinte apenas e depois viveu bom momento no Ceará. Mas fez sua fama mais com o punho do que com os pés.

4. Héverton rebaixou a Portuguesa só pisando no gramado

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Como vimos no caso de Anselmo, é possível que o lance mais notório de um jogador não envolva nem tocar na bola. o volante Héverton, de passagens pouco momentosas por Corinthians e Vitória, é um exemplo mais extremo disso. Quando defendia a Portuguesa, em 2013, mudou os rumos do Campeonato Brasileiro e do seu time apenas entrando em campo na última rodada. Vamos por partes. Duas semanas antes, ele havia tomado cartão vermelho após o apito final do jogo contra o Bahia por ofensas ao árbitro. Cumpriu suspensão automática na rodada seguinte, mas um julgamento no STJD condenou-o a duas partidas fora. O problema é que a decisão foi tomada na sexta-feira antes da rodada final do torneio e só foi publicada na segunda-feira posterior. Assim, quando a Portuguesa entrou em campo para seu último compromisso, contra o Grêmio, não tinha conhecimento de que Héverton não poderia jogar. O atleta, que começou no banco, entrou no segundo tempo. Com isso, destinou a Lusa a perder os pontos da partida, que a teriam salvo do rebaixamento. Seguiu-se uma controversa batalha judicial que fez de Héverton pivô de um caso de “tapetão” que o futebol brasileiro não presenciava havia anos. Constrangido, ele até quis se aposentar, mas acabou indo para o Paysandu, e depois para times de menor expressão. Novas informações surgiriam tempos depois, dando conta de que a diretoria da Portuguesa na época teria conhecimento da situação do jogador e escalou-o de propósito, supostamente por vantagens financeiras para os cartolas. Tudo ainda é nebuloso, e marcará permanentemente a carreira do volante.

3. Márcio Nunes quebrou Zico antes de uma Copa do Mundo

O lateral-direito Márcio Nunes teve uma carreira curta, quase toda dedicada ao Bangu. Defendeu o time na fase áurea dos anos 1980, e era titular do vice-campeonato brasileiro de 1985. E é tido como um dos maiores estraga-prazeres do futebol brasileiro. No Carioca de 85, em partida contra o Flamengo, o defensor entrou em uma dividida com Zico, recém-retornado da Udinese para os braços da torcida rubro-negra. A bola ficou em segundo plano. Márcio Nunes saltou com o corpo completamente na horizontal, as duas pernas espetadas para frente e as travas das chuteiras em exposição, atingindo o adversário em cheio. Zico não levantou mais, e o banguense foi expulso. O saldo da entrada violenta para o craque do Flamengo foram dois joelhos e um tornozelo torcidos, uma fíbula contundida, escoriações na perna, três cirurgias e meses fora de campo. O pior é que não foi só a torcida do Flamengo que fez de Márcio Nunes inimigo juramentado. A gravidade dos ferimentos pôs em dúvida a participação de Zico no Copa do Mundo de 1986, o que abalou todos os torcedores brasileiros. De fato, o camisa 10 da seleção não foi ao México 100%, e o país creditou a perda de mais uma Copa ao defensor do Bangu. Márcio Nunes recebeu o perdão de Zico, mas o lance o abalou profundamente. Ah, e lembra que eu disse que a carreira dele foi curta? Foi porque aos 25 anos sofreu entrada semelhante, rompeu os ligamentos de um joelho e teve que se aposentar forçadamente.

2. Adriano Gabiru derrubou o Barcelona

O caso de Gabiru é bastante peculiar entre os outros nomes aqui elencados. Até aqui, estivemos falando de jogadores que foram alçados a um status inédito por seus lances famosos. O meia alagoano, porém, já tinha alguma notabilidade antes do seu momento de glória – foi titular do Atlético Paranaense campeão brasileiro de 2001, virou ídolo da torcida e chegou a ser convocado para a seleção. Porém, uma vez escrito na história o acontecimento que vamos relembrar, tudo mais ficou desimportante. Hoje, ninguém consegue falar de Adriano Gabiru sem lembrar, quase que exclusivamente, daquele gol. E que gol foi. Em 2006, o Internacional conquistou a América e se qualificou para disputar o Mundial de Clubes, onde também estaria o poderoso Barcelona de Ronaldinho (que vinha de dois prêmio de melhor do mundo). O elenco colorado estava bem provido de opções ofensivas: Fernandão, Iarley, Alex, os garotos Alexandre Pato e Luiz Adriano. Acuados em campo contra os favoritos catalães, nenhum deles incomodou muito. Já passava da metade do segundo tempo quando Gabiru entrou. Logo ele, que vinha desagradando a torcida ao longo de todo o ano. Minutos depois, um rápido contra-ataque conduzido por Iarley achou o meia disparado pela esquerda. Ele bateu colocado e achou as redes. Virou instantaneamente herói, reconciliado com os torcedores. Afinal, foram duas alegrias: levar o título mundial inédito em cima de um grande adversário e frustrar Ronaldinho, cria do arquirrival Grêmio. O Gabiru jogador deixou o Inter pouco depois, circulou entre clubes médios e perdeu espaço no cenário principal. O Gabiru ídolo permanece no Beira-Rio e na memória coletiva.

1. Cocada fez o gol do Cocada

O primeiro lugar desta lista fica com o jogador que serviu de inspiração para ela. O Vasco conquistou em 1988 um bicampeonato carioca que não conseguia alcançar havia 38 anos, e sempre que esse título é mencionado fala-se que foi o jogo do “gol do Cocada”. O jogador é tão amarrado ao lance que acabou por batizá-lo, e se você conseguir me dizer qualquer outra coisa sobre Cocada, ganha um doce (uma cocada, quem sabe). Irmão menos famoso do atacante Müller, Cocada foi lateral-direito e reserva profissional. Teve uma passagem esquecível (e esquecida) pelo Flamengo, e depois seguiu para o Vasco. A decisão do Carioca de 88 foi entre os dois times. O jogo ia se encaminhando para terminar em 0-0, placar que já garantia o bi cruzmaltino, quando Cocada substituiu o ponta Vivinho. Aos 44 do segundo tempo, depois de uma roubada de bola, o lateral foi lançado em velocidade, cruzou o campo de ataque e disparou uma bomba do bico da grande área, acertando o ângulo. Gol que sacramentava o triunfo. Na comemoração, Cocada correu para o banco do Flamengo e provocou o técnico Carlinhos, que o dispensara do clube rubro-negro anos antes. Acabou expulso e iniciou uma briga generalizada entre os dois times. Ao fim da peleja, o jogador de uma gaiata entrevista em que “previu” que entraria para os anais por seus feitos naquele dia. Na mosca. Então ficamos assim: Cocada entrou no radar do futebol brasileiro numa noite de junho de 1988. Fez um gol histórico. Tomou um cartão vermelho. Provocou um pega-pra-capar. Foi campeão. Tudo em quatro minutos. E nunca mais foi visto. Fim.

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Os 11 cartolas que mais fizeram cartolices

O cartola é uma figura essencial do futebol brasileiro. Aquele dirigente falastrão, paternalista, aferrado ao poder, nada profissional, metido em maracutaias e politicagens. Que vê seu clube como uma extensão de si mesmo e faz de tudo para levá-lo ao sucesso, em parte por paixão de torcedor e em parte por vaidade pessoal. Há também a variedade que comanda entidades, e que compensa com mais despotismo o que não pode ter de títulos.

A categoria está em alta. Cartolas tupiniquins exercem alguns dos principais papéis na investigação que está fazendo a casa da FIFA cair como nenhuma outra casa jamais caiu antes. É o Brasil fazendo bonito na primeira divisão da criminalidade internacional. Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo del Nero são a geração de ouro da nossa cartolagem, os nossos Gullit-Rijkaard-Van Basten de terno e gravata.

Em homenagem a eles, vamos recordar os maiores representantes do ofício na história do futebol brasileiro. A trinca de ouro atualmente ocupando manchetes policiais em todo o planeta vira hors concours aqui, senão não teria graça. Fica como café-com-leite também o grande capo da famiglia FIFA, o inabalável João Havelange, que é o bode na sala do escândalo. Noves fora esse hall da fama, eis a nata da dirigência boleira nacional.

11. Carlito Rocha (Botafogo)

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Carlito Rocha é uma exceção nesta lista pelo fato de que não se metia em delinquências. Fora esse detalhe, preenchia ao extremo todos os outros requisitos da cartolagem e era particularmente talentoso em uma característica: a excentricidade. Era supersticioso ao ponto de parecer lunático. Foi jogador e técnico do Botafogo, mas foi na condição de presidente do clube, entre 1948 e 1951, que mais se celebrizou. Mandava dar nós nas cortinas da sede social como forma de azarar as pernas dos adversários, recusava-se a estar dentro de um carro que desse ré por achar que era má sorte e carregava consigo um alfinete de fralda repleto de medalhinhas de santos. Em sua gestão, o Botafogo arrancou o Campeonato Carioca de 1948 das mãos do Vasco, que era, na época, o melhor time do Rio de Janeiro e base da seleção brasileira. Uma das contribuições mais longevas do dirigente ao clube de General Severiano foi o cachorro Biriba, adotado como mascote. O animalzinho, que pertencia ao zagueiro Macaé, invadiu o campo durante uma partida de aspirantes que o Botafogo acabou por vencer. Dali em diante, Carlito só entrava no estádio com Biriba em punho.

10. Laudo Natel (São Paulo)

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O ponto de partida para os cartolas metidos em práticas escusas é com o ex-governador de São Paulo e ex-presidente do São Paulo Laudo Natel, um dos principais responsáveis pela construção do estádio do Morumbi – através de manobras no mínimo duvidosas. Natel presidiu o Tricolor entre 1958 e 1971, justamente o intervalo durante o qual foi erguida a obra. Durante esse período, acumulou por alguns anos o cargo com o posto de vice-governador do estado (justiça seja feita, licenciou-se do clube sempre que assumiu a titularidade do governo, uma vez pela cassação de Adhemar de Barros e outra por eleição indireta). Também ocupou um assento na diretoria do Bradesco, que usou para facilitar a obtenção de créditos e títulos para o São Paulo. Jamais ficou claro se aproveitou suas posições políticas para beneficiar diretamente o clube, mas a cessão do terreno onde se encontra o estádio é envolta em mistério até hoje, e as boas conexões de Laudo Natel, combinadas com sua longeva presidência, contribuem para tornar a história toda ainda mais suspeita.

9. Andrés Sanchez (Corinthians, CBF)

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Atravessando a cidade de São Paulo, chegamos ao Corinthians e a Andrés Sanchez, um cartola dos novos tempos. Envolvido em políticas clubísticas desde cedo (foi fundador da torcida organizada Pavilhão Nove), Sanchez assumiu a presidência em 2007 e conduziu o Timão no renascimento pós-rebaixamento. Sua grande obra foi a construção do Itaquerão, feito que alcançou através de sua amizade com Lula, então presidente da República. O financiamento da Caixa Econômica Federal, as isenções tributárias concedidas e a briga política para colocar o novo estádio na Copa do Mundo (e assim justificar sua construção) são os rastros deixados pelas relações perigosas de Andrés Sanchez no caminho para a realização do projeto da casa própria do Corinthians. Aliado de primeira hora de Ricardo Teixeira, conseguiu rachar o Clube dos 13 no meio de uma negociação de direitos de televisão que prometia ser histórica, tudo para ajudar o status quo da CBF. Chegou a diretor de seleções e tinha tudo para suceder Teixeira, mas a renúncia do mentor mudou o cenário e ele perdeu força. Hoje é deputado federal e ainda vai aprontar muito.

8. Vicente Matheus (Corinthians)

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Outro que não sujou o nome com falcatruas, Vicente Matheus sobe na lista pela excelência nos critérios “longevidade” e “boca grande”, além da entrega carnal que tinha pelo Corinthians. Diretor de futebol no auge do sucesso do time nos anos 1950, foi presidente por 16 anos, ao longo de oito mandatos que abrangeram porções de quatro décadas diferentes – e ainda emplacou a esposa, Marlene, em uma eleição. Na sua gestão foi quebrado o tabu de 23 anos sem títulos, e foi com ele que o Timão conquistou o Campeonato Brasileiro pela primeira vez. Matheus investia (muito) dinheiro do próprio bolso para financiar o clube (prática adotada por vários cartolas hoje) e bancou o crescimento da Gaviões da Fiel, que ganhou muita influência na política interna corintiana graças a seu apoio. Talvez seja mais conhecido do grande público como frasista desastrado. São de sua autoria pérolas como “O Sócrates é inegociável, invendável e imprestável”; “Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático”; “Comigo ou sem migo o Corinthians vais ser campeão”; e “O difícil, vocês sabem, não é fácil”.

7. Eduardo José Farah (FPF)

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Como eu disse, existem cartolas que fazem fama não liderando clubes, mas comandando federações, regendo campeonatos e moldando o cenário do futebol nacional de forma mais ampla. É o caso de Eduardo José Farah, que foi presidente do Guarani no fim dos anos 60 mas ganhou fama mesmo em seus 15 anos como mandatário da Federação Paulista de Futebol, entre 1988 e 2003. Sua longa gestão foi marcada por invencionices que tiveram vida curta, como as disputas de pênaltis para desfazer todos os empates e a escalação de dois juízes por partida. Farah também investiu na importação de árbitros estrangeiros para apitar jogos do Paulista, iniciativa que culminou na infame performance do argentino Javier Castrilli na semifinal de 1998, entre Corinthians e Portuguesa. No mesmo ano, bolou o bizarro “Disque-Marcelinho”: a FPF comprou o passe de Marcelinho Carioca do Valencia e promoveu uma votação telefônica entre as torcidas para decidir qual clube ficaria com o meia (ganhou o Corinthians). Uma ideia do cartola que pegou foi a adoção do spray dos árbitros – que foi por muito tempo visto como uma excentricidade. Farah também ficou marcado por denúncias de sonegação, evasão de divisas e desvio de recursos da Federação, e pela campanha que fez contra as torcidas organizadas. Sua presidência baniu os bandeirões, proibição que vigora até hoje no futebol paulista e que deixa os estádios menos festivos.

6. Caixa D’Água (FERJ)

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Enquanto Farah reinava em São Paulo, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro vivia sob o jugo de Eduardo Vianna, mais conhecido pelo apelido de “Caixa D’Água” (recebido nos tempos de estudante, quando ia aos bebedouros da escola paquerar as colegas). Homem de muita instrução e cultura, usou toda a sua inteligência para reinar por 22 anos na FERJ, escorado na base eleitoral das inúmeras ligas amadoras do Rio. Assumiu a Federação em 1984 e só deixou o posto graças à pequena inconveniência de seu falecimento em 2006. Carregou nas costas denúncias de formação de quadrilha, estelionato e falsidade ideológica, foi acusado de desviar receitas de bilheteria do Maracanã e chegou a ser afastado judicialmente do cargo por duas vezes, mas sempre conseguiu voltar. Bancou viradas de mesa no Campeonato Brasileiro quando elas beneficiaram times cariocas, e também aprontou das suas no campeonato estadual local. O Carioca de 2002, eternizado como “Caixão”, foi uma odisseia que só terminou sete anos depois nos tribunais, em meio a mudanças no regulamento e polêmicas de arbitragem. Curiosamente, um dos prejudicados naquele certame foi o Americano, clube do coração de Caixa D’Água, a quem ele era constantemente acusado de beneficiar.

5. Nabi Abi Chedid (Bragantino, CBF)

FUTEBOL - HISTÓRIA DO BRAGANTINO

Membro mais notável da família que colocou o Bragantino no mapa do futebol nacional, o libanês de nascimento Nabi Abi Chedid foi presidente entre 1959 e 1977, e em sua gestão o clube conquistou pela primeira vez o acesso para a elite do Campeonato Paulista. Os anos dourados no início da década de 90, com título estadual e vice Brasileiro, foram sob os auspícios de seu irmão Jesus (sim), mas Nabi era patrono e comandava o futebol. Suas atenções, porém, estavam divididas com voos mais altos. Sua carreira passou por todos os níveis da cartolagem: do Bragantino foi para a presidência da FPF, entre 1979 e 1982, e de lá ambicionou a CBF. Em 1986, ano de eleição na entidade, o cenário eleitoral projetava um rigoroso empate entre Nabi e o candidato da situação, Medrado Dias (havia número par de federações na época). Sedento pela vitória, o cartola apelou a uma manobra: como o estatuto da CBF previa a vitória do candidato mais velho em caso de igualdade de votos, Nabi inverteu a chapa com seu vice, o sexagenário presidente da FERJ Octávio Pinto Guimarães. O detalhe, que faria Frank Underwood corar, é que Nabi apostava que o câncer que acometia Guimarães deixaria a presidência vaga em breve. Não foi o que aconteceu. O novo mandatário cumpriu o mandato e faleceu cerca de um ano após o fim, deixando seu ávido vice de mãos abanando. Modo de dizer, claro, pois o cartola continuou influente em todos os níveis do futebol e deteve mandatos de deputado estadual durante toda a vida adulta, até sua morte em 2006. O estádio do Bragantino foi rebatizado em sua homenagem graças ao atual presidente, Marquinho Chedid – seu filho, que sucedeu Jesus e está no posto há quase 20 anos.

4. Rivadávia Corrêa Meyer (AMEA, CBD)

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Hora de voltar bastante no tempo e revisitar os primórdios do futebol brasileiro, quando o amadorismo ainda vigorava e ser jogador não era uma profissão. Esses tempos teriam durado para sempre se dependesse de Rivadávia Corrêa Meyer. Ligado ao Botafogo, onde fora atleta e dirigente, detinha a presidência da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA) do Rio de Janeiro no início dos anos 30, quando esquentou no país a disputa entre os puristas do esporte amador e os defensores da profissionalização. Rivadávia era capitão do primeiro time. Considerava que pagar alguém para jogar futebol era indigno, e até chamou publicamente os atletas que reivindicavam salário e reconhecimento profissional de “gigolôs”. Lutava uma causa perdida, pois tinha o apoio apenas de seu Botafogo, do Flamengo e de clubes pequenos (do outro lado estavam Fluminense, Vasco, América, Bangu e, eventualmente, a própria CBD). Mas conseguiu provocar uma cisão no futebol carioca, que forçou o surgimento de uma liga paralela e acabaria por sepultar a AMEA. Depois disso, presidiu a CBD entre 1943 e 1955, ou seja, durante a Copa do Mundo de 1950, no Brasil. No calor do torneio, expôs a seleção às hostes de políticos que quiseram tirar vantagem do contato com os jogadores e permitiu o oba-oba sobre o time, inclusive com manchetes de jornal proclamando os brasileiros campeões antes mesmo do jogo final. Deu no que deu. Sua presidência também organizou um torneio internacional de clubes, a Copa Rio, que, em sua terceira e última edição, foi batizado com o nome do próprio Rivadávia. Modéstia não era o seu forte.

3. Castor de Andrade (Bangu)

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Muitos cartolas têm as ilicitudes como, digamos, negócios paralelos. Castor de Andrade, patrono e benemérito eterno do Bangu, fazia diferente: o crime era seu meio de vida. Herdou do pai um dos maiores impérios de jogo do bicho do Rio de Janeiro e conseguiu a proeza de expandi-lo. Virou um dos homens mais poderosos do estado e circulava entre as elites nacionais, ganhando reverência até do ex-presidente João Figueiredo. Nunca assumiu formalmente nenhum cargo na diretoria do seu clube do coração, mas fez de absolutamente tudo para ajudar o Bangu: usou dinheiro da contravenção para bancar o elenco, subornou árbitros, fez fluir propinas, supostamente botou na gaveta até jogadores adversários quando foi conveniente. Durante mais de 30 anos exerceu sua influência, período no qual o time alvirrubro teve suas maiores glórias: finalista do Carioca por quatro temporadas seguidas, campeão em 1966, vice-campeão brasileiro em 1985. O poder de Castor de Andrade fez-se evidente até mesmo na escolha do mascote oficial do Bangu, em 1981: justamente o animal que batiza o bicheiro. Quem procurar a história do cartola no site do clube vai perceber uma reverência quase religiosa. Os registros falam em “melhor amigo e salvador” do Bangu, “acima do bem e do mal”, e não fazem a menor questão de disfarçar o império mafioso de Castor – pelo contrário, enaltecem-no. O bicheiro também tinha envolvimento no Carnaval: patrocinou a Mocidade Independente de Padre Miguel e foi fundador e primeiro presidente da Liga das Escolas de Samba.

2. Alberto Dualib (Corinthians)

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A dinastia Matheus no Corinthians deu lugar a outra longa presidência de um nome só: a de Alberto Dualib. Eleito para o cargo máximo em 1993, só largou o osso em 2007, praticamente arrancado da cadeira pela justiça. No teste do sucesso do clube ele passa com êxito: o Corinthians teve seus melhores anos sob Dualib, vencendo vários estaduais, duas Copas do Brasil, três Brasileiros e o primeiro Mundial de Clubes da Fifa. Testemunho da força política de Dualib é o fato de que ele conquistou para o clube o direito de participar do Mundial mesmo sem ter vencido antes uma Libertadores. Um dos títulos nacionais alcançados durante a gestão do cartola foi o de 2005, para o qual o Corinthians se reforçou pesadamente graças ao aporte de dinheiro da Media Sports Investment – a famigerada MSI, uma obscura empresa de investimentos em esportes. Seus rostos eram o russo Boris Berezovsky, presidente, e o iraniano Kia Joorabchian, representante no Brasil, ambos figuras carimbadas do submundo das negociatas internacionais. A parceria rendeu apenas este título, mas muitas dívidas para o Corinthians e acusações de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro sobre Dualib. Dois anos depois o presidente estava deposto, deixando como seu legado final um doloroso rebaixamento. Dos maiores altos aos menores baixos, o reinado de Dualib mostrou tudo que um cartola de marca maior pode fazer por um clube de futebol.

1. Eurico Miranda (Vasco)

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Quem mais senão o imperador de São Januário para ficar com o primeiro lugar? Para quem conhece a peça pode ser difícil acreditar, mas Eurico Miranda só exerceu formalmente o cargo de presidente do Vasco por seis anos (2001-2007), antes de retornar em triunfo no ano passado. Mas sua influência na Colina teve início nos anos 60, e por muito tempo foi ele quem deu as cartas no clube, mesmo sem ocupar a cadeira máxima. Foi responsável por repatriar o ídolo Roberto Dinamite do Barcelona, em 1980, e por roubar Bebeto do arquirrival Flamengo em uma das transações mais célebres do futebol brasileiro, em 1989. Na década seguinte tornou-se vice-presidente de Antônio Soares Calçada, a quem enfrentara em eleições anteriores, e, diante da personalidade mais discreta do titular, virou o manda-chuva. Sua figura encharutada virou símbolo de um dos melhores períodos da história do Vasco. Os sucessos (quatro estaduais, um Rio-São Paulo, dois Brasileiros, uma Mercosul e uma Libertadores) vieram na mesma proporção dos desmandos. A mão de ferro de Eurico desautorizava treinadores e jogadores, centralizava as decisões, monopolizava entrevistas e se espraiava para a política clubística nacional. Enfrentava até do governador do Rio de Janeiro. No segundo jogo da final do Brasileiro de 2000, contra o São Caetano, o alambrado de São Januário cedeu após um tumulto nas arquibancadas, ferindo cerca de 150 torcedores. Ambulâncias entraram em campo e pessoas eram atendidas no gramado. Eurico desfilava em meio ao cenário de guerra, bradando ordens para que todos fossem retirados e o jogo (que ia dando o título ao Vasco), reiniciado – apesar de o governador Anthony Garotinho já ter determinado o encerramento do evento. Pelo regulamento, o acontecido deveria causar a eliminação do time mandante. A força política de Eurico forçou o descarte dessa regra, substituída apenas por um novo jogo em campo neutro. Em gesto de provocação à Globo, que transmitia a final e teria pintado-o como vilão do desastre, o cartola fechou um contrato para estampar a logomarca do SBT, emissora concorrente, apenas na partida extra. Eurico teve também carreira parlamentar, sendo deputado federal por dois mandatos. Seu maior ato no Congresso foi tumultuar a CPI da CBF/Nike, em 2000, e rasgar o relatório final dos trabalhos em plena sessão. Deixou a presidência do Vasco em 2008, com o clube rebaixado. Após o patético hiato que foi a gestão de Roberto Dinamite, o monarca está de volta, prometendo resgatar o “respeito” e já fazendo das suas cartolices novamente.

11 feitos do futebol brasileiro que jamais veremos outra vez

As grandes lendas do futebol se constroem de forma insuspeita. É praticamente impossível detectar quando um recorde será batido, um legado será firmado ou um astro será eternizado. As coisas simplesmente acontecem, nos pegam de surpresa e a partir daí procuramos justificá-las, construir retroativamente o caminho da glória que levou ao momento que testemunhamos em campo. Apenas respondemos ao épico, não podemos antevê-lo. Isso é bom. É parte da beleza do espetáculo.

Essa prática de reagir ao inexplicável e desvendar sua trajetória nos deu, como espectadores, a curiosa habilidade de identificar aquilo que é irrepetível. Quando paramos para pensar sobre o que testemunhamos, temos a perspectiva da sequência de acontecimentos que, projetando adiante, percebemos que não ocorrerá de novo. Marcas existem para serem superadas, mas às vezes nos deparamos com algumas que, sendo frutos dessas circuntâncias históricas tão particulares, resistirão para sempre.

Aqui estão alguns exemplos disso.

11. O Santos e o São Paulo foram bi da Libertadores e do Mundial

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O Santos de Dorval e Gilmar, o São Paulo de Cerezo e Raí

Não estou revelando nenhum segredo da humanidade. O Santos de Pelé & companhia derrotou Peñarol e Boca Juniors antes de derrubar Benfica e Milan, em 1962 e 1963. O São Paulo sob a batuta de Telê Santana venceu Newell’s Old Boys e Universidad Católica e depois abateu Barcelona e Milan, em 1992 e 1993. Conquistas enormes, e amplamente conhecidas. É tão comum lembrá-las que não paramos para pensar que são praticamente inalcançáveis para qualquer outro clube brasileiro no estado atual das coisas. Desde o bi tricolor, por três vezes times nacionais conseguiram retornar à final continental como defensores do título (o próprio São Paulo em 1994 e 2006 e o Palmeiras em 2000) mas não ganharam nenhuma. Garantir a Libertadores por vezes consecutivas já se mostra tarefa árdua. O desempenho nos Mundiais também decaiu: se até 1993 os representantes brasileiros venceram seis dos sete que disputaram, desde então foram só quatro em onze, e em tempos recentes está difícil até fazer frente aos times africanos. Não é só o histórico estatístico que joga contra. O sucesso internacional tende a valorizar os jogadores campeões, o que esvazia os times vencedores e dificulta novas conquistas de forma imediata. Pode ser que demore mais do que três décadas até termos outro clube brasileiro exercendo hegemonia no palco global, se é que haverá algum de novo.

10. Dadá Maravilha fez dez gols em uma só partida

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Dario no Sport, onde jogou entre 1975 e 1976

O irreverente Dario, artilheiro profissional, fez história jogando pelo Sport ao marcar dez gols num jogo do Campeonato Pernambucano de 1976, contra o pobrezinho Santo Amaro (placar final: 14-0). Ele não é o único com a marca, mas há registros controversos para os outros dois casos conhecidos: Mascote, do Sampaio Corrêa, em 1934, e Caio Mário, do CSA, em 1948. Em todo caso, Dadá está garantido no rol. O feito inclusive ajudou-o a ser artilheiro do Pernambucano de 76 mesmo jogando só metade do campeonato – antes do fim, foi negociado com o Internacional e deixou a Ilha do Retiro. Se já é difícil vislumbrar goleadas dessa magnitude, imagine com participação tão avassaladora de um jogador só. É mais comum que os times se poupem depois de garantir um resultado largo, e também que mostrem misericórdia com o adversário, de modo que um placar que alcance dois dígitos é bastante impensável. Além disso, treinadores cultivam a prática de substituir um jogador que arrebenta quando a partida já está no papo para que ele saia sob aplausos, ganhando moral para si e para o time. Uma performance como a de Dario seria certamente interrompida antes da contagem de dez, com essa finalidade.

9. O Corinthians ganhou um jogo do Brasileiro por 10-1

Mas OK, sejamos flexíveis em relação aos gols de Dario e ao resultado do seu Sport. Pode ser que algum campeonato estadual dos mais periféricos, mais dados a surpresas e eventos inusitados, nos presenteie com algo próximo. Mas o que dizer da primeira divisão do principal campeonato nacional de futebol? Em 1983, pela primeira fase do Campeonato Brasileiro, o Corinthians de Sócrates surrou o Tiradentes, do Piauí, por 10-1. O próprio Doutor fez quatro gols. Foi, e ainda é, a maior goleada da história dos Brasileiros. E sempre será. Ou alguém imagina que a primeira divisão, hoje mais estruturada e competitiva, tem espaço para lavadas desse tamanho? Pelo regulamento da época classificavam-se automaticamente para a primeira divisão os campeões estaduais (caso do Tiradentes), e é cristalino que alguns deles não tinham nível para encarar os grandes times. Hoje não funciona mais assim. Um clube pode dominar seu estado por anos a fio, mas só chegará à elite nacional se atravessar as divisões inferiores uma a uma. Esse processo filtra os candidatos, de modo que a Série A é mais equilibrada e não comporta a discrepância técnica que deságua em um 10-1. Claro que, mesmo no contexto daquele momento, o resultado foi uma excrescência – o Tiradentes até conseguira vencer o Corinthians algumas semanas antes, jogando em casa. Hoje, porém, seria absolutamente proibitivo.

8. Durval foi decacampeão estadual passando por cinco clubes

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Dois dos títulos de Durval: Sport (2009) e Santos (2012)

Se você rapidamente inclui o zagueiro Durval numa lista de carreiras mais estreladas do futebol brasileiro, você provavelmente é parente dele. Mais conhecido pelas conquistas da Copa do Brasil de 2008 com o Sport e da Libertadores de 2011 com o Santos, o beque capixaba é um coadjuvante profissional, mas foi capaz de enfileirar nada menos do que dez títulos estaduais consecutivos, ao longo de passagens por cinco clubes de cinco estados e quatro regiões do país diferentes. A sequência começou em 2003, no Botafogo-PB, e seguiu por Brasiliense e Atlético Parananese – um título por camisa. Com o Sport foi um tetra, entre 2006 e 2009. Em seguida, um tri pelo Santos, até 2012. A toada só foi interrompida em 2013, mas foi por pouco: o Santos foi vice paulista, e Durval, tão determinado que estava em prolongar sua marca, até fez gol em uma das partidas da decisão, contra o Corinthians. Clubes, sempre na disputa, podem ser decacampeões – aconteceu com América-MG (1916-1925) e ABC (1932-1941), no tempo do ronca. Atletas, com suas trajetórias de altos e baixos, idas e vindas, necessitariam de uma enorme combinação de coincidências. Se o jogador é muito bom, descola transferência para algum lugar onde não há estaduais. Se é muito ruim, não vai para times competitivos. Aconteceu com Durval. Os planetas não se alinham assim duas vezes.

7. O Campeonato Gaúcho de 1994 durou mais de nove meses…

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O Inter campeão de 94: Luís Carlos Winck, Jairo, Luiz Fernando, Alex, Zinho, Sérgio Guedes / Caíco, Celso Vieira, Leandro, Nando, Dinei

Falei sobre regulamentos insanos aqui, mas só abordei Campeonatos Brasileiros. Se qualquer competição entrasse na conversa, certamente o Campeonato Gaúcho de 1994 teria dado as caras. Com uma primeira divisão inchada, composta por 23 times, a federação estadual queria um torneio que servisse para botar ordem no futebol local. Haveria nove rebaixados, sendo que um deles, o lanterna, iria direto para a terceira divisão. Era um campeonato propositalmente ruim, porque deveria deixar um cenário de terra arrasada para que o Gauchão pudesse recomeçar do zero, um pouco mais arrumado. Foi adotado um sistema de pontos corridos em turno e returno, o que significava que cada time teria que disputar impensáveis 44 partidas. A carga pesada de jogos não conseguiu conviver muito bem com o fato de que os clubes tinham outras competições para disputar ao longo do ano, o que exigiu um malabarismo de datas e várias remarcações de jogos. O estadual teve a primeira rodada no dia 5 de março, mas alguns times só puderam estrear duas semanas depois. A bola parou de rolar em 17 de dezembro, quase nove meses e meio após seu início. Mesmo na realidade anárquica dos torneios brasileiros, é muito tempo. O Campeonato Gaúcho que demorou mais do que uma gestação humana ganhou o apelido de “O Interminável”, foi um fracasso de público e crítica e ainda gerou outra marca que deve atravessar a eternidade.

6. …e o Grêmio jogou três vezes no mesmo dia

O Grêmio disputou cinco competições em 1994 (Gaúcho, Copa do Brasil, Brasileiro, Conmebol e Supercopa Libertadores), totalizando 85 jogos oficiais – média de um a cada quatro dias. O estadual era a mais desimportante delas, mas também a que mais ocupava calendário. Priorizando os demais campeonatos, o clube foi adiando seus compromissos pelo Gauchão, até que chegou no mês de dezembro ainda precisando disputar oito partidas (e só para cumprir tabela, pois já nem podia ser campeão). A solução para acomodar tudo no curto tempo que restava foi honestamente quadrúpede: fazer o Grêmio entrar em campo três vezes no mesmo dia, aliás na mesma tarde. Entre as 14h e as 20h do dia 11, o Tricolor enfrentaria, em sequência, Aimoré, Santa Cruz e Brasil de Pelotas. No calor castigante do verão de Porto Alegre, menos de 300 pessoas compareceram ao Olímpico para a rodada tripla, durante a qual o Grêmio teve que escalar 34 jogadores diferentes (muitos deles juniores). O dia hercúleo rendeu duas vitórias, um empate e faturamento total de bilheteria de R$ 690. Quatro atletas participaram de dois dos jogos, incluindo o volante Émerson, que faria longa carreira na seleção brasileira e no futebol europeu. No mesmo ano, o Juventude (também Gaúcho) e o São Paulo (Brasileiro e Conmebol) tiveram que fazer dois jogos em um dia só. Mas dose tripla, só mesmo o Grêmio.

5. Mazarópi ficou mais de 20 jogos sem tomar gol

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Mazarópi protege a meta do Vasco

O recorde mundial de impenetrabilidade de um goleiro em competições oficiais não pertence a lendas da meta como Buffon, Banks, Yashin, Casillas ou Van Der Sar. É de um brasileiro, e um que passa longe de figurar entre os maiores arqueiros da história do país. Estou falando de Mazarópi, que fez fama pelo Grêmio no anos 80. Antes disso, porém, o guarda-redes com jeito de caipira (daí o apelido) defendeu o Vasco. E como defendeu. Entre os Campeonatos Cariocas de 1977 e 1978, Mazarópi ficou 1.816 minutos sem precisar buscar uma bola no fundo do gol. Isso dá nada menos do que vinte partidas inteiras, mais uns quebrados. A série começou em jogo contra o Bonsucesso que o Vasco venceu de virada por 2-1 (o gol adversário foi marcado aos 13 do primeiro tempo). Atravessou o segundo turno inteiro do torneio de 77 – que o Vasco obviamente venceu – e o início do torneio de 78. O responsável por estragar a festa foi o meia Manfrini, do Madureira, aos 33 da primeira etapa do 21º jogo após o último gol. Fizeram parte da sequência cinco clássicos. Apenas os jogos pelo Carioca nesse período entram na contagem, porque o recorde considera invencibilidade em uma competição. Hoje, 20 jogos cabem em um estadual inteiro, e superam todo o primeiro turno do Brasileiro. Inimaginável que algum goleiro consiga sobreviver intacto a essas jornadas. No Brasil recente, a melhor tentativa pertence a Rogério Ceni, que em 2007 mal alcançou a metade da marca de Mazarópi (988 minutos). E falando nele…

4. Rogério Ceni fez mais de cem gols como goleiro

O ídolo maior do São Paulo é também o principal expoente de uma espécie em extinção no futebol: os goleiros artilheiros. Nas novas safras da posição, praticamente inexistem profissionais de alto nível que também dublem como batedores de faltas e pênaltis, as principais válvulas de escape para que os goleiros escrevam seus nomes nas tábuas de artilheiros. Essa falta de renovação no ofício é que transforma o recorde de Rogério Ceni de impressionante em imbatível. No momento em que escrevo estas mal traçadas, são 127 gols autorados pelo capitão tricolor, total que ultrapassa o dobro do registrado pelo patrono dos arqueiros matadores, o paraguaio José Luis Chilavert. Já se vão quase dez anos desde que Rogério superou Chilavert, numa histórica partida contra o Cruzeiro em que pegou um pênalti e marcou duas vezes para salvar a pele do time, que perdia por 2-0. Ao longo da carreira Rogério tornou-se o maior goleiro artilheiro de todos os principais campeonatos que disputou, e está a um tento de entrar na lista dos dez maiores goleadores do São Paulo. Pare um pouquinho e pense no absurdo desse fato. Um GOLEIRO estará entre os dez jogadores de toda a história octogenária de um clube de futebol. Quer mais? Rogério é o maior artilheiro são-paulino em Copas Libertadores e o terceiro maior em Brasileiros. Mesmo ignorando tudo isso, ficam os 127. Não há ameaça visível no horizonte.

3. O Botafogo cedeu metade da seleção na Copa de 1934

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O Brasil na Copa de 34: Martim, Pedrosa, Sylvio Hoffmann, Tinoco, Luiz Luz, Canalli, Waldemar de Britto, Leônidas da Silva, Armandinho, Luisinho

A pior participação brasileira em um Copa do Mundo foi resultado de uma bagunça institucional que se arrastou por anos e cindiu todas as categorias possíveis que faziam o esporte – atletas, clubes, dirigentes, ligas, até a federação nacional. Tudo motivado pela inevitável adoção em definitivo do regime profissional no futebol brasileiro, o que aconteceu a partir de 1933. Mas o amadorismo caiu atirando. Quando se aproximava a Copa da Itália, havia duas entidades gerindo o esporte no país: a desafiante FBF, reunindo os profissionais, e a tradicional CBD, último bastião dos amadores. Como apenas essa última era reconhecida pela Fifa, ficou encarregada da representação brasileira no mundial. Os clubes da FBF, maioria, recusaram-se a colaborar. O único grande que apoiava a CBD era o Botafogo, e basicamente o time alvinegro inteiro foi recrutado: ambos os goleiros, um zagueiro, cinco médios e dois atacantes, total de dez atletas. A CBD ainda conseguiu enxertar o elenco com outros dez jogadores profissionais que atraiu mediante pagamento (que ironia). Com metade da delegação, o Botafogo estabeleceu o recorde de mais jogadores cedidos por um clube ao Brasil numa Copa (apenas três foram titulares: o goleiro Pedrosa e os médios Martim e Canalli). Algo que só ocorreu por contingências irrepetíveis da guerra fria que profissionais e amadores travavam. Nem em outras Copas do mesmo período foi preciso convocar tantos jogadores de um só clube. Nenhuma equipe brasileira de hoje tem condições de colocar seu time titular inteiro na seleção. Clubes estrangeiros juntam mais atletas de nível mundial, mas dez brasileiros? Nem o Shakhtar Donetsk. E olha que eles tentam.

2. Gilberto Nahas expulsou dois times inteiros de uma vez

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Nahas tenta controlar avaianos e alvinegros

Gilberto Nahas foi sargento da Marinha e árbitro entre os anos 50 e 70. Em 1971, foi escalado para apitar um clássico amistoso entre Avaí e Figueirense, em Florianópolis. Organizado pelas autoridades locais, o jogo seria realizado no dia 1º de abril como celebração de aniversário do golpe militar de 1964. Havia muitos almirantes e políticos presentes ao Estádio Adolfo Konder. A peleja corria bem, sem gols, até os dez minutos do segundo tempo. Foi quando o zagueiro avaiano Deodato deu um pontapé no centroavante alvinegro Cláudio, que o provocava. A briga rapidamente se espalhou entre todos os atletas dos dois times, que transformaram o gramado num octógono. Torcedores também invadiram o campo para contribuir. O juiz Nahas, observando seu jogo se converter em caos, tomou medidas drásticas: puxou o cartão vermelho e ergueu-o para todos os lados, gritando que estava expulsando todo mundo. Sim, todo mundo. Todos os 22 jogadores numa sentada. Nem a pressão de seus superiores hierárquicos da Marinha, que foram atrás dele para reverter a decisão e garantir a continuidade do evento (não esqueça, era um jogo promovido pela ditadura), adiantou. Nahas bateu o pé, disse que a autoridade em campo era ele e manteve as expulsões. O incidente entrou para a história como “Clássico da Vergonha”. Os militares não conseguiram impedir o fim prematuro da partida, mas, nos tempos modernos, o comercialismo conseguiria. Nenhuma TV aceitaria a interrupção inesperada do jogo que transmite, então certamente há orientações aos árbitros para não perder as estribeiras desse jeito. Além do quê, nem as mais homéricas batalhas campais do futebol brasileiro resultaram em dois times no chuveiro mais cedo – no máximo, os jogadores mais exaltados de cada lado. O “golpe de estado” de Nahas, que sabotou a festa da ditadura, continuará ímpar.

1. Amadeu Teixeira treinou o América-AM por 53 anos

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A bola, a santa e Amadeu Teixeira, o Senhor América-AM

Quantos técnicos o seu time já demitiu nos últimos, digamos, cinco anos? Será que o número atinge dois dígitos? Bem provável. A dança das cadeiras dos treinadores é um fenômeno inerente ao futebol brasileiro dos dias atuais. De raro em raro conseguimos ver um clube que mantém o mesmo “professor” por três, quatro anos, quando a fase é muito boa, mas não é a regra. Amadeu Teixeira, entretanto, não dá a menor pelota para a regra. O manauara assumiu a prancheta do América de Manaus, clube de sua família, em 1955, quando o time era tetracampeão amazonense. Só foi deixar a função em 2008, mais de meio século depois. Estava, então, no primor de seus 82 anos de idade e teve que se afastar por questões de saúde, portanto não foi demitido. Foram 53 anos como técnico, um recorde inigualável, intocável, inequivocamente insuperável na história passada, presente e futura do futebol brasileiro. Um caso único de ligação umbilical entre um homem e seu time de futebol. Teixeira ajudou a fundar o América com 13 anos de idade, mas era muito ruim de bola para ser jogador. Virou roupeiro. Depois foi massagista e fisioterapeuta, antes de ser promovido a treinador e ir ficando. Não viu muito sucesso: venceu apenas uma vez o estadual, em 1994, e foi duas vezes campeão da Série B amazonense (1960 e 1962). Virou o presidente de honra do Mequinha da floresta, passando o bastão para o filho e a presidência oficial para a neta. Lenda viva do futebol local, ganhou um ginásio com seu nome em Manaus. Acima de tudo, Amadeu Teixeira estabeleceu um feito que viverá para sempre, como o maior absoluto da história do futebol brasileiro.

Os 11 maiores estádios do Brasil

Em outubro do ano passado saiu, sem nenhum alarde, a versão mais atualizada de um documento interessante que a CBF publica anualmente: o Cadastro Nacional de Estádios de Futebol. É uma compilação estatística sobre as arenas brasileiras, desde as mais acanhadas, com poucos milhares de lugares e arquibancadas que nem conseguem dar a volta no campo, até as mais monumentais, com seus assentos marcados e seu “padrão FIFA”. Traz informações interessantes, para quem gosta dessas coisas. Pode ser consultado aqui.

De lá tirei esta lista, falando um pouquinho sobre os maiores estádios do Brasil, segundo o Cadastro. A capacidade que considerei aqui foi estritamente aquela que o documento da CBF apresenta, mais especificamente o que é chamado de “capacidade de operação”.

11. Fonte Nova (Salvador, BA) – 50.025

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NOME OFICIAL
Complexo Esportivo Cultural Octávio Mangabeira
PROPRIETÁRIO
Governo da Bahia
INAUGURAÇÃO
07.04.2013 – Bahia 1-5 Vitória, Campeonato Baiano
PRIMEIRO GOL
Renato Cajá, Vitória

Esta é a nova Fonte Nova, construída para a Copa do Mundo de 2014 no mesmo local da antiga, que foi implodida em 2010. Em sua versão original, de 1951, o estádio era um colosso que chegou a comportar mais de 80 mil pessoas e recebeu os grandes momentos do futebol baiano. O Bahia conquistou lá seus títulos nacionais de 1959 e 1988, e o Vitória venceu duas Copas do Nordeste sobre o maior rival, além de disputar a final do Brasileiro de 1993. Porém, a tradicional arena de Salvador foi condenada em 2007, um pedaço da arquibancada superior cedeu e sete pessoas morreram no desabamento. O novo estádio manteve o nome, uma homenagem ao governador da Bahia na época da inauguração do original. Como palco da Copa do Mundo recebeu seis jogos e o apelido de “Fonte dos Gols”, pelos placares elásticos que presenciou. Antes do torneio, em 2013, a Fonte teve uma inauguração movimentada. O evento deveria servir de teste para a caxirola, espécie de chocalho inventado pelo músico Carlinhos Brown para ser o instrumento oficial da Copa. Todos os torcedores receberam uma. O Vitória goleou o Bahia por 5-1 em clássico válido pela 4ª rodada do estadual, e a torcida tricolor, descontente com o time, atirou as caxirolas nos jogadores em protesto. Dali para frente o instrumento foi banido. Em 2016, alguns jogos de futebol das Olimpíadas do Rio de Janeiro terão lugar na Fonte.

10. Albertão (Teresina, PI) – 52.296

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NOME OFICIAL
Estádio Governador Alberto Silva
PROPRIETÁRIO
Governo do Piauí
INAUGURAÇÃO
25.08.1973 – Tiradentes 0-0 Fluminense, Campeonato Brasileiro
PRIMEIRO GOL
Dirceu Lopes, Cruzeiro (29.08, Tiradentes 1-1 Cruzeiro)

Nossa lista de maiores estádios brasileiros verá agora duas excentricidades, a começar pelo Albertão, localizado em Teresina. Foi erguido na gestão do governador Alberto Silva, cujo nome também batiza a obra, para a estreia do futebol piauiense no cenário nacional. O protagonista era o Tiradentes, tricampeão estadual nos anos 70, que estreou no Campeonato Brasileiro em 1973. O jogo inaugural do estádio terminou num anticlimático 0-0 com o Fluminense, mas foi marcado pelo acidente que matou cinco pessoas: uma grade de segurança que separava as gerais do fosso ao redor do campo quebrou, derrubando parte da multidão que se aglomerava no setor. Em 2013, mesmo sem chance alguma de ser escolhido como sede da Copa do Mundo, passou por uma reforma de cerca de R$ 30 milhões para modernização e ampliação. A foto acima, aliás, é da face antiga do Albertão – não é fácil achar fotos novas de boa qualidade que mostrem o estádio inteiro do alto. O aporte multimilionário não foi suficiente para deixar a arena em perfeitas condições, e o governo do Piauí já prepara uma nova fase de reparos emergenciais para corrigir defeitos primários nas estruturas.

9. Parque do Sabiá (Uberlândia, MG) – 53.350

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NOME OFICIAL
Estádio Municipal João Havelange
PROPRIETÁRIO
Prefeitura de Uberlândia
INAUGURAÇÃO
27.05.1982 – Brasil 7-0 Irlanda, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Falcão, Brasil

O segunde peixe fora d’água vem do Triângulo Mineiro, mais especificamente de Uberlândia. É também a única arena da nossa lista que não fica em uma capital. O Parque do Sabiá, mesmo nome de uma famoso parque ecológico da cidade, tem a distinção de ser o último estádio a receber a seleção brasileira de Telê Santana, Zico, Falcão e Sócrates antes da estreia na Copa do Mundo de 1982. O time inaugurou o campo em seu último amistoso de preparação para o mundial, e fez bonito, goleando categoricamente a Irlanda. Pouco depois o estádio foi palco do título nacional da segunda divisão do Uberlândia Esporte Clube – que desde então não chegou nem perto de glória semelhante e hoje mal se mantém na elite de Minas Gerais. O Parque do Sabiá, porém, continua firme e forte em seu gigantismo. Recebeu o Sul-Americano de Futebol Feminino de 1995 e foi uma das casas temporária do Cruzeiro durante as reformas no Mineirão para a Copa do Mundo de 2014. Em 95, por sugestão do vereador Leonídio Bouças, o estádio mudou de nome oficial para João Havelange – a população local, não muito contente, ainda prefere usar a nomenclatura original.

8. Beira-Rio (Porto Alegre, RS) – 56.000

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NOME OFICIAL
Estádio José Pinheiro Borda
PROPRIETÁRIO
Sport Club Internacional
INAUGURAÇÃO
06.04.1969 – Internacional 2-1 Benfica, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Claudiomiro, Internacional

Voltamos à nossa programação normal, com estádios de times relevantes em cidades futebolisticamente importantes. O Beira-Rio, casa do Internacional, nasceu como um revide. O Colorado originalmente mandava seus jogos no acanhado Estádio dos Eucaliptos. Nos anos 60, viu o megarrival Grêmio erguer o seu Olímpico e vencer 12 dos 13 estaduais subsequentes. O Inter encheu-se de brios, arranjou um terreno às margens do Guaíba (que não é um rio, e sim um enorme e comprido lago, mas os porto-alegrenses não gostam de ser lembrados disso) e construiu seu novo estádio. Batizado oficialmente em homenagem ao engenheiro português que comandou as obras e morreu pouco antes da inauguração, o novo lar logo recebeu a alcunha de Gigante da Beira-Rio, tão pomposa quanto o nome da (então) arena do seu coirmão. O efeito foi imediato: o Inter foi octacampeão gaúcho a partir do momento em que teve o Beira-Rio (batendo o recorde gremista de sete títulos consecutivos) e venceu três Brasileiros nos anos 70. Anos depois, conquistou suas duas Libertadores jogando as partidas decisivas no estádio. O Beira-Rio recebeu cinco jogos da Copa do Mundo de 2014 e fez história ao ser o primeiro palco do uso decisivo da novíssima tecnologia de linha do gol da FIFA: o primeiro gol da França na vitória por 3-0 sobre Honduras, na fase de grupos, só foi sacramentado com a ajuda eletrônica, que fazia sua estreia em competições oficiais.

7. Arena do Grêmio (Porto Alegre, RS) – 56.500

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NOME OFICIAL
Arena do Grêmio
PROPRIETÁRIO
Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense
INAUGURAÇÃO
08.12.2012 – Grêmio 2-1 Hamburgo, Amistoso
PRIMEIRO GOL
André Lima, Grêmio

Se a diferença de capacidade entre o Beira-Rio e a novíssima Arena do Grêmio (cerca de 500 cabeças) parece pequena, é porque é mesmo, e de propósito. Só a maior rivalidade do futebol brasileiro é capaz de motivar um clube a construir um estádio minuciosamente calculado para ser o mínimo possível maior do que o de seu arquirrival, só de sacanagem. Deus abençoe o Gre-Nal. Mas divago. A Arena transportou o Grêmio de sua tradicional sede no bairro da Azenha para os limites de Porto Alegre, onde haveria mais espaço para a construção de um estádio de maiores dimensões. Além da perda do histórico Olímpico (que ainda está de pé, mas inativo), os gremistas certamente lamentaram a falta de espaço na nova casa para realizar a “avalanche”, tradicional comemoração tricolor em que os torcedores descem correndo as arquibancadas em grupo, criando um magnífico efeito visual – e um risco de pisoteamento. Numa das primeiras avalanches, em janeiro de 2013, um pedaço de alambrado cedeu com o peso da massa que se acumulava na frente, derrubando torcedores no campo. Não houve feridos graves, mas o clube decidiu acrescentar cadeiras ao setor, efetivamente impedindo a prática. A inauguração do estádio, um grande evento até com apresentação do grupo americano Blue Man Group, foi uma reedição da final do Mundial Interclubes de 1983, vencido pelo Grêmio, e o placar foi até igual. A Arena é o maior estádio do Sul do Brasil.

6. Arruda (Recife, PE) – 60.044

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NOME OFICIAL
Estádio José do Rego Maciel
PROPRIETÁRIO
Santa Cruz Futebol Clube
INAUGURAÇÃO
04.06.1972 – Santa Cruz 0-0 Flamengo, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Betinho, Santa Cruz (07.06, Santa Cruz 1-0 Seleção Brasileira Olímpica)

Não é por acaso que o estádio do Santa Cruz leva o apelido de “Mundão do Arruda”. O local já chegou a abrigar mais de 100 mil torcedores, e hoje, mesmo com a capacidade reduzida, ajuda a manter o Santinha como constante recordista de média de público no futebol brasileiro. O nome oficial da arena homenageia o ex-prefeito do Recife (e pai do ex-vice-presidente da República Marco Maciel) que facilitou a obtenção do terreno para o Santa Cruz, ainda na década de 50. Já o nome popular é o mesmo do bairro onde o campo se localiza. O processo de construção foi arrastado e difícil, durou quase 20 anos e contou muito com a ajuda dos torcedores, que se mobilizaram para doar materiais e até mesmo trabalhar nas obras de graça. Depois de todo o esforço, os fieis seguidores corais foram recompensados com um jogo inaugural sem gols, num amistoso contra o Flamengo. Foi preciso arranjar outra partida, contra a seleção olímpica de Falcão, para ver o primeiro gol – felizmente, de um atleta da casa. O Arruda foi um dos palcos da Copa América de 1989, mas não integrou a lista de sedes da Copa do Mundo de 2014. A organização do mundial preferiu construir, com muito dinheiro público, uma nova arena na capital pernambucana a usar o segundo maior estádio particular do país, já pronto.

5. Mineirão (Belo Horizonte, MG) – 61.846

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NOME OFICIAL
Estádio Governador Magalhães Pinto
PROPRIETÁRIO
Governo de Minas Gerais
INAUGURAÇÃO
05.09.1965 – Seleção Mineira 2-1 River Plate, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Buglê, Seleção Mineira

O local é de más lembranças para o futebol brasileiro depois da Copa de 2014, desnecessário explicar o porquê, mas o Mineirão tem uma formidável história que o 7-1 não pode derrubar. A trajetória do futebol de Minas Gerais é dividido entre antes e depois do estádio. Não é modo de dizer. Os campeonatos estaduais realizados a partir da inauguração compõem aquilo que os estudiosos chamam de “Era Mineirão”. Cruzeiro e Atlético Mineiro viveram bons anos no início da vida da arena: a Raposa levou uma Taça Brasil de forma invicta em 1966 e uma Libertadores em 1976, enquanto o Galo foi campeão brasileiro em 1971 e vice em 1977, isso sem contar os estaduais. A rivalidade entre Cruzeiro e Atlético é provavelmente uma das maiores do mundo a ser contestada no mesmo estádio (ou seja, sem que cada clube tenha uma casa diferente), e os maiores jogadores de cada clube, respectivamente Tostão e Reinaldo, são os reis de gols do Mineirão. Em 2014, já depois da Copa, foi realizada lá a final da Copa do Brasil entre os arquirrivais mineiros, um dos grandes momentos do clássico. Vale uma curiosidade: os dois gols inaugurais do estádio forma marcados por jogadores do Atlético, mas nenhum valeu para o Atlético. Na primeira partida, o meia atleticano Buglê estreou as redes, mas ele atuava naquele dia pela seleção mineira. Na reabertura após as reformas para a Copa do Mundo, o lateral-direito Marcos Rocha, do Galo, fez contra e ajudou – logo quem – o Cruzeiro. O Mineirão recebeu seis jogos do mundial, incluindo uma semifinal, aquela mesmo. Receberá partidas de futebol nas Olimpíadas de 2016.

4. Castelão (Fortaleza, CE) – 63.903

castelao

NOME OFICIAL
Estádio Governador Plácido Castelo
PROPRIETÁRIO
Governo do Ceará
INAUGURAÇÃO
11.11.1973 – Ceará 0-0 Fortaleza, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Erandy, Ceará (18.11, Ceará 1-0 Vitória)

O maior estádio do Nordeste do Brasil é cearense. O Castelão foi também a única sede nordestina da Copa do Mundo de 2014 a receber a seleção brasileira, o que fez por duas vezes, e ainda viu mais três jogos da competição. É o palco histórico do Clássico-Rei, a rivalidade entre Ceará e Fortaleza, que polariza o estado. Bote polarização nisso: dos dez maiores públicos do Castelão em todos os tempos, cada clube foi responsável por cinco. Assim como o Arruda, o Castelão também teve que esperar/organizar uma segunda partida para ver seu gol de estreia, já que o amistoso inaugural, justamente entre os grandes rivais da capital, terminou zerado. Batizado em homenagem a um governador, prática muito comum, o estádio foi erguido durante o frenesi de construção de grandes arenas esportivas que se seguiu à conquista do tricampeonato mundial pela seleção brasileira. Ele tem um homônimo menos famosos: o Castelão de São Luís (MA), que figuraria nesta lista há alguns anos. O Castelão (original) foi local também de um encontro entre o Papa João Paulo II e o músico Luiz Gonzaga, em 1980, quando o pontífice, visitando o Brasil pela primeira vez, participou do Congresso Eucarístico Nacional em Fortaleza e foi homenageado pelo Rei do Baião.

3. Morumbi (São Paulo, SP) – 66.795

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NOME OFICIAL
Estádio Cícero Pompeu de Toledo
PROPRIETÁRIO
São Paulo Futebol Clube
INAUGURAÇÃO
02.10.1960 – São Paulo 1-0 Sporting, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Peixinho, São Paulo

O São Paulo tem duas datas de fundação, então seria bastante apropriado que o seu estádio também fosse inaugurado duas vezes. Essa curiosidade marca o Morumbi, o maior estádio particular do Brasil. A construção de sua arena custou caro ao Tricolor, que passou por uma longa seca de títulos enquanto dedicava recursos à obra. Em 1960, com o estádio só meio pronto, realizou-se a inauguração referida acima, contra o Sporting de Lisboa. Mas os trabalhos só foram concluídos dez anos depois, e fez-se outro jogo, contra o também português Porto. Sorte do São Paulo que a primeira impressão é que vale e a inauguração considerada oficial é a primeira, porque o time venceu o jogo e conseguiu anotar o primeiro gol – contra o Porto, foi empate e os lusitanos abriram o placar. O Morumbi valorizou o bairro de mesmo nome, que, se hoje é um dos mais nobres da cidade de São Paulo, antes do estádio era uma região esquecida. Batizado em homenagem ao presidente do clube que comandou o início da construção (e morreu sem ver a obra pronta), o Morumbi recebeu por muito tempo os grandes jogos do futebol paulista, mesmo os que não envolviam o São Paulo. O maior público, por exemplo, foi na final do Paulista de 1977, entre Corinthians e Ponte Preta. No entanto, os maiores momentos vividos lá foram mesmo protagonizados pelos donos da casa: duas das três Libertadores são-paulinas foram sacramentadas no gramado do Morumbi.

2. Mané Garrincha (Brasília, DF) – 72.288

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NOME OFICIAL
Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha
PROPRIETÁRIO
Governo do Distrito Federal
INAUGURAÇÃO
18.05.2013 – Brasília 0-3 Brasiliense, Campeonato Brasiliense
PRIMEIRO GOL
Bocão, Brasiliense

Assim como a Fonte Nova, o Mané Garrincha também aparece aqui em sua nova versão, depois de ter sido posto abaixo para receber a Copa do Mundo. Inaugurado em 1974, o primeiro Mané só foi receber o nome de um dos maiores jogadores da história do futebol depois que o próprio Garrincha esteve no Distrito Federal, já em fim de carreira, para disputar um amistoso – em outro estádio, ressalte-se. Inicialmente a personalidade que dava nome à arena da capital era o ex-governador Hélio Prates. Ao refazê-lo para a Copa, o governo local esteve a ponto de erradicar a homenagem ao ponta-direita, rebatizando a obra apenas de Estádio Nacional, mas a pressão popular conseguiu garantir a manutenção do nome histórico. O Mané Garrincha foi o estádio mais caro de toda a Copa do Mundo, com custos totais girando em volta de R$ 1 bilhão, inteiramente em dinheiro público. Para uma cidade que não tem representante sequer na segunda divisão nacional desde 2010 é um exagero injustificável. Entretanto, grandes times nacionais têm cultivado o hábito de mandar algumas partidas em Brasília, o que traz alguma atividade futebolística relevante ao estádio. No mundial foram sete partidas recebidas, incluindo duas do Brasil. A abertura da Copa das Confederações de 2013 também se realizou no Mané Garrincha, e alguns jogos de futebol das Olimpíadas de 2016 terão lugar lá. Além de ser o segundo maior estádio brasileiro, é o maior das regiões Centro-Oeste e Norte.

1. Maracanã (Rio de Janeiro, RJ) – 78.838

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NOME OFICIAL
Estádio Jornalista Mário Filho
PROPRIETÁRIO
Governo do Rio de Janeiro
INAUGURAÇÃO
16.06.1950 – Seleção Carioca 1-3 Seleção Paulista, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Didi, Seleção Carioca

E chegamos a ele, o maior de todos. E por muitos anos foi mesmo. A capacidade total do Maracanã um dia chegou a espantosos 120.000 espectadores, colocando-o como maior palco para futebol do planeta, mas sucessivas reformas foram minando o tamanho do estádio, substituindo a lendária geral por cadeiras, e o honroso posto teve que ser abandonado. Segundo quem se habituou aos anos gloriosos do estádio, nem o charme sobrou. As lembranças, porém, não são poucas. O Maracanã foi megalomaniacamente construído para abrigar a Copa do Mundo de 1950 e, implicitamente, para abrigar o primeiro título mundial do Brasil. O público da final (contabilizadas todas as pessoas dentro do estádio, não apenas nas arquibancadas) foi inacreditável: 200.000 pessoas. Todas saíram decepcionadas com a queda diante do Uruguai. Poderia aquele monumento superar tão doloroso debute? Poderia, ah se poderia. O Maracanã tornou-se um personagem próprio da história do nosso futebol, palco de craques, esquadrões, decisões épicas e momentos inesquecíveis. Imortalizou o histórico Mário Filho, principal jornalista esportivo do Brasil e quem mais advogou pela construção de um estádio faraônico no Rio de Janeiro, um sujeito tão grande que, segundo seu irmão Nelson Rodrigues, merecia ser enterrado no Maracanã. Foi-o simbolicamente, emprestando seu nome depois da morte. O Maracanã tornou-se em 2014 apenas o segundo estádio do mundo a receber duas finais de Copa, e hospedará as Olimpíadas de 2016. Já recebeu Copa América, Copa das Confederações, Jogos Pan-Americanos. Toda essa história começou com um gigante: Didi, um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, que fez o primeiro gol do estádio ainda como juvenil. Lá foi a casa de Garrincha, Pelé (o Santos mandou jogos oficiais no local), Gérson, Rivellino, Roberto Dinamite, Zico, Romário. Quem chega às portas do estádio é recebido por uma estátua do zagueiro e capitão Bellini erguendo para sempre a Taça Jules Rimet. É, inquestionavelmente, um lugar de mitos. E o maior, em todos os sentidos, estádio do Brasil.

Os 11 regulamentos mais estapafúrdios do Campeonato Brasileiro

A CBF discute com os clubes e a Rede Globo a mudança do regulamento do Campeonato Brasileiro – mais uma vez. Após doze temporadas seguidas repetindo as regras da disputa, um recorde para a caótica organização do futebol do país, é possível que os pontos corridos acabem por dar lugar ao retorno do mata-mata. Seria o ideal? Honestamente, não sei. Vejo méritos nas duas fórmulas e acho que um debate aberto sobre o assunto seria muito bem-vindo. Além disso, nenhum modelo é intocável, e o passar dos anos pode trazer necessidade e interesses diferentes para os torcedores.

O problema é que, quando se trata de elaborar o Campeonato Brasileiro, a preferência do torcedor vem em último lugar na lista de ingredientes usados para se criar um regulamento. Xícaras de jeitinho, colheres de politicagem, pitadas de viradas de mesa e surrealismo a gosto dão o tom da principal competição do futebol brasileiro há décadas. Já que o papo voltou, vamos recordar as maiores atrocidades em forma de livro de regras que o nosso futebol já teve que engolir.

11. 1989 – Pontos cumulativos

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O Vasco campeão de 89: Mazinho, Luís Carlos Winck, Zé do Carmo, Quiñonez, Marco Aurélio, Acácio / William, Sorato, Boiadeiro, Bebeto, Bismarck

As duas primeiras fases do Campeonato Brasileiro de 1989 foram um exercício do subtração. Os 22 times foram divididos em dois grupos de 11. Na primeira fase, os grupos se enfrentavam internamente. Cada clube fazia, então, dez jogos. Ao fim, cada grupo classificava seus oito primeiros para a segunda fase, enquanto os seis piores times seguiam para a disputa do Torneio de Rebaixamento (jogos de ida e volta, os quatro últimos caíam). No entanto, as equipes não foram redistribuídas, e os grupos permaneceram os mesmos – a única diferença era a exclusão dos lanternas. A partir daí, os times enfrentavam os integrantes do outro grupo, num total de oito confrontos para cada participante. O detalhe é que os pontos conquistados na primeira fase eram mantidos. Ou seja, se em teoria havia duas fases, na prática o torneio consistia em uma fase de dois turnos – sendo que os piores do primeiro eram excluídos da disputa do segundo. Ao fim, o melhor de cada grupo na soma de todas as rodadas avançava à final, onde o Vasco, do grupo B, venceu o São Paulo, do grupo A. O sistema de pontos cumulativos não pegou.

10. 1973 – A farra dos grupos

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O Palmeiras campeão de 73: Eurico, Leão, Luís Pereira, Alfredo Mostarda, Dudu, Zeca / Edu, Leivinha, César, Ademir da Guia, Nei

A primeira grande engorda do Campeonato Brasileiro – de 26 para 40 participantes – exigiu um certo contorcionismo da CBD para criar uma disputa ampla na primeira fase. Em um primeiro turno, os times eram divididos sem muito critério em dois grupos de 20 e se enfrentavam dentro das chaves em jogos só de ida, totalizando 19 partidas. Passada essa etapa, as equipes foram reembaralhadas em quatro grupos de 10, a partir de um método vagamente geográfico, e jogaram mais nove vezes. Ao fim, portanto, de 28 rodadas compilavam-se todos os pontos e classificavam-se para a segunda fase os 20 melhores da classificação geral, independente do desempenho relativo dentro dos grupos em cada turno. Para completar a bagunça da primeira fase, os jogos de cada equipe não foram divididos igualmente entre casa e fora. O Olaria, por exemplo, teve mando de campo em duas míseras partidas. No extremo oposto, o Figueirense atuou em casa inacreditáveis 23 vezes. O título ficou com o Palmeiras, bicampeão.

9. 1975-1978, 1994 – Repescagem favorece os piores

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Em 1977, o Londrina (camisa listrada) foi 8º no seu grupo de 10 times na primeira fase, mas, graças à repescagem, chegou à semifinal, onde enfrentou o Atlético Mineiro

O modelo de fases preliminares eliminatórias servia bem ao Brasileiro nos primeiros anos, para evitar que os clubes tivessem que viajar muito pelo país enfrentando todos os outros participantes de um campeonato já inchado. Porém, era preciso agradar politicamente os centros periféricos (a razão pela qual, afinal de contas, o governo ditatorial acrescentava tantos times ao torneio), mesmo que seus representantes não tivessem condições competitivas de brigar pelas vagas para as fases decisivas. A solução inventada em 1975 foi uma repescagem, logo depois da primeira fase, a ser disputada por todos os últimos colocados dos grupos. Uma nova oportunidade para que os mais fracos prosseguissem na disputa. Só que a repescagem não dava vaga para a segunda fase: jogava seus classificados diretamente na terceira. Ou seja, os campeões dos grupos tinham que disputar entre si lugares na terceira fase, enquanto quem caísse mais cedo só enfrentava os demais “capachos” pelas mesmas vagas. Era, então, uma segunda fase alternativa, só que contra competição mais fraca. O modelo vigorou até 1978 e foi ressuscitado por razões insondáveis em 1994 – se bem que com o ônus de rebaixar quem não sobrevivesse à segunda chance. Apenas dois times, em todo esse histórico, alcançaram as semifinais do campeonato vindos da repescagem: o Londrina de 1977 e o Atlético Mineiro de 1994.

8. 1974 – Classificação por renda

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Em 74 a torcida do Fluminense teve um papel muito mais direto para influenciar o sucesso de seu time no Campeonato Brasileiro

A média de público do Brasileiro vinha em decadência desde os tempos de Robertão. Uma ideia inédita e pouquíssimo ortodoxa foi implementada no torneio de 1974 para tentar reverter esse quadro: a renda de bilheteria dos times como critério de classificação. Na primeira fase os 40 times estavam divididos em dois grupos de 20. Os 10 primeiros de cada grupo, mais os dois de melhor desempenho geral fora dessas posições, passariam adiante. Aí vinha o truque: avançariam, ainda, os dois clubes dentre os demais com as maiores rendas acumuladas em suas partidas. A norma beneficiou o Fluminense, 16º do Grupo A, e o Nacional-AM, 17º do Grupo B – em meio a suspeitass de que seus próprios dirigentes haviam comprado ingressos para inflar os números. Logo ficou claro que beneficiar os campeões de público não faria sentido para a competição. Primeiro porque os dois times não chegaram nem perto de brigar pelas vagas na fase seguinte. Segundo porque a média de público do campeonato, mesmo com o incentivo nada sutil para levar mais torcida aos estádios, foi a pior da década até então. Foi a primeira e última aparição da classificação por renda.

7. 1985 – Dois mundos em um torneio

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Coritiba (camisa listrada) e Bangu fizeram a final mais inusitada de todos os Brasileiros – conclusão perfeita para um campeonato que promoveu artificialmente os pequenos ao nível dos grandes

A repartição do Brasileiro em duas divisões e o sistema de rebaixamento e acesso estavam em pleno e próspero funcionamento (mesmo que de forma inusitada, como veremos adiante) desde 1980, e pareciam consolidados. Por algum motivo isso passou a ser um problema em 1985, quando a CBF resolveu simplesmente promover a segunda divisão inteira de uma vez. Ou quase isso. Os 20 times que comporiam a Taça de Ouro (primeira divisão) foram divididos nos grupos A e B e jogaram entre si, enquanto que os 22 da Taça de Prata (segunda divisão) formaram os grupos C e D e se enfrentaram. A primeira fase se realizou, então, ainda segregada. As divisões conviveram, mas não se encontraram. Cada grupo classificava quatro equipes para a segunda fase integrada. Isso significa que as melhores se digladiaram pelo mesmo número de vagas que as piores. Apenas então, com quatro grupos de quatro, é que houve a mescla de divisões. Esse tratamento igualitário permitiu campanhas mais longas de clubes como CSA, Joinville, Mixto, Brasil de Pelotas (semifinalista) e Bangu (vice-campeão). O título ficou com o surpreendente Coritiba, oriundo dos grupos da Taça de Ouro mas ainda assim uma grande surpresa.

6. 1980-1984 – Acesso no mesmo ano

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Em 1982, o Corinthians (camisa branca) começou o Brasileiro na segunda divisão, mas se aproveitou do acesso expresso, chegou à primeira para as fases decisivas e pegou o Grêmio na semifinal

Na virada dos anos 70 para os 80, a CBD se desmembrou em várias confederações esportivas específicas, entre elas a CBF. Com isso, a organização do Campeonato Brasileiro também passou por transformações. O torneio foi dividido em três divisões – as taças de Ouro, de Prata e de Bronze -, cada qual com sua própria disputa, e um sistema de rebaixamento e acesso foi instituído entre elas. Tudo parecia mais organizado e estável. Mas não seria Brasileirão sem um pingo de criatividade. Estabeleceu-se que a classificação para o campeonato seria por meio dos estaduais: os melhores colocados iriam para a Taça de Ouro, os imediatamente abaixo para a Taça de Prata, e assim por diante. Para contornar o risco de ver times grandes na segunda divisão nacional por conta de deslizes regionais, criou-se a ferramenta do acesso à primeira divisão na mesma temporada. Após uma primeira fase, os quatro melhores colocados da Taça de Prata eram promovidas à disputa da segunda fase da Taça de Ouro, e podiam competir pelo título da divisão principal. Curiosamente a disputa da Taça de Prata continuaria sem eles, significando que os melhores times da segunda divisão não podiam brigar pelo título da… segunda divisão! Campeão e vice da Taça de Prata também subiriam, mas só no ano seguinte. A norma beneficiou clubes tradicionais como Sport, Bahia, Palmeiras, Corinthians e Guarani, que começaram diferentes anos na segundona por más campanhas estaduais e rapidamente voltaram à elite. O Corinthians de 1982, aliás, foi semifinalista. Em 1984 apenas um time ganhou o benefício, e no ano seguinte a regra já havia desaparecido.

5. 1979 – Paulistas pulam fora

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O Internacional campeão de 79: João Carlos, Benítez, Mauro Pastor, Falcão, Mauro Galvão, Cláudio Mineiro / Valdomiro, Jair, Bira, Batista, Mário Sérgio

O Brasileiro de 79 foi o ápice da ingerência política no torneio e o recordista (até então) de participantes: absurdos 94 . O campeonato precisou se adaptar também à possibilidade da realização de um Torneio Rio-São Paulo, que tumultuaria o calendário de paulistas e cariocas. Decidiu-se que os 12 participantes do Rio-São Paulo entrariam no Brasileiro já na segunda fase. Eles se juntariam aos classificados da primeira fase, que seriam (prepare-se) os quatro primeiros dos grupos A e C, os cinco primeiros dos grupos B, D, E e F e os oito primeiros dos grupos G e H. Total da segunda fase: 56. Dali sairiam 14 para a terceira fase, e aqui, por incrível que pareça, é que começa o problema. A esses 14 seriam adicionados Guarani e Palmeiras, já previamente classificados à terceira fase por terem sido campeão e vice do Brasileiro de 78. Só que os demais times grandes paulistas não gostaram nadinha do favorecimento a seus rivais e pleitearam o direito a também só entrarem na disputa mais à frente. O pedido foi negado, então Corinthians, Portuguesa, Santos e São Paulo simplesmente desistiram de participar. Tiveram que ser substituídos às pressas, de modo que os representantes do estado de São Paulo no principal campeonato de futebol do país foram Comercial, Francana, Inter de Limeira, São Bento, XV de Jaú e XV de Piracicaba – além de Guarani e Palmeiras, claro, que não tinham nada a ver com isso. Quem se aproveitou foi o Internacional, que conseguiu ser campeão invicto. Ah, e o Rio-São Paulo que bagunçou o coreto do Brasileiro acabou nem acontecendo.

4. 1993 – Rebaixamento seletivo

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Grêmio e Fluminense se enfrentam em jogo que não deveria ter acontecido, já que o tricolor gaúcho estaria na segundona se não fosse o bizarro regulamento

A história do Brasileiro de 1993 começa com uma virada de mesa arquitetada para beneficiar o Grêmio. O clube gaúcho havia caído para a segunda divisão em 1991 e não conseguira o retorno em 1992, ficando apenas em 9º. Para resgatar os tricolores, a CBF rasgou o regulamento estabelecido e promoveu nada menos que 12 times da segundona, além de cancelar o rebaixamento de 92 (bom para Náutico e Paysandu, que cairiam). Em 93, com 32 times no torneio, a confederação dividiu-os em quatro grupos baseados em critérios quase técnicos. Nos grupos A e B, os membros do Clube dos 13 (Grêmio incluso) mais os três melhores não-membros do ano anterior: Bragantino, Guarani e Sport. Os demais foram para os grupos C e D. Após ida e volta dentro dos grupos, passariam à segunda fase os seis melhores de A e B e os dois melhores de C e D. O rebaixamento viria para os oito piores no geral – desde que eles pertencessem aos grupos C e D. Ou seja, os maiores clubes brasileiros foram imunizados da queda – incluindo aí o Grêmio, que nem deveria estar na primeira divisão, para começo de conversa. Ao final, das cinco piores campanhas do torneio, quatro foram de times protegidos, que, portanto, não caíram. Nem Náutico e Paysandu, que já deveriam ter caído. Enquanto isso, o América-MG, 16º no quadro geral, foi um dos rebaixados. O ano seguinte retomou um semblante de normalidade.

3. 1986 – Regulamento pra quê?

1986
Revista Placar noticia a consolidação da virada de mesa que definiu e desfigurou o Brasileiro de 86

Após o imbróglio de 1985, a CBF decidiu usar o Brasileiro de 1986 para arrumar a casa. Novamente a segunda divisão pôde competir por vagas na segunda fase da elite, através do chamado Torneio Paralelo, que reunia 36 equipes. Na divisão principal, chamada de Copa Brasil, eram 44 times divididos em quatro grupos de 11. Avançavam os seis primeiros de cada, mais os quatro melhores no geral que não alcançassem essas posições. Com mais quatro oriundos do Torneio Paralelo, seriam 32 classificados à segunda fase. A ideia é que os 24 melhores desse etapa compusessem a primeira divisão a partir do ano seguinte. Pois bem. Tudo isso que eu expliquei, que já não é simples, não serviu para nada. O Vasco fez má campanha e brigava por um dos quatro lugares destinadas às “sobras” da classificação geral, mas estava ficando para trás. No desespero, recorreu à CBF para protestar contra uma decisão que dava ao Joinville – rival dos cariocas na disputa por vaga – os pontos de um jogo contra o Sergipe por motivo de doping. Ganhou o caso e a vaga. Porém, o Joinville foi apoiado pelo Conselho Nacional de Desportos e também acabou classificado. A CBF precisou inventar uma regra para desclassificar alguém, e a vítima foi a Portuguesa (segunda colocada no seu grupo), sob alegação de ter um processo correndo na Justiça comum, o que seria irregular. Os demais clubes paulistas se mobilizaram em solidariedade à Lusa, ameaçando abandonar o campeonato, e a CBF cedeu mais uma vez. O resultado foi ter em suas mãos uma segunda fase com 33 times, o que tornava impraticável elaborar um calendário. Solução? Ora, perdido por um, perdido por dez. A confederação picotou o que ainda restava de regulamento e determinou a classificação de mais três times, só para chegar ao número mais palpável de 36 remanescentes. Com tantas idas e voltas o torneio só foi concluído em fevereiro do ano seguinte, e a tentativa de criar um marco para a pacificação do Campeonato Brasileiro saiu por todas as culatras possíveis.

2. 2000 – Ode ao absurdo

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O Vasco de Romário enfrenta o São Caetano no misericordioso fim de um campeonato gigantesco, confuso e que todos só queriam deixar para trás

É difícil diagnosticar onde o Campeonato Brasileiro de 2000 começou a dar errado. A única certeza é que não houve sequer uma decisão racional envolvida no processo que construiu um torneio Frankenstein, que teve, na prática, inacreditáveis 116 participantes. No ano anterior, o rebaixamento fora tumultuado pelo célebre caso Sandro Hiroshi, que rendeu pontos extras ao Botafogo e salvou o time carioca da queda às custas do Gama. Inconformado, o alviverde de Brasília entrou na Justiça comum apoiado até mesmo pelo então senador José Roberto Arruda (ele mesmo). Na batalha judicial que se seguiu, a CBF viu-se proibida de organizar o campeonato de 2000. Passou o encargo ao Clube dos 13, pela segunda vez na história (a primeira, veremos adiante, também não havia dado muito certo). Temerosa de organizar as diferentes divisões sem a certeza de quem deveria ficar, cair ou subir, a entidade surtou. Aboliu as divisões e criou quatro módulos: Azul, Amarelo, Verde e Branco. Cada um teria um número diferente de integrantes e uma fórmula distinta de disputa e representaria mais ou menos uma “divisão”, com a particularidade que haveria encontro entre módulos na fase final. Ao monstro parido deu-se o nome de Copa João Havelange. Neste momento eu paro para você pegar um café, porque a coisa vai ficar feia.

No Módulo Azul fez-se a festa. Entraram os 18 times que teriam direito de permanecer na primeira divisão; o Goiás e o Santa Cruz, que conquistaram o acesso; o Gama, protegido pela Justiça; o Juventude, que seria rebaixado mas foi salvo sabe-se lá por quê; o Bahia e o América-MG, que não se classificaram na segundona mas acabaram pescados assim mesmo; e o Fluminense, que havia sido campeão da terceira divisão e foi autorizado a pular a segunda. Total: 25 times e incontáveis viradas de mesa. No Módulo Amarelo, 15 times que, depois de desrespeitados todos esses detalhes anteriores dos regulamentos, estariam na segunda divisão e mais 21 convidados arbitrários, totalizando 36. No Módulo Verde, 28 clubes selecionados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No Módulo Branco, 27 clubes selecionados do Sudeste e Sul. Sim, o pistolão rolou solto.

Ainda está aí? Ótimo. Não vale a pena explicar os regulamentos particulares de cada módulo. Saiba apenas que, no fim das disputas, sobravam 16 finalistas: 12 do Azul, 3 do Amarelo e 1 de Verde e Branco. Eles se enfrentaram em mata-mata até que sobrassem dois, que fariam a decisão e disputariam o título. Em teoria, portanto, um time que nem fizesse parte do Campeonato Brasileiro em 1999 em qualquer divisão podia brigar pelo troféu em 2000, se ganhasse o convite para os módulos inferiores. O insignificante Malutrom, que havia se profissionalizado dois anos antes, foi o representante dos módulos Verde e Branco, mas acabou eliminado pelo Cruzeiro logo de cara. Porém, o São Caetano, oriundo da segunda divisão de 99 e do Módulo Amarelo, alcançou a final e quase surpreendeu. O título ficou com o Vasco, campeão de um certame gloriosamente delirante.

1. 1987 – O campeonato que ninguém entendeu

1987
Tanto Flamengo quanto Sport comemoram o título brasileiro de 1987: o regulamento era tão nebuloso que até hoje ainda não foi decifrado

Mas melhor ser o reconhecido campeão de uma maluquice do que vencer um campeonato relativamente simples e ninguém acreditar. É essa a situação de não um mas dois clubes brasileiros, protagonistas da Copa União (risos) de 1987, cujo resultado ainda não é consensual quase três décadas depois do apito final. O pandemônio de 1986 fez a CBF declarar falta de condições financeiras para organizar o Campeonato Brasileiro no ano seguinte, jogando a batata quente para os times. Entrou em cena o Clube dos 13, entidade criada para ser o embrião de uma moderna liga de clubes brasileiros. Reunindo os 13 principais clubes do país, tomou para si as rédeas do Brasileiro e bolou um torneio que seria comercialmente imbatível, com patrocínios fortes e muita rentabilidade.

Para isso dar certo, o Clube dos 13 precisou ser implacável. Apesar do regulamento do Brasileiro de 86 ditar que os 28 primeiros colocados comporiam a elite de 87, o número foi reduzido para apenas 16: os membros do Clube e mais Coritiba, Goiás e Santa Cruz, selecionados a dedo por serem representantes de mercados grandes. Melhor para o próprio Coritiba e para o Botafogo, que não disputariam a primeira divisão nas condições normais. Pior para os 14 times que haviam conquistado o direito dentro das regras e foram simplesmente ignorados. Entre eles estava o Guarani, vice-campeão nacional em exercício.

Para fazer justiça a essas equipes, a CBF “esqueceu” que havia aberto mão de gerenciar o campeonato e criou sua própria disputa. Aos 14 foram adicionados Vitória e Náutico, e a Ponte Preta foi substituída pelo Treze. Nascia um torneio paralelo, também com 16 times, embora mais fracos. A disputa do Clube dos 13 ganhou o nome de Módulo Verde; a da CBF, de Módulo Amarelo (sim, a ideia de batizar campeonatos com cores da bandeira precedeu a Copa João Havelange). Havia ainda os módulos Azul e Branco, arremedos de segunda divisão, mas eles não entram na história.

A CBF foi além e jogou uma ideia: que tal seria se os campeões e vices dos módulos Verde e Amarelo se enfrentassem num quadrangular para decidir o campeão dos campeões nacionais de 1987? Aqui é o ponto central da discordância que permanece viva até hoje. O Clube dos 13 alega que nunca topou. A CBF garante que obteve a concordância do notável Eurico Miranda, que representava o Clube dos 13 nas negociações. Sem os ponteiros estarem acertados, os campeonatos aconteceram. O Flamengo venceu o Módulo Verde, tendo o Internacional como vice. Sport e Guarani dividiram o título do Módulo Amarelo após dois empates nas finais e graças à trivial ausência de uma regra para desempatar. Os dois primeiros não compareceram ao quadrangular e tomaram W.O. em seus jogos. O Sport venceu o Guarani e foi declarado, pela CBF, campeão brasileiro, título que o Flamengo já comemorava há semanas. Estava plantada a semente do mal.

A experiência foi tão desastrosa que já no ano seguinte o Clube dos 13 abriu mão de seu propósito fundador e virou um mero negociador de direitos de televisão. A CBF voltou a organizar o Campeonato Brasileiro e continuou fazendo besteira, como pudemos ver. A disputa pelo reconhecimento do título de 1987 segue nos tribunais, como a evidência mais visível e famosa da nossa histórica incapacidade de organizar torneios descomplicados.

Os 11 maiores confrontos entre brasileiros na Libertadores

Com o São Paulo e o Corinthians convivendo no mesmo grupo da Copa Libertadores de 2015, o clássico Majestoso fez sua estreia no torneio continental sul-americano este ano. No primeiro jogo, fácil vitória alvinegra por 2-0 – mas os times voltam a se encontrar na última rodada, provavelmente com a classificação em jogo, e no Morumbi. Promessa de bom embate.

O encontro entre os rivais paulistanos é um dos principais dérbis do futebol brasileiro, e seu mero acontecimento dentro de uma Libertadores já dá a esta edição da competição um caráter mais charmoso. Em homenagem a isso, o Onze Ideal elenca aqui os 11 maiores duelos entre equipes brasileiras que a Copa Libertadores da América já teve o prazer de oferecer

11. Cruzeiro x Internacional, 1976 (fase de grupos)

É o único confronto desta lista que não aconteceu em contexto de mata-mata – mas, às vezes, é necessário saber apreciar um jogo de futebol apenas pelo que ele foi em si mesmo, e não pelo que antecipou ou representou. Cruzeiro e Internacional, finalistas do Campeonato Brasileiro de 1975, se reencontraram no grupo 3 da Libertadores de 1976 (que também tinha os paraguaios Olimpia e Sportivo Luqueño). Eram duas verdadeiras seleções, possivelmente os melhores times do Brasil na década. Se o Inter havia levado a melhor no nacional, foi a vez de o esquadrão celeste sair por cima. Já na primeira rodada, uma partida épica no Mineirão terminou em 5-4 para os donos da casa. Foi um jogo de gato e rato, com o Cruzeiro abrindo dois e o Internacional sempre correndo atrás, buscando empates e pressionando. A partida contou com duas raríssimas falhas do zagueiro colorado Elías Figueroa e atuaçõe de gala da dupla celeste Palhinha-Joãozinho. Dias mais tarde o Cruzeiro faria 2-0 em Porto Alegre e, invicto na chave, prosseguiria como primeiro colocado rumo ao título continental. O Inter teve um prêmio de consolação: no fim do ano, conquistou o bicampeonato brasileiro.

CRUZEIRO 5-4 INTERNACIONAL – 07.03.1976 – Mineirão, Belo Horizonte
CRUZEIRO: Raul; Nelinho, Moraes, Darcy, Vanderlei; Zé Carlos, Eduardo, Roberto Batata (Isidoro); Jairzinho, Palhinha, Joãozinho
Téc: Zezé Moreira
INTERNACIONAL: Manga; Cláudio (Valdir), Figueroa, Hermínio, Vacaria; Caçapava, Falcão, Valdomiro; Escurinho, Flávio (Ramon), Lula
Téc: Rubens Minelli
GOLS: Palhinha (2), Lula, Joãozinho, Valdomiro, Zé Carlos (contra), Joãozinho, Ramon, Nelinho
EXPULSÃO: Palhinha

INTERNACIONAL 0-2 CRUZEIRO – 28.03.1976 – Beira-Rio, Porto Alegre
INTERNACIONAL: Manga; Cláudio (Valdir), Figueroa, Hermínio, Vacaria; Caçapava, Falcão, Valdomiro; Escurinho, Ramon (Flávio), Lula (Jair)
Téc: Rubens Minelli
CRUZEIRO: Raul; Nelinho, Moraes, Ozires, Vanderlei; Piazza, Zé Carlos, Eduardo; Jairzinho, Palhinha, Joãozinho
Téc: Zezé Moreira
GOLS: Jairzinho, Joãozinho

10. Grêmio x Palmeiras, 1995 (quartas-de-final)

Um total de 11 gols em dois jogos. Foi o saldo do encontro entre Grêmio e Palmeiras, os dois únicos representantes brasileiros na Libertadores de 1995, na fase de quartas-de-final. O tricolor gaúcho seria campeão do torneio, mas antes teria que ir da euforia às portas do desespero contra o Palmeiras da era Parmalat, bicampeão brasileiro. No jogo de ida, passeio gremista: 5-0 no Olímpico, e a certeza da classificação. A partida de volta seria mera formalidade. No dia do embarque para São Paulo, porém, surgiu a notícia de que o goleiro Danrlei havia sido suspenso pela Conmebol, por ter agredido o palmeirense Válber no primeiro duelo – na ocasião, o juiz deixara passar e o arqueiro não levara nem cartão amarelo. O reserva, Murilo, recuperava-se de uma fratura na mão, mas teria que jogar mesmo assim. Em campo, as coisas pareciam dar certo para o Grêmio quando Jardel abriu o placar. O Palmeiras, que tinha três desfalques, teria que marcar seis vezes só para levar a decisão para os pênaltis. Impossível? Pois fizeram cinco, praticamente devolvendo o placar da ida. Apesar da pressão, porém, o sexto não veio. O Grêmio respirou aliviado com o apito final e seguiu adiante.

GRÊMIO 5-0 PALMEIRAS – 26.07.1995 – Olímpico, Porto Alegre
GRÊMIO: Danrlei; Arce (Scheidt), Rivarola, Adílson, Roger; Dinho, Luís Carlos Goiano, Arílson, Carlos Miguel (Alexandre); Paulo Nunes, Jardel (Nildo)
Téc: Luiz Felipe Scolari
PALMEIRAS: Sérgio; Cafu, Antônio Carlos, Cléber, Roberto Carlos; Amaral (Alex Alves), Flávio Conceição, Mancuso, Válber; Müller (Daniel Frasson), Rivaldo
Téc: Carlos Alberto Silva
GOLS: Arce, Arílson, Jardel (3)
EXPULSÕES: Dinho, Válber, Rivaldo

PALMEIRAS 5-1 GRÊMIO – 02.08.1995 – Palestra Itália, São Paulo
PALMEIRAS: Sérgio, Índio, Antônio Carlos, Cléber, Wagner; Amaral (Magrão), Mancuso, Cafu, Paulo Isidoro; Müller, Alex Alves (Maurílio)
Téc: Carlos Alberto Silva
GRÊMIO: Murilo; Arce, Rivarola, Scheidt, Roger; Adílson, Luís Carlos Goiano, Arílson (André Vieira), Carlos Miguel; Paulo Nunes (Vágner Mancini), Jardel (Nildo)
Téc: Luiz Felipe Scolari
GOLS: Jardel, Cafu, Amaral, Paulo Isidoro, Mancuso, Cafu

9. São Paulo x Palmeiras, 1994 (oitavas-de-final)

Um ano antes de cair diante do Grêmio, o milionário Palmeiras dos anos Parmalat já havia sofrido uma decepção na Libertadores – mas na forma de um clássico regional, o primeiro da nossa lista. O São Paulo era o atual bicampeão continental, e, nessa condição, só precisou estrear no torneio na fase de mata-mata. Quis o destino que os paulistas se encontrassem. Com seu elenco estrelado, o Palmeiras era favorito, mesmo não tendo feito uma boa fase de grupos (classificara-se em terceiro no grupo, quando o regulamento ainda permitia isso). O São Paulo precisou botar em campo um time misto, e foi o goleiro Zetti que garantiu o empate sem gols no Pacaembu, com uma partida brilhante. A segunda partida foi no Morumbi, e dessa vez foi o atacante Euller que definiu o resultado, marcando duas vezes e tirando a classificação do alcance do rival. O Palmeiras ainda terminaria o ano com o segundo título nacional consecutivo nas mãos. O São Paulo avançaria para sua terceira final de Libertadores seguida, mas perderia para o Vélez Sársfield nos pênaltis.

PALMEIRAS 0-0 SÃO PAULO – 27.04.1994 – Pacaembu, São Paulo
PALMEIRAS: Fernández, Cláudio, Antônio Carlos, Cléber, Roberto Carlos; César Sampaio, Mazinho (Amaral), Rincón, Zinho; Edmundo (Edílson), Evair
Téc: Vanderlei Luxemburgo
SÃO PAULO: Zetti; Cafu, Júnior Baiano, Gilmar, André Luiz; Doriva, Axel, Leonardo (Juninho Paulista), Jamelli (Vítor); Euller, Müller
Téc: Telê Santana

SÃO PAULO 2-1 PALMEIRAS – 24.07.1994 – Morumbi, São Paulo
SÃO PAULO: Zetti, Vítor, Júnior Baiano, Gilmar, André Luiz; Válber, Axel, Cafu (Juninho Paulista), Palhinha (Ronaldo Luiz); Euller, Müller
Téc: Telê Santana
PALMEIRAS: Fernández, Cláudio (Jean Carlo), Antônio Carlos, Cléber, Roberto Carlos; César Sampaio, Mazinho, Zinho, Edílson; Edmundo, Evair
Téc: Vanderlei Luxemburgo
GOLS: Euller (2), Evair
EXPULSÃO: Cléber

8. Corinthians x Vasco, 2012 (quartas-de-final)

Ambos os times viviam momentos de redenção. O Corinthians, cinco anos depois de ser rebaixado no Campeonato Brasileiro, avançava na Libertadores como campeão nacional e com um time fortíssimo. O Vasco vivera seu próprio drama de descenso, em 2008, e agora retornava à Libertadores após 11 anos de ausência como campeão da Copa do Brasil. Esbarraram um no outro nas quartas-de-final, em um duelo que teve mais tensão do que bola na rede. Na ida, em São Januário, a forte chuva que caiu no Rio de Janeiro impediu um embate técnico. Num lance de bola parada, no segundo tempo, o Vasco chegou a ter um gol anulado por impedimento. Prevaleceu o 0-0 e a decisão ficou para o Pacaembu. Lá, no início do segundo tempo, o técnico corintiano Tite foi expulso por reclamação. Não se fez de rogado: foi para as arquibancadas e passou a acompanhar o jogo e dar instruções para os jogadores perto do alambrado, no meio da torcida. Pouco depois, Diego Souza, meia do Vasco, desperdiçou uma chance gigantesca: arrancou sozinho depois de roubar uma bola no campo de defesa e chutou colocado, mas o goleiro Cássio fez uma defesa quase impossível, com a ponta dos dedos. Os nervos à flor da pele da Fiel só desabrocharam, em êxtase, quando o volante Paulinho, já no fim do segundo tempo e com prorrogação à vista, saltou nas estrelas e acertou uma cabeçada após uma cobrança de escanteio para fazer o único gol do confronto. Tite foi engolido pelos torcedores na comemoração, e o Corinthians avançava para sagrar-se campeão de sua primeira Libertadores.

VASCO 0-0 CORINTHIANS – 16.05.2012 – São Januário, Rio de Janeiro
VASCO: Fernando Prass; Fágner, Renato Silva, Rodolfo, Thiago Feltri; Rômulo, Nilton, Juninho Pernambucano (Felipe), Diego Souza (Carlos Alberto); Éder Luís, Alecsandro
Téc: Cristóvão Borges
CORINTHIANS: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán, Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex (Douglas), Danilo (Elton); Jorge Henrique, Emerson Sheik (Willian)
Téc: Tite

CORINTHIANS 1-0 VASCO – 23.05.2012 – Pacaembu, São Paulo
CORINTHIANS: Cássio; Alessandro, Chicão, Leandro Castán, Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Alex, Danilo; Jorge Henrique (Willian), Emerson Sheik (Liédson)
Téc: Tite
VASCO: Fernando Prass; Fágner, Renato Silva, Rodolfo, Thiago Feltri (Felipe); Rômulo, Nilton, Juninho Pernambucano, Diego Souza; Éder Luís (Carlos Alberto), Alecsandro
Téc: Cristóvão Borges
GOL: Paulinho
EXPULSÕES: Tite, Juninho Pernambucano

7. Fluminense x São Paulo, 2008 (quartas-de-final)

Se o Vasco quebrou jejum de 11 anos ao chegar à Libertadores de 2012, o Fluminense de 2008 superou essa marca com muita sobra: faziam 23 temporadas que o tricolor carioca não disputava o principal torneio da América do Sul. A campanha notável, porém, parecia que pararia no forte São Paulo, atual bicampeão brasileiro (e a caminho do tri) e finalista recente da Libertadores em duas oportunidades. O favoritismo são-paulino se fez valer no jogo de ida, no Morumbi, com uma vitória magra, como era característica daquele time: 1-0. O Maracanã estava fazendo a diferença para o Flu, e teria que continuar. O contestado centroavante Washington abriu o placar já no início do duelo de volta, e o time manteve pressão. O São Paulo empatou no segundo tempo, complicando a situação dos donos da casa. Pelas regras do gol qualificado, não bastava ao Fluminense agora vencer pela mesma diferença, pois o gol fora de casa dos paulistas dava a vantagem. Seria preciso marcar mais dois. O segundo veio quase imediatamente. Já nos acréscimos, no último lance da partida – um escanteio – apareceu Washington de novo. Ele escorou de cabeça para dentro do gol, garantindo o time das Laranjeiras na semi. Ficou célebre a imagem do técnico Renato Gaúcho, ídolo do Flu quando jogador, sentado no gramado vazio após o apito final, emocionado, recebendo a ovação das arquibancadas. A equipe só cairia na decisão, diante da LDU.

SÃO PAULO 1-0 FLUMINENSE – 14.05.2008 – Morumbi, São Paulo
SÃO PAULO: Rogério Ceni; Zé Luís, Alex Silva, Miranda; Jancarlos, Fábio Santos, Hernanes, Richarlyson; Hugo; Dagoberto (Aloísio), Adriano
Téc: Muricy Ramalho
FLUMINENSE: Fernando Henrique; Gabriel, Luiz Alberto, Roger, Júnior César; Ygor, Arouca, Cícero, Thiago Neves (Conca); Dodô, Washington
Téc: Renato Gaúcho
GOL: Adriano

FLUMINENSE 3-1 SÃO PAULO – 21.05.2008 – Maracanã, Rio de Janeiro
FLUMINENSE: Fernando Henrique; Gabriel (Alan), Thiago Silva, Luiz Alberto, Júnior César; Ygor (Maurício), Arouca (Dodô), Cícero, Conca, Thiago Neves; Washington
SÃO PAULO: Rogério Ceni; Zé Luís, Alex Silva, Miranda; Jancarlos (Joílson), Fábio Santos, Hernanes, Richarlyson; Hugo (Jorge Wagner); Dagoberto (Aloísio), Adriano
Téc: Muricy Ramalho
GOLS: Washington, Adriano, Dodô, Washington
EXPULSÃO: Joílson

6. Palmeiras x Corinthians, 1999 (fase de grupos e quartas-de-final)

O principal clássico do futebol paulista aconteceu duas vezes na Libertadores de 1999. Palmeiras e Corinthians se encontraram no grupo 3, que também tinha Olimpia e Cerro Porteño. Os confrontos foram equilibrados: uma vitória e dois gols para cada lado. Prosseguiram ambos, e voltaram a se trombar nas quartas – dessa vez, era vencer ou cair. A tensão refletiu-se na disciplina: foram 12 cartões amarelos e dois vermelhos distribuídos entre os times nos dois jogos. O fator decisivo desse mata-mata foi um elemento inesperado: o goleiro palmeirense Marcos. Reserva até o fim da fase de grupos, foi forçado a campo por uma contusão do titular Velloso. Foi nas quartas que começou a construir sua canonização. Na primeira partida, triunfo alviverde por 2-0. O placar engana: o Corinthians criou dúzias de chances e sempre parou nas mãos de Marcos, em grande noite. O Timão conseguiu devolver os números na volta, levando a decisão para os pênaltis. O Palmeiras converteu todos os seus. Marcos defendeu o chute de Vampeta, e ainda contou com uma cobrança para fora de Dinei. A eliminação do arquirrival com atuações de gala originaram o apelido de “São Marcos”, que o goleiro carregou para o resto da carreira – é claro que ajudou muito para sua santidade o fato de o Palmeiras ter sido campeão daquela Libertadores. Já o Corinthians foi (bi)campeão brasileiro no fim do ano, o que garantiu que ambos os times estariam de volta ao torneio no ano seguinte. Voltariam a protagonizar grandes momentos, como veremos adiante.

PALMEIRAS 2-0 CORINTHIANS – 05.05.1999 – Morumbi, São Paulo
PALMEIRAS: Marcos; Arce, Júnior Baiano, Cléber, Rubens Júnior; Galeano, César Sampaio, Zinho, Alex (Rogério); Paulo Nunes (Jackson), Oséas (Evair)
Téc: Luiz Felipe Scolari
CORINTHIANS: Nei, Índio (Rodrigo), Nenê, Gamarra, Sylvinho; Amaral, Vampeta, Ricardinho (Dinei), Marcelinho Carioca; Edílson, Fernando Baiano
Téc: Oswaldo de Oliveira
GOLS: Oséas, Rogério

CORINTHIANS 2-0 PALMEIRAS – 12.05.1999 – Morumbi, São Paulo
CORINTHIANS: Maurício; Índio (Rodrigo), Nenê, Gamarra, Sylvinho; Vampeta, Rincón, Ricardinho (Amaral), Marcelinho Carioca; Edílson, Fernando Baiano (Dinei)
Téc: Oswaldo de Oliveira
PALMEIRAS: Marcos; Arce, Júnior Baiano, Cléber, Júnior; Galeano (Euller), César Sampaio, Zinho, Alex (Rogério); Paulo Nunes, Oséas (Evair)
Téc: Luiz Felipe Scolari
GOLS: Edílson, Ricardinho
EXPULSÕES: Edílson, Júnior

5. São Paulo x Atlético Paranaense, 2005 (final)

Por muitos anos o regulamento da Libertadores agrupava times do mesmo país na fase de grupos (ou nas fases, quando havia mais de uma), restringindo a classificação de equipes compatriotas às fases decisivas e evitando que elas se encontrassem nas decisões. O sistema mudou nos anos 2000, abrindo caminho para o acontecimento inédito do torneio de 2005: uma final entre dois times do mesmo país. O Brasil foi o privilegiado, e seus representantes eram o São Paulo e o Atlético Paranaense, respectivamente terceiro e segundo colocados no Campeonato Brasileiro do ano anterior. O Atlético não pôde usar seu estádio, a Arena da Baixada, porque a Conmebol exigia uma capacidade mínima de 40 mil lugares para os palcos da final – a Arena abrigava, na época, apenas 25 mil. A determinação gera reclamações dos atleticanos até hoje. Por causa disso o primeiro jogo foi no Beira-Rio, em Porto Alegre, e terminou empatado. Na volta, o tricolor venceu fácil no Morumbi e ficou com o título continental, seu terceiro. Apesar da pouca competitividade e ausência de rivalidade regional, este confronto entra na lista por ter decidido o título.

ATLÉTICO PARANAENSE 1-1 SÃO PAULO – 06.07.2005 – Beira-Rio, Porto Alegre
ATLÉTICO: Diego; Jancarlos (André Rocha), Danilo, Durval, Marcão; Cocito, Alan Bahia, Fabrício, Fernandinho (Evandro); Lima, Aloísio
Téc: Antônio Lopes
SÃO PAULO: Rogério Ceni; Fabão, Lugano, Alex; Cicinho, Josué, Mineiro, Júnior; Danilo; Amoroso, Luizão
Téc: Paulo Autuori
GOLS: Aloísio, Durval (contra)

SÃO PAULO 4-0 ATLÉTICO PARANAENSE – 14.07.2005 – Morumbi, São Paulo
SÃO PAULO: Rogério Ceni; Fabão, Lugano, Alex; Cicinho, Josué, Mineiro, Júnior (Fábio Santos); Danilo; Amoroso (Diego Tardelli), Luizão (Souza)
Téc: Paulo Autuori
ATLÉTICO: Diego; Jancarlos, Danilo, Durval, Marcão (Rodrigo); Cocito, André Rocha (Alan Bahia), Fabrício, Evandro; Lima (Fernandinho), Aloísio
Téc: Antônio Lopes
GOLS: Amoroso, Fabão, Luizão, Diego Tardelli

4. Santos x Botafogo, 1963 (semifinal)

No início dos anos 60, o futebol brasileiro tinha dois níveis: Santos e Botafogo em um, e o resto do país no outro. As equipes eram a base da seleção brasileira bicampeã mundial, escalando nomes como Pelé, Garrincha, Gilmar, Nilton Santos, Zito e Zagallo. Em 1962, decidiram a Taça Brasil em um confronto histórico. No ano seguinte, se reencontraram na Libertadores. Era a primeira vez que o Brasil tinha dois representantes no torneio. O Santos já tinha vaga garantida por ter sido campeão no ano anterior, e só precisou estrear nas semifinais. Assim, o lugar do campeão brasileiro coube ao Botafogo, que fez campanha perfeita na fase de grupos. O primeiro encontro foi no Pacaembu, e o alvinegro carioca quase saiu com a vitória. Depois de Jair Bala abrir o placar, foi preciso um gol de Pelé, ao 45 do segundo tempo, para dar respiro ao Peixe. Com o jogo de volta no Maracanã, eram boas as chances de o Botafogo eliminar os campeões e arrancar a vaga para a final. Mas, de novo, Pelé brilhou: ainda no primeiro tempo marcou três vezes, efetivamente tirando a partida do alcance do adversário. Lima fechou a goleada, assegurando ao Santos a segunda final consecutiva – e, nela, viria o segundo título. O Botafogo, por incrível que pareça, não conseguiu voltar à Libertadores nos anos 60 para dar uma segunda chance à sua gloriosa geração.

SANTOS 1-1 BOTAFOGO – 22.08.1963 – Pacaembu, São Paulo
SANTOS: Gilmar; Geraldino, Mauro, Calvet, Dalmo; Zito, Lima; Dorval, Coutinho, Pelé, Tite (Toninho Guerreiro)
Téc: Lula
BOTAFOGO: Manga; Joel, Zé Carlos, Nilton Santos, Rildo; Élton, Aírton; Amoroso, Quarentinha, Jair Bala, Zagallo
Téc: Danilo
GOLS: Jair Bala, Pelé

BOTAFOGO 0-4 SANTOS – 28.08.1963 – Maracanã, Rio de Janeiro
BOTAFOGO: Manga; Joel, Zé Carlos, Nilton Santos, Rildo; Élton, Aírton; Garrincha, Amoroso, Quarentinha, Zagallo (Jair Bala)
Téc: Danilo
SANTOS: Gilmar; Geraldino, Mauro, Calvet, Dalmo; Zito, Lima; Dorval, Coutinho (Almir), Pelé, Pepe
Téc: Lula
GOLS: Pelé (3), Lima

3. Flamengo x Atlético Mineiro, 1981 (fase de grupos e jogo-desempate)

Foram três jogos entre Flamengo e Atlético na Libertadores de 1981, e o terceiro deles permanece até hoje como um dos mais polêmicos da história do futebol brasileiro. Comecemos pelo começo. Os times fizeram a decisão do Campeonato Brasileiro de 80, jogos carregados de tensão, e traziam a chama da rivalidade acesa desde então. Como era de praxe na Libertadores naquela época, foram agrupados em uma chave binacional, o grupo 3, com os paraguaios Cerro Porteño e Olimpia. Como prova do nível acirrado de disputa entre os dois times brasileiros, os dois encontros regulamentares entre eles terminaram no mesmo 2-2. Ambos encerraram a primeira fase iguais em pontos. Como apenas o campeão de cada grupo se classificava, e não havia previsão de critérios de desempate no regulamento da competição, foi necessário realizar um jogo extra, em campo neutro, para decidir a vaga. O local escolhido foi o Serra Dourada, em Goiânia, cujo gramado estampava um incompreensível padrão geométrico para a ocasião. O jogo foi nervoso, truncado, cheio de faltas – e não terminou. Numa confusa e controversa sequência de eventos, o árbitro José Roberto Wright expulsou quatro atleticanos em seis minutos ainda no primeiro tempo, deixando o Galo no limite de jogadores necessários para continuar a partida. Revoltados, os remanescentes da equipe abandonaram a partida. Assim, apito final e vitória automática do Flamengo. A classificação seria mais um passo rumo ao título rubro-negro daquela Libertadores.

FLAMENGO 0-0 ATLÉTICO MINEIRO – 21.08.1981 – Serra Dourada, Goiânia
FLAMENGO: Raul; Carlos Alberto, Figueiredo, Mozer, Júnior; Leandro, Adílio, Zico; Tita, Nunes, Baroninho
Téc: Paulo César Carpegiani
ATLÉTICO: João Leite; Orlando, Osmar Guarnelli, Alexandre, Jorge Valença; Chicão, Toninho Cerezo, Palhinha; Vaguinho, Reinaldo, Éder
Téc: Carlos Alberto Silva
EXPULSÕES: Reinaldo, Éder, Palhinha, Chicão

2. Internacional x São Paulo, 2006 (final)

Foi a segunda final da Libertadores entre times do mesmo país, a segunda entre brasileiros e a segunda consecutiva. Como consequência, foi um jogo que provocou uma mudança no regulamento do torneio. Após duas edições com os brasileiros monopolizando a decisão, a Conmebol determinou que, sempre que dois times do mesmo país chegassem à semifinal, eles teriam que se enfrentar, independentemente do chaveamento. Antes dessa determinação, porém, Inter e São Paulo decidiram a Libertadores de 2006 em dois bons jogos, em que o Colorado exerceu domínio incontestável e, como eternizou o locutor Pedro Ernesto Dernardin, da Rádio Gaúcha, “rasgou a camisa do São Paulo e pisou em cima”. Vale lembrar que o tricolor era o atual campeão continental e mundial, e favorito para bisar a conquista. Já no Morumbi, na ida, vitória gaúcha, com destaque para o atacante Rafael Sóbis, autor de dois gols. O São Paulo até tentou correr atrás na segunda partida após sair em desvantagem, mas uma falha do ídolo Rogério Ceni quando o momento do jogo parecia bom acabou enterrando as esperanças. O Inter pôde comemorar em casa sua primeira Libertadores, que inaugurou um período de muito sucesso do clube fora das fronteiras. O São Paulo pode ter perdido a Libertadores, mas certamente encontrou consolo no tricampeonato brasileiro que se seguiu.

SÃO PAULO 1-2 INTERNACIONAL – 09.08.2006 – Morumbi, São Paulo
SÃO PAULO: Rogério Ceni; Fabão, Lugano, Edcarlos (Aloísio); Souza, Josué, Mineiro, Júnior; Danilo (Lenílson); Leandro (Richarlyson), Ricardo Oliveira
Téc: Muricy Ramalho
INTERNACIONAL: Clemer; Bolívar, Edinho, Fabiano Eller; Ceará (Wellington Monteiro), Fabinho, Tinga, Jorge Wagner; Alex (Índio); Fernandão, Rafael Sóbis (Michel)
Téc: Abel Braga
GOLS: Rafael Sóbis (2), Edcarlos
EXPULSÕES: Josué, Fabinho

INTERNACIONAL 2-2 SÃO PAULO – 16.08.2006 – Beira-Rio, Porto Alegre
INTERNACIONAL: Clemer; Bolívar, Índio, Fabiano Eller; Ceará, Edinho, Tinga, Jorge Wagner; Alex (Michel); Fernandão, Rafael Sóbis (Ediglê)
Téc: Abel Braga
SÃO PAULO: Rogério Ceni; Fabão, Lugano, Edcarlos (André Dias); Souza, Mineiro, Richarlyson (Thiago), Júnior; Danilo (Lenílson); Leandro, Aloísio
Téc: Muricy Ramalho
GOLS: Fernandão, Fabão, Tinga, Lenílson
EXPULSÃO: Tinga

1. Palmeiras x Corinthians, 2000 (semifinal)

Cerca de um ano depois de seus duelos eliminatórios pela Libertadores de 1999, Palmeiras e Corinthians voltavam a se encontrar no mata-mata continental, desta vez uma fase adiante, e por vaga direta na final. Ambos os times estavam maiores: o Verdão era o atual campeão da América do Sul, defendendo seu título; o Timão vinha do bicampeonato brasileiro. Poderia ser a revanche alvinegra ou o puro deleite alviverde. As fichas em jogo eram mais numerosas. E o confronto fez jus, com um total espantoso de 12 gols nos dois jogos – seis para cada lado. A primeira partida já foi eletrizante: depois de o Corinthians (dono do mando de campo) abrir vantagem de 3-1, o Palmeiras conseguiu buscar o empate, só para ver o volante Vampeta, aos 45 do segundo tempo, retomar a ponta e garantir a vitória corintiana. Precisando vencer a volta, o Palmeiras abriu o placar na segunda partida mas tomou a virada. Na base da superação, porém, Alex e Galeano marcaram para salvar as esperanças alviverdes. Placar fechado em 3-2. Se houvesse a regra do gol qualificado, a vaga já era do Palmeiras, por ter marcado mais fora de casa. Como só o que valia era o saldo de gols, a conclusão ficou para os pênaltis. Boa recordação para palmeirenses: no ano anterior, Marcos brilhara. Não foi tão rápido dessa vez, já que todos os jogadores acertaram suas cobranças de ambos os lados. No derradeiro chute, Marcelinho Carioca, maior ídolo do escrete corintiano e especialista em bolas paradas, foi confrontar Marcos, o santo palmeirense com fama de muralha. Marcelinho disparou no pé da trave direita; Marcos pulou certo e bloqueou. Defesa que conduziu o Palmeiras à final mais uma vez, rejeitando o principal craque do maior rival. Um dos grandes momentos da história do time palestrino, do Dérbi Paulistano e da Copa Libertadores.

CORINTHIANS 4-3 PALMEIRAS – 30.05.2000 – Morumbi, São Paulo
CORINTHIANS: Dida; Daniel (Índio), Fábio Luciano, Adílson, Kléber (Édson); Vampeta, Edu, Ricardinho, Marcelinho Carioca; Edílson, Luizão (Dinei)
Téc: Oswaldo de Oliveira
PALMEIRAS: Marcos; Neném, Argel, Roque Júnior, Júnior; Galeano, Rogério (Marcelo Ramos), César Sampaio, Alex; Euller, Pena
Téc: Luiz Felipe Scolari
GOLS: Ricardinho, Júnior, Marcelinho Carioca, Edílson, Alex, Euller, Vampeta

PALMEIRAS 3-2 CORINTHIANS – 06.06.2000 – Morumbi, São Paulo
PALMEIRAS: Marcos; Rogério, Argel, Roque Júnior, Júnior; Galeano, César Sampaio (Tiago Silva), Alex; Euller (Asprilla), Pena (Luiz Cláudio), Marcelo Ramos
Téc: Luiz Felipe Scolari
CORINTHIANS: Dida; Daniel (Índio), Fábio Luciano, Adílson, Kléber; Vampeta, Edu, Ricardinho, Marcelinho Carioca; Edílson, Luizão (Dinei)
Téc: Oswaldo de Oliveira
GOLS: Euller, Luizão (2), Alex, Galeano