11 jogadores conhecidos por um único lance

Tornar-se famoso no concorrido mundo do futebol não é fácil. Mesmo anos de treino e trabalho podem acabar reduzidos a uma carreira sem brilho, recordada apenas em algum almanaque muitíssimo especializado. Entrar na consciência coletiva dos torcedores requer, além de muito talento, uma boa dose de sorte. Portanto, não surpreende que alguns atletas que conseguem ter seus instantes de maior renome não têm a sorte de repeti-los.

Esses jogadores acabam reconhecidos, para a posteridade, como atores principais de momentos muito específicos, e nada mais. Caso sejam citados nas enciclopédias do futebol, será certamente a partir desses eventos, que se tornam o fato definidor e justificador de suas trajetórias. Para o bem ou para o mal.

Aqui estão 11 dos mais celebrizados one-hit wonders do futebol brasileiro.

11. Guinei foi o primeiro vilão do Corinthians na Libertadores

O Corinthians tem uma longa e (nada) nobre linhagem de jogadores que falham e prejudicam o time em momentos cruciais na Libertadores. Agora que o clube já venceu o torneio essa memória não é tão pesada, mas, antes do título de 2012, cada mata-mata continental corintiano era um exercício em tentar adivinhar quem botaria água no chope. E tudo começou em 1991, na segunda Libertadores disputada pelo Corinthians, com o jovem zagueiro Guinei. Revelado pelo São Bento, ele fora titular na conquista do Brasileiro do ano anterior e era uma promessa alvinegra. No segundo jogo das oitavas-de-final contra o Boca Juniors, com 0-0 no placar e já no segundo tempo, o beque pestanejou ao dominar uma bola fácil na lateral-esquerda e a perdeu para Alfredo Graciani, que marcou. O detalhe é que Guinei já havia falhado em dois gols xeneizes no jogo de ida, que o Corinthians perdera por 3-1. Mas uma coisa é vacilar na Bombonera, outra é diante da Fiel. Com a eliminação (o placar final foi de 1-1), o jogador foi ostracizado. Rodou por times de todo o país e sumiu, mas é sempre lembrado como o primeiro bode expiatório do Corinthians em uma Libertadores.

10. Dalmo deu o bi mundial ao Santos

Não houve time brasileiro igual ao Santos dos anos 1960. Abrilhantavam o esquadrão os nomes de Pelé, Gilmar, Zito, Pepe, Mauro, Coutinho e… Dalmo. O lateral-esquerdo, com passagens também por Paulista e Guarani, foi provavelmente o mais anônimo herói santista dos anos dourados do clube. Mas era titular absoluto da defesa e autografou um dos principais momentos daquela história. Em 1963 o Santos conquistou o bi da Libertadores e o direito de defender o título mundial. O adversário era o Milan, que venceu o primeiro jogo em casa, por 4-2. Mesmo sem Pelé e Zito, machucados, o time conseguiu devolver o placar no Brasil – diga-se de passagem, em grande jogo, arrancando a virada após sair perdendo por 2-0 num dia chuvoso, com o campo enlameado. As regras do tempo previam um jogo-desempate, que foi disputado no Maracanã. Aos 30 do primeiro tempo da “nega”, pênalti para o Santos. Na ausência do Rei, quem pegou a bola foi Dalmo, que era um grande batedor (algumas fontes o creditam como inventor da paradinha). De perna direita (curiosamente era destro), colocou no cantinho, fora do alcance do goleiro Luigi Balzarini, e fez o gol do título. Falecido no início deste ano, Dalmo teve ali seu momento único de protagonismo no maior time do futebol brasileiro em todos os tempos.

9. e 8. Valido empurrou Argemiro. Ou não?

valido2

Dois em um! É impossível não ligar esses nomes numa lista como esta, porque eles compartilham o lance que os notabilizou. Flamengo e Vasco disputavam o jogo final do Campeonato Carioca de 1944. Os rubro-negros perseguiam um inédito tricampeonato, enquanto o clube da Colina buscava acabar com um jejum de sete anos. O empate dava a taça ao Vasco. Com a linha ofensiva em pandarecos (Perácio fora, Zizinho, Pirillo e Modesto Bria baleados), o Flamengo apostava suas fichas no ponta-direita argentino Agustín Valido. Ele fora um importante personagem do clube em anos anteriores, mas encontrava-se aposentado havia mais de um ano – voltou excepcionalmente para a fase final do estadual a pedido dos cartolas. Faltando quatro minutos para o fim do jogo do segundo tempo, com o placar intocado e o título se encaminhando para São Januário, uma bola é levantada na área e Valido salta. Quem o marca é o médio Argemiro, jogador que despontara na Portuguesa Santista e até fez parte do elenco da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938, como reserva (participou de um jogo). Valido chega na bola primeiro e cabeceia para dentro. Argemiro, indignado, denuncia que o argentino se valeu de um empurrão. As fotos do lance mostram, de fato, a mão de Valido nas costas do adversário no momento do salto – mas o gol foi confirmado. Flamengo tricampeão, Vasco inconformado, fim de uma das mais memoráveis decisões de um Carioca e polêmica estabelecida para as futuras gerações.

7. Galatto virou a Batalha dos Aflitos

A epopeia do Grêmio para sair da segunda divisão em 2005 é fartamente conhecida e documentada. Quadrangular final, última rodada, jogo contra o Náutico no Estádio dos Aflitos. Quem ganhar sobe e o empate é tricolor, mas o time tem um homem a menos e pênalti contra aos 35 do segundo tempo. Na confusão após a marcação, mais três jogadores gremistas são avermelhados. A partida fica interrompida por quase meia hora e a torcida timbu sobe a pressão nas arquibancadas. Bola na rede é vitória certa do time da casa, porque o Grêmio não teria como reagir com sete em campo e emocionalmente esfarrapado. Você, claro, sabe que o Náutico perdeu o pênalti e, na sequência, Anderson fez o gol que deu ao Grêmio a partida, o título da Série B e o acesso. Do inferno ao céu em questão de segundos. E ponto de virada desse cenário todo, o momento em que a maré tornou a estar a favor dos gaúchos foi responsabilidade do goleiro Galatto. Então com 22 anos, produto das categorias de base tricolores, ele defendeu com os pés a cobrança do lateral Ademar e deu nova vida ao time. Revigorado, o Grêmio buscou o gol. Galatto se consagrou ali. Nos anos seguintes, porém, não se firmou no time, teve algum sucesso com o Atlético Paranaense sem brilhar e depois colecionou várias camisas. Ainda joga (defende o Juventude), mas será eternamente o goleiro da Batalha dos Aflitos.

6. Nildo evitou o gol 1000 de Pelé

A Fonte Nova registrou em 1969 o possível único caso na história do futebol de um zagueiro que é vaiado pela própria torcida por evitar um gol do adversário. O Brasil vivia a contagem regressiva para o milésimo gol da carreira de Pelé. A cada jogo do Santos, todas as atenções se voltavam para onde quer que o time estivesse, na esperança de que o camisa 10 botasse mais bolas para dentro e chegasse cada vez mais perto da marca milenar. Em partida válida pelo Robertão daquele ano, o time paulista foi a Salvador enfrentar o Bahia – e Pelé tinha 999. Tão querido era o Rei pelos torcedores do Brasil inteiro e tão histórico era o momento que até mesmo os tricolores presentes dedicavam algumas preces à possibilidade de testemunharem in loco o gol mil. E ele quase veio. Uma bola sobrou para Pelé na área após uma bobeada da defesa. Ele deu uma finta de corpo num zagueiro, driblou o goleiro e empurrou para as redes desguardadas. Todos se erguem dos assentos. Eis que surge em disparada o outro beque, Nildo, apelidado de Birro Doido, campeão estadual com o Bahia em 1967. Na velocidade, ele esticou a perna esquerda e bloqueou a trajetória da bola, evitando o milésimo por milímetros. Fez o seu trabalho com louvor e… tomou uma senhora descompostura do estádio inteiro. O Bahia foi o auge da carreira de Nildo, e adiar o grande feito do rei do futebol foi o seu cartão de visitas para sempre.

5. Anselmo lavou a alma dos flamenguistas

A Libertadores ainda é um torneio rústico, para dizer o mínimo, mas já foi bem mais indomável. Em 1981, Flamengo e Cobreloa disputaram a final. O time de Zico tinha mais bola, mas o adversário chileno tinha o zagueiro Mario Soto, notório açougueiro em campo. Depois de o Flamengo levar o primeiro jogo, no Maracanã, o Cobreloa assegurou sua sobrevivência com uma vitória magra em Santiago, ajudada pelas agressões de Soto a Adílio e Lico – o último teria que ficar fora do jogo de desempate. Reza a lenda que o beque usava uma pedra para golpear os oponentes, e que até o ditador Augusto Pinochet, presente ao estádio, teria se espantado com a violência do conterrâneo. O título seria decidido em Montevidéu, e o Flamengo fez valer a sua superioridade. Resolvida a taça, faltava resolver Mario Soto. O técnico Carpegiani chamou o centroavante reserva Anselmo e colocou-o em campo nos minutos finais com apenas uma ordem: “Vai lá e quebra ele”. Missão dada é missão cumprida. Foi direto a Soto e sentou-lhe a mão na cabeça sem hesitação ou disfarce – e, como definiria Júnior anos depois, “com a força de 15 milhões de flamenguistas”. O chileno caiu nocauteado e Anselmo foi prontamente expulso. Voltou ao Brasil festejado pela massa rubro-negra como o vingador da Libertadores. Ficou no Flamengo até o ano seguinte apenas e depois viveu bom momento no Ceará. Mas fez sua fama mais com o punho do que com os pés.

4. Héverton rebaixou a Portuguesa só pisando no gramado

portuguesa-rebaixada

Como vimos no caso de Anselmo, é possível que o lance mais notório de um jogador não envolva nem tocar na bola. o volante Héverton, de passagens pouco momentosas por Corinthians e Vitória, é um exemplo mais extremo disso. Quando defendia a Portuguesa, em 2013, mudou os rumos do Campeonato Brasileiro e do seu time apenas entrando em campo na última rodada. Vamos por partes. Duas semanas antes, ele havia tomado cartão vermelho após o apito final do jogo contra o Bahia por ofensas ao árbitro. Cumpriu suspensão automática na rodada seguinte, mas um julgamento no STJD condenou-o a duas partidas fora. O problema é que a decisão foi tomada na sexta-feira antes da rodada final do torneio e só foi publicada na segunda-feira posterior. Assim, quando a Portuguesa entrou em campo para seu último compromisso, contra o Grêmio, não tinha conhecimento de que Héverton não poderia jogar. O atleta, que começou no banco, entrou no segundo tempo. Com isso, destinou a Lusa a perder os pontos da partida, que a teriam salvo do rebaixamento. Seguiu-se uma controversa batalha judicial que fez de Héverton pivô de um caso de “tapetão” que o futebol brasileiro não presenciava havia anos. Constrangido, ele até quis se aposentar, mas acabou indo para o Paysandu, e depois para times de menor expressão. Novas informações surgiriam tempos depois, dando conta de que a diretoria da Portuguesa na época teria conhecimento da situação do jogador e escalou-o de propósito, supostamente por vantagens financeiras para os cartolas. Tudo ainda é nebuloso, e marcará permanentemente a carreira do volante.

3. Márcio Nunes quebrou Zico antes de uma Copa do Mundo

O lateral-direito Márcio Nunes teve uma carreira curta, quase toda dedicada ao Bangu. Defendeu o time na fase áurea dos anos 1980, e era titular do vice-campeonato brasileiro de 1985. E é tido como um dos maiores estraga-prazeres do futebol brasileiro. No Carioca de 85, em partida contra o Flamengo, o defensor entrou em uma dividida com Zico, recém-retornado da Udinese para os braços da torcida rubro-negra. A bola ficou em segundo plano. Márcio Nunes saltou com o corpo completamente na horizontal, as duas pernas espetadas para frente e as travas das chuteiras em exposição, atingindo o adversário em cheio. Zico não levantou mais, e o banguense foi expulso. O saldo da entrada violenta para o craque do Flamengo foram dois joelhos e um tornozelo torcidos, uma fíbula contundida, escoriações na perna, três cirurgias e meses fora de campo. O pior é que não foi só a torcida do Flamengo que fez de Márcio Nunes inimigo juramentado. A gravidade dos ferimentos pôs em dúvida a participação de Zico no Copa do Mundo de 1986, o que abalou todos os torcedores brasileiros. De fato, o camisa 10 da seleção não foi ao México 100%, e o país creditou a perda de mais uma Copa ao defensor do Bangu. Márcio Nunes recebeu o perdão de Zico, mas o lance o abalou profundamente. Ah, e lembra que eu disse que a carreira dele foi curta? Foi porque aos 25 anos sofreu entrada semelhante, rompeu os ligamentos de um joelho e teve que se aposentar forçadamente.

2. Adriano Gabiru derrubou o Barcelona

O caso de Gabiru é bastante peculiar entre os outros nomes aqui elencados. Até aqui, estivemos falando de jogadores que foram alçados a um status inédito por seus lances famosos. O meia alagoano, porém, já tinha alguma notabilidade antes do seu momento de glória – foi titular do Atlético Paranaense campeão brasileiro de 2001, virou ídolo da torcida e chegou a ser convocado para a seleção. Porém, uma vez escrito na história o acontecimento que vamos relembrar, tudo mais ficou desimportante. Hoje, ninguém consegue falar de Adriano Gabiru sem lembrar, quase que exclusivamente, daquele gol. E que gol foi. Em 2006, o Internacional conquistou a América e se qualificou para disputar o Mundial de Clubes, onde também estaria o poderoso Barcelona de Ronaldinho (que vinha de dois prêmio de melhor do mundo). O elenco colorado estava bem provido de opções ofensivas: Fernandão, Iarley, Alex, os garotos Alexandre Pato e Luiz Adriano. Acuados em campo contra os favoritos catalães, nenhum deles incomodou muito. Já passava da metade do segundo tempo quando Gabiru entrou. Logo ele, que vinha desagradando a torcida ao longo de todo o ano. Minutos depois, um rápido contra-ataque conduzido por Iarley achou o meia disparado pela esquerda. Ele bateu colocado e achou as redes. Virou instantaneamente herói, reconciliado com os torcedores. Afinal, foram duas alegrias: levar o título mundial inédito em cima de um grande adversário e frustrar Ronaldinho, cria do arquirrival Grêmio. O Gabiru jogador deixou o Inter pouco depois, circulou entre clubes médios e perdeu espaço no cenário principal. O Gabiru ídolo permanece no Beira-Rio e na memória coletiva.

1. Cocada fez o gol do Cocada

O primeiro lugar desta lista fica com o jogador que serviu de inspiração para ela. O Vasco conquistou em 1988 um bicampeonato carioca que não conseguia alcançar havia 38 anos, e sempre que esse título é mencionado fala-se que foi o jogo do “gol do Cocada”. O jogador é tão amarrado ao lance que acabou por batizá-lo, e se você conseguir me dizer qualquer outra coisa sobre Cocada, ganha um doce (uma cocada, quem sabe). Irmão menos famoso do atacante Müller, Cocada foi lateral-direito e reserva profissional. Teve uma passagem esquecível (e esquecida) pelo Flamengo, e depois seguiu para o Vasco. A decisão do Carioca de 88 foi entre os dois times. O jogo ia se encaminhando para terminar em 0-0, placar que já garantia o bi cruzmaltino, quando Cocada substituiu o ponta Vivinho. Aos 44 do segundo tempo, depois de uma roubada de bola, o lateral foi lançado em velocidade, cruzou o campo de ataque e disparou uma bomba do bico da grande área, acertando o ângulo. Gol que sacramentava o triunfo. Na comemoração, Cocada correu para o banco do Flamengo e provocou o técnico Carlinhos, que o dispensara do clube rubro-negro anos antes. Acabou expulso e iniciou uma briga generalizada entre os dois times. Ao fim da peleja, o jogador de uma gaiata entrevista em que “previu” que entraria para os anais por seus feitos naquele dia. Na mosca. Então ficamos assim: Cocada entrou no radar do futebol brasileiro numa noite de junho de 1988. Fez um gol histórico. Tomou um cartão vermelho. Provocou um pega-pra-capar. Foi campeão. Tudo em quatro minutos. E nunca mais foi visto. Fim.

11 feitos do futebol brasileiro que jamais veremos outra vez

As grandes lendas do futebol se constroem de forma insuspeita. É praticamente impossível detectar quando um recorde será batido, um legado será firmado ou um astro será eternizado. As coisas simplesmente acontecem, nos pegam de surpresa e a partir daí procuramos justificá-las, construir retroativamente o caminho da glória que levou ao momento que testemunhamos em campo. Apenas respondemos ao épico, não podemos antevê-lo. Isso é bom. É parte da beleza do espetáculo.

Essa prática de reagir ao inexplicável e desvendar sua trajetória nos deu, como espectadores, a curiosa habilidade de identificar aquilo que é irrepetível. Quando paramos para pensar sobre o que testemunhamos, temos a perspectiva da sequência de acontecimentos que, projetando adiante, percebemos que não ocorrerá de novo. Marcas existem para serem superadas, mas às vezes nos deparamos com algumas que, sendo frutos dessas circuntâncias históricas tão particulares, resistirão para sempre.

Aqui estão alguns exemplos disso.

11. O Santos e o São Paulo foram bi da Libertadores e do Mundial

Santos-dá-a-volta-olímpica1-horz
O Santos de Dorval e Gilmar, o São Paulo de Cerezo e Raí

Não estou revelando nenhum segredo da humanidade. O Santos de Pelé & companhia derrotou Peñarol e Boca Juniors antes de derrubar Benfica e Milan, em 1962 e 1963. O São Paulo sob a batuta de Telê Santana venceu Newell’s Old Boys e Universidad Católica e depois abateu Barcelona e Milan, em 1992 e 1993. Conquistas enormes, e amplamente conhecidas. É tão comum lembrá-las que não paramos para pensar que são praticamente inalcançáveis para qualquer outro clube brasileiro no estado atual das coisas. Desde o bi tricolor, por três vezes times nacionais conseguiram retornar à final continental como defensores do título (o próprio São Paulo em 1994 e 2006 e o Palmeiras em 2000) mas não ganharam nenhuma. Garantir a Libertadores por vezes consecutivas já se mostra tarefa árdua. O desempenho nos Mundiais também decaiu: se até 1993 os representantes brasileiros venceram seis dos sete que disputaram, desde então foram só quatro em onze, e em tempos recentes está difícil até fazer frente aos times africanos. Não é só o histórico estatístico que joga contra. O sucesso internacional tende a valorizar os jogadores campeões, o que esvazia os times vencedores e dificulta novas conquistas de forma imediata. Pode ser que demore mais do que três décadas até termos outro clube brasileiro exercendo hegemonia no palco global, se é que haverá algum de novo.

10. Dadá Maravilha fez dez gols em uma só partida

big_dario-jose-dos-santos-dada-maravilha-03
Dario no Sport, onde jogou entre 1975 e 1976

O irreverente Dario, artilheiro profissional, fez história jogando pelo Sport ao marcar dez gols num jogo do Campeonato Pernambucano de 1976, contra o pobrezinho Santo Amaro (placar final: 14-0). Ele não é o único com a marca, mas há registros controversos para os outros dois casos conhecidos: Mascote, do Sampaio Corrêa, em 1934, e Caio Mário, do CSA, em 1948. Em todo caso, Dadá está garantido no rol. O feito inclusive ajudou-o a ser artilheiro do Pernambucano de 76 mesmo jogando só metade do campeonato – antes do fim, foi negociado com o Internacional e deixou a Ilha do Retiro. Se já é difícil vislumbrar goleadas dessa magnitude, imagine com participação tão avassaladora de um jogador só. É mais comum que os times se poupem depois de garantir um resultado largo, e também que mostrem misericórdia com o adversário, de modo que um placar que alcance dois dígitos é bastante impensável. Além disso, treinadores cultivam a prática de substituir um jogador que arrebenta quando a partida já está no papo para que ele saia sob aplausos, ganhando moral para si e para o time. Uma performance como a de Dario seria certamente interrompida antes da contagem de dez, com essa finalidade.

9. O Corinthians ganhou um jogo do Brasileiro por 10-1

Mas OK, sejamos flexíveis em relação aos gols de Dario e ao resultado do seu Sport. Pode ser que algum campeonato estadual dos mais periféricos, mais dados a surpresas e eventos inusitados, nos presenteie com algo próximo. Mas o que dizer da primeira divisão do principal campeonato nacional de futebol? Em 1983, pela primeira fase do Campeonato Brasileiro, o Corinthians de Sócrates surrou o Tiradentes, do Piauí, por 10-1. O próprio Doutor fez quatro gols. Foi, e ainda é, a maior goleada da história dos Brasileiros. E sempre será. Ou alguém imagina que a primeira divisão, hoje mais estruturada e competitiva, tem espaço para lavadas desse tamanho? Pelo regulamento da época classificavam-se automaticamente para a primeira divisão os campeões estaduais (caso do Tiradentes), e é cristalino que alguns deles não tinham nível para encarar os grandes times. Hoje não funciona mais assim. Um clube pode dominar seu estado por anos a fio, mas só chegará à elite nacional se atravessar as divisões inferiores uma a uma. Esse processo filtra os candidatos, de modo que a Série A é mais equilibrada e não comporta a discrepância técnica que deságua em um 10-1. Claro que, mesmo no contexto daquele momento, o resultado foi uma excrescência – o Tiradentes até conseguira vencer o Corinthians algumas semanas antes, jogando em casa. Hoje, porém, seria absolutamente proibitivo.

8. Durval foi decacampeão estadual passando por cinco clubes

v-horz
Dois dos títulos de Durval: Sport (2009) e Santos (2012)

Se você rapidamente inclui o zagueiro Durval numa lista de carreiras mais estreladas do futebol brasileiro, você provavelmente é parente dele. Mais conhecido pelas conquistas da Copa do Brasil de 2008 com o Sport e da Libertadores de 2011 com o Santos, o beque capixaba é um coadjuvante profissional, mas foi capaz de enfileirar nada menos do que dez títulos estaduais consecutivos, ao longo de passagens por cinco clubes de cinco estados e quatro regiões do país diferentes. A sequência começou em 2003, no Botafogo-PB, e seguiu por Brasiliense e Atlético Parananese – um título por camisa. Com o Sport foi um tetra, entre 2006 e 2009. Em seguida, um tri pelo Santos, até 2012. A toada só foi interrompida em 2013, mas foi por pouco: o Santos foi vice paulista, e Durval, tão determinado que estava em prolongar sua marca, até fez gol em uma das partidas da decisão, contra o Corinthians. Clubes, sempre na disputa, podem ser decacampeões – aconteceu com América-MG (1916-1925) e ABC (1932-1941), no tempo do ronca. Atletas, com suas trajetórias de altos e baixos, idas e vindas, necessitariam de uma enorme combinação de coincidências. Se o jogador é muito bom, descola transferência para algum lugar onde não há estaduais. Se é muito ruim, não vai para times competitivos. Aconteceu com Durval. Os planetas não se alinham assim duas vezes.

7. O Campeonato Gaúcho de 1994 durou mais de nove meses…

inter-1994
O Inter campeão de 94: Luís Carlos Winck, Jairo, Luiz Fernando, Alex, Zinho, Sérgio Guedes / Caíco, Celso Vieira, Leandro, Nando, Dinei

Falei sobre regulamentos insanos aqui, mas só abordei Campeonatos Brasileiros. Se qualquer competição entrasse na conversa, certamente o Campeonato Gaúcho de 1994 teria dado as caras. Com uma primeira divisão inchada, composta por 23 times, a federação estadual queria um torneio que servisse para botar ordem no futebol local. Haveria nove rebaixados, sendo que um deles, o lanterna, iria direto para a terceira divisão. Era um campeonato propositalmente ruim, porque deveria deixar um cenário de terra arrasada para que o Gauchão pudesse recomeçar do zero, um pouco mais arrumado. Foi adotado um sistema de pontos corridos em turno e returno, o que significava que cada time teria que disputar impensáveis 44 partidas. A carga pesada de jogos não conseguiu conviver muito bem com o fato de que os clubes tinham outras competições para disputar ao longo do ano, o que exigiu um malabarismo de datas e várias remarcações de jogos. O estadual teve a primeira rodada no dia 5 de março, mas alguns times só puderam estrear duas semanas depois. A bola parou de rolar em 17 de dezembro, quase nove meses e meio após seu início. Mesmo na realidade anárquica dos torneios brasileiros, é muito tempo. O Campeonato Gaúcho que demorou mais do que uma gestação humana ganhou o apelido de “O Interminável”, foi um fracasso de público e crítica e ainda gerou outra marca que deve atravessar a eternidade.

6. …e o Grêmio jogou três vezes no mesmo dia

O Grêmio disputou cinco competições em 1994 (Gaúcho, Copa do Brasil, Brasileiro, Conmebol e Supercopa Libertadores), totalizando 85 jogos oficiais – média de um a cada quatro dias. O estadual era a mais desimportante delas, mas também a que mais ocupava calendário. Priorizando os demais campeonatos, o clube foi adiando seus compromissos pelo Gauchão, até que chegou no mês de dezembro ainda precisando disputar oito partidas (e só para cumprir tabela, pois já nem podia ser campeão). A solução para acomodar tudo no curto tempo que restava foi honestamente quadrúpede: fazer o Grêmio entrar em campo três vezes no mesmo dia, aliás na mesma tarde. Entre as 14h e as 20h do dia 11, o Tricolor enfrentaria, em sequência, Aimoré, Santa Cruz e Brasil de Pelotas. No calor castigante do verão de Porto Alegre, menos de 300 pessoas compareceram ao Olímpico para a rodada tripla, durante a qual o Grêmio teve que escalar 34 jogadores diferentes (muitos deles juniores). O dia hercúleo rendeu duas vitórias, um empate e faturamento total de bilheteria de R$ 690. Quatro atletas participaram de dois dos jogos, incluindo o volante Émerson, que faria longa carreira na seleção brasileira e no futebol europeu. No mesmo ano, o Juventude (também Gaúcho) e o São Paulo (Brasileiro e Conmebol) tiveram que fazer dois jogos em um dia só. Mas dose tripla, só mesmo o Grêmio.

5. Mazarópi ficou mais de 20 jogos sem tomar gol

20110430-1552-1-mazzaropi-defende-penalti-de-tita-na-decisao-por-penaltis-da-taca-rio-de-1977
Mazarópi protege a meta do Vasco

O recorde mundial de impenetrabilidade de um goleiro em competições oficiais não pertence a lendas da meta como Buffon, Banks, Yashin, Casillas ou Van Der Sar. É de um brasileiro, e um que passa longe de figurar entre os maiores arqueiros da história do país. Estou falando de Mazarópi, que fez fama pelo Grêmio no anos 80. Antes disso, porém, o guarda-redes com jeito de caipira (daí o apelido) defendeu o Vasco. E como defendeu. Entre os Campeonatos Cariocas de 1977 e 1978, Mazarópi ficou 1.816 minutos sem precisar buscar uma bola no fundo do gol. Isso dá nada menos do que vinte partidas inteiras, mais uns quebrados. A série começou em jogo contra o Bonsucesso que o Vasco venceu de virada por 2-1 (o gol adversário foi marcado aos 13 do primeiro tempo). Atravessou o segundo turno inteiro do torneio de 77 – que o Vasco obviamente venceu – e o início do torneio de 78. O responsável por estragar a festa foi o meia Manfrini, do Madureira, aos 33 da primeira etapa do 21º jogo após o último gol. Fizeram parte da sequência cinco clássicos. Apenas os jogos pelo Carioca nesse período entram na contagem, porque o recorde considera invencibilidade em uma competição. Hoje, 20 jogos cabem em um estadual inteiro, e superam todo o primeiro turno do Brasileiro. Inimaginável que algum goleiro consiga sobreviver intacto a essas jornadas. No Brasil recente, a melhor tentativa pertence a Rogério Ceni, que em 2007 mal alcançou a metade da marca de Mazarópi (988 minutos). E falando nele…

4. Rogério Ceni fez mais de cem gols como goleiro

O ídolo maior do São Paulo é também o principal expoente de uma espécie em extinção no futebol: os goleiros artilheiros. Nas novas safras da posição, praticamente inexistem profissionais de alto nível que também dublem como batedores de faltas e pênaltis, as principais válvulas de escape para que os goleiros escrevam seus nomes nas tábuas de artilheiros. Essa falta de renovação no ofício é que transforma o recorde de Rogério Ceni de impressionante em imbatível. No momento em que escrevo estas mal traçadas, são 127 gols autorados pelo capitão tricolor, total que ultrapassa o dobro do registrado pelo patrono dos arqueiros matadores, o paraguaio José Luis Chilavert. Já se vão quase dez anos desde que Rogério superou Chilavert, numa histórica partida contra o Cruzeiro em que pegou um pênalti e marcou duas vezes para salvar a pele do time, que perdia por 2-0. Ao longo da carreira Rogério tornou-se o maior goleiro artilheiro de todos os principais campeonatos que disputou, e está a um tento de entrar na lista dos dez maiores goleadores do São Paulo. Pare um pouquinho e pense no absurdo desse fato. Um GOLEIRO estará entre os dez jogadores de toda a história octogenária de um clube de futebol. Quer mais? Rogério é o maior artilheiro são-paulino em Copas Libertadores e o terceiro maior em Brasileiros. Mesmo ignorando tudo isso, ficam os 127. Não há ameaça visível no horizonte.

3. O Botafogo cedeu metade da seleção na Copa de 1934

selecaode1934
O Brasil na Copa de 34: Martim, Pedrosa, Sylvio Hoffmann, Tinoco, Luiz Luz, Canalli, Waldemar de Britto, Leônidas da Silva, Armandinho, Luisinho

A pior participação brasileira em um Copa do Mundo foi resultado de uma bagunça institucional que se arrastou por anos e cindiu todas as categorias possíveis que faziam o esporte – atletas, clubes, dirigentes, ligas, até a federação nacional. Tudo motivado pela inevitável adoção em definitivo do regime profissional no futebol brasileiro, o que aconteceu a partir de 1933. Mas o amadorismo caiu atirando. Quando se aproximava a Copa da Itália, havia duas entidades gerindo o esporte no país: a desafiante FBF, reunindo os profissionais, e a tradicional CBD, último bastião dos amadores. Como apenas essa última era reconhecida pela Fifa, ficou encarregada da representação brasileira no mundial. Os clubes da FBF, maioria, recusaram-se a colaborar. O único grande que apoiava a CBD era o Botafogo, e basicamente o time alvinegro inteiro foi recrutado: ambos os goleiros, um zagueiro, cinco médios e dois atacantes, total de dez atletas. A CBD ainda conseguiu enxertar o elenco com outros dez jogadores profissionais que atraiu mediante pagamento (que ironia). Com metade da delegação, o Botafogo estabeleceu o recorde de mais jogadores cedidos por um clube ao Brasil numa Copa (apenas três foram titulares: o goleiro Pedrosa e os médios Martim e Canalli). Algo que só ocorreu por contingências irrepetíveis da guerra fria que profissionais e amadores travavam. Nem em outras Copas do mesmo período foi preciso convocar tantos jogadores de um só clube. Nenhuma equipe brasileira de hoje tem condições de colocar seu time titular inteiro na seleção. Clubes estrangeiros juntam mais atletas de nível mundial, mas dez brasileiros? Nem o Shakhtar Donetsk. E olha que eles tentam.

2. Gilberto Nahas expulsou dois times inteiros de uma vez

8537770
Nahas tenta controlar avaianos e alvinegros

Gilberto Nahas foi sargento da Marinha e árbitro entre os anos 50 e 70. Em 1971, foi escalado para apitar um clássico amistoso entre Avaí e Figueirense, em Florianópolis. Organizado pelas autoridades locais, o jogo seria realizado no dia 1º de abril como celebração de aniversário do golpe militar de 1964. Havia muitos almirantes e políticos presentes ao Estádio Adolfo Konder. A peleja corria bem, sem gols, até os dez minutos do segundo tempo. Foi quando o zagueiro avaiano Deodato deu um pontapé no centroavante alvinegro Cláudio, que o provocava. A briga rapidamente se espalhou entre todos os atletas dos dois times, que transformaram o gramado num octógono. Torcedores também invadiram o campo para contribuir. O juiz Nahas, observando seu jogo se converter em caos, tomou medidas drásticas: puxou o cartão vermelho e ergueu-o para todos os lados, gritando que estava expulsando todo mundo. Sim, todo mundo. Todos os 22 jogadores numa sentada. Nem a pressão de seus superiores hierárquicos da Marinha, que foram atrás dele para reverter a decisão e garantir a continuidade do evento (não esqueça, era um jogo promovido pela ditadura), adiantou. Nahas bateu o pé, disse que a autoridade em campo era ele e manteve as expulsões. O incidente entrou para a história como “Clássico da Vergonha”. Os militares não conseguiram impedir o fim prematuro da partida, mas, nos tempos modernos, o comercialismo conseguiria. Nenhuma TV aceitaria a interrupção inesperada do jogo que transmite, então certamente há orientações aos árbitros para não perder as estribeiras desse jeito. Além do quê, nem as mais homéricas batalhas campais do futebol brasileiro resultaram em dois times no chuveiro mais cedo – no máximo, os jogadores mais exaltados de cada lado. O “golpe de estado” de Nahas, que sabotou a festa da ditadura, continuará ímpar.

1. Amadeu Teixeira treinou o América-AM por 53 anos

Amadeu[7]
A bola, a santa e Amadeu Teixeira, o Senhor América-AM

Quantos técnicos o seu time já demitiu nos últimos, digamos, cinco anos? Será que o número atinge dois dígitos? Bem provável. A dança das cadeiras dos treinadores é um fenômeno inerente ao futebol brasileiro dos dias atuais. De raro em raro conseguimos ver um clube que mantém o mesmo “professor” por três, quatro anos, quando a fase é muito boa, mas não é a regra. Amadeu Teixeira, entretanto, não dá a menor pelota para a regra. O manauara assumiu a prancheta do América de Manaus, clube de sua família, em 1955, quando o time era tetracampeão amazonense. Só foi deixar a função em 2008, mais de meio século depois. Estava, então, no primor de seus 82 anos de idade e teve que se afastar por questões de saúde, portanto não foi demitido. Foram 53 anos como técnico, um recorde inigualável, intocável, inequivocamente insuperável na história passada, presente e futura do futebol brasileiro. Um caso único de ligação umbilical entre um homem e seu time de futebol. Teixeira ajudou a fundar o América com 13 anos de idade, mas era muito ruim de bola para ser jogador. Virou roupeiro. Depois foi massagista e fisioterapeuta, antes de ser promovido a treinador e ir ficando. Não viu muito sucesso: venceu apenas uma vez o estadual, em 1994, e foi duas vezes campeão da Série B amazonense (1960 e 1962). Virou o presidente de honra do Mequinha da floresta, passando o bastão para o filho e a presidência oficial para a neta. Lenda viva do futebol local, ganhou um ginásio com seu nome em Manaus. Acima de tudo, Amadeu Teixeira estabeleceu um feito que viverá para sempre, como o maior absoluto da história do futebol brasileiro.

Os 11 maiores estádios do Brasil

Em outubro do ano passado saiu, sem nenhum alarde, a versão mais atualizada de um documento interessante que a CBF publica anualmente: o Cadastro Nacional de Estádios de Futebol. É uma compilação estatística sobre as arenas brasileiras, desde as mais acanhadas, com poucos milhares de lugares e arquibancadas que nem conseguem dar a volta no campo, até as mais monumentais, com seus assentos marcados e seu “padrão FIFA”. Traz informações interessantes, para quem gosta dessas coisas. Pode ser consultado aqui.

De lá tirei esta lista, falando um pouquinho sobre os maiores estádios do Brasil, segundo o Cadastro. A capacidade que considerei aqui foi estritamente aquela que o documento da CBF apresenta, mais especificamente o que é chamado de “capacidade de operação”.

11. Fonte Nova (Salvador, BA) – 50.025

fonte nova

NOME OFICIAL
Complexo Esportivo Cultural Octávio Mangabeira
PROPRIETÁRIO
Governo da Bahia
INAUGURAÇÃO
07.04.2013 – Bahia 1-5 Vitória, Campeonato Baiano
PRIMEIRO GOL
Renato Cajá, Vitória

Esta é a nova Fonte Nova, construída para a Copa do Mundo de 2014 no mesmo local da antiga, que foi implodida em 2010. Em sua versão original, de 1951, o estádio era um colosso que chegou a comportar mais de 80 mil pessoas e recebeu os grandes momentos do futebol baiano. O Bahia conquistou lá seus títulos nacionais de 1959 e 1988, e o Vitória venceu duas Copas do Nordeste sobre o maior rival, além de disputar a final do Brasileiro de 1993. Porém, a tradicional arena de Salvador foi condenada em 2007, um pedaço da arquibancada superior cedeu e sete pessoas morreram no desabamento. O novo estádio manteve o nome, uma homenagem ao governador da Bahia na época da inauguração do original. Como palco da Copa do Mundo recebeu seis jogos e o apelido de “Fonte dos Gols”, pelos placares elásticos que presenciou. Antes do torneio, em 2013, a Fonte teve uma inauguração movimentada. O evento deveria servir de teste para a caxirola, espécie de chocalho inventado pelo músico Carlinhos Brown para ser o instrumento oficial da Copa. Todos os torcedores receberam uma. O Vitória goleou o Bahia por 5-1 em clássico válido pela 4ª rodada do estadual, e a torcida tricolor, descontente com o time, atirou as caxirolas nos jogadores em protesto. Dali para frente o instrumento foi banido. Em 2016, alguns jogos de futebol das Olimpíadas do Rio de Janeiro terão lugar na Fonte.

10. Albertão (Teresina, PI) – 52.296

albertao

NOME OFICIAL
Estádio Governador Alberto Silva
PROPRIETÁRIO
Governo do Piauí
INAUGURAÇÃO
25.08.1973 – Tiradentes 0-0 Fluminense, Campeonato Brasileiro
PRIMEIRO GOL
Dirceu Lopes, Cruzeiro (29.08, Tiradentes 1-1 Cruzeiro)

Nossa lista de maiores estádios brasileiros verá agora duas excentricidades, a começar pelo Albertão, localizado em Teresina. Foi erguido na gestão do governador Alberto Silva, cujo nome também batiza a obra, para a estreia do futebol piauiense no cenário nacional. O protagonista era o Tiradentes, tricampeão estadual nos anos 70, que estreou no Campeonato Brasileiro em 1973. O jogo inaugural do estádio terminou num anticlimático 0-0 com o Fluminense, mas foi marcado pelo acidente que matou cinco pessoas: uma grade de segurança que separava as gerais do fosso ao redor do campo quebrou, derrubando parte da multidão que se aglomerava no setor. Em 2013, mesmo sem chance alguma de ser escolhido como sede da Copa do Mundo, passou por uma reforma de cerca de R$ 30 milhões para modernização e ampliação. A foto acima, aliás, é da face antiga do Albertão – não é fácil achar fotos novas de boa qualidade que mostrem o estádio inteiro do alto. O aporte multimilionário não foi suficiente para deixar a arena em perfeitas condições, e o governo do Piauí já prepara uma nova fase de reparos emergenciais para corrigir defeitos primários nas estruturas.

9. Parque do Sabiá (Uberlândia, MG) – 53.350

parque sabiaa

NOME OFICIAL
Estádio Municipal João Havelange
PROPRIETÁRIO
Prefeitura de Uberlândia
INAUGURAÇÃO
27.05.1982 – Brasil 7-0 Irlanda, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Falcão, Brasil

O segunde peixe fora d’água vem do Triângulo Mineiro, mais especificamente de Uberlândia. É também a única arena da nossa lista que não fica em uma capital. O Parque do Sabiá, mesmo nome de uma famoso parque ecológico da cidade, tem a distinção de ser o último estádio a receber a seleção brasileira de Telê Santana, Zico, Falcão e Sócrates antes da estreia na Copa do Mundo de 1982. O time inaugurou o campo em seu último amistoso de preparação para o mundial, e fez bonito, goleando categoricamente a Irlanda. Pouco depois o estádio foi palco do título nacional da segunda divisão do Uberlândia Esporte Clube – que desde então não chegou nem perto de glória semelhante e hoje mal se mantém na elite de Minas Gerais. O Parque do Sabiá, porém, continua firme e forte em seu gigantismo. Recebeu o Sul-Americano de Futebol Feminino de 1995 e foi uma das casas temporária do Cruzeiro durante as reformas no Mineirão para a Copa do Mundo de 2014. Em 95, por sugestão do vereador Leonídio Bouças, o estádio mudou de nome oficial para João Havelange – a população local, não muito contente, ainda prefere usar a nomenclatura original.

8. Beira-Rio (Porto Alegre, RS) – 56.000

©2014_Gabriel_Heusi

NOME OFICIAL
Estádio José Pinheiro Borda
PROPRIETÁRIO
Sport Club Internacional
INAUGURAÇÃO
06.04.1969 – Internacional 2-1 Benfica, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Claudiomiro, Internacional

Voltamos à nossa programação normal, com estádios de times relevantes em cidades futebolisticamente importantes. O Beira-Rio, casa do Internacional, nasceu como um revide. O Colorado originalmente mandava seus jogos no acanhado Estádio dos Eucaliptos. Nos anos 60, viu o megarrival Grêmio erguer o seu Olímpico e vencer 12 dos 13 estaduais subsequentes. O Inter encheu-se de brios, arranjou um terreno às margens do Guaíba (que não é um rio, e sim um enorme e comprido lago, mas os porto-alegrenses não gostam de ser lembrados disso) e construiu seu novo estádio. Batizado oficialmente em homenagem ao engenheiro português que comandou as obras e morreu pouco antes da inauguração, o novo lar logo recebeu a alcunha de Gigante da Beira-Rio, tão pomposa quanto o nome da (então) arena do seu coirmão. O efeito foi imediato: o Inter foi octacampeão gaúcho a partir do momento em que teve o Beira-Rio (batendo o recorde gremista de sete títulos consecutivos) e venceu três Brasileiros nos anos 70. Anos depois, conquistou suas duas Libertadores jogando as partidas decisivas no estádio. O Beira-Rio recebeu cinco jogos da Copa do Mundo de 2014 e fez história ao ser o primeiro palco do uso decisivo da novíssima tecnologia de linha do gol da FIFA: o primeiro gol da França na vitória por 3-0 sobre Honduras, na fase de grupos, só foi sacramentado com a ajuda eletrônica, que fazia sua estreia em competições oficiais.

7. Arena do Grêmio (Porto Alegre, RS) – 56.500

arena gre

NOME OFICIAL
Arena do Grêmio
PROPRIETÁRIO
Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense
INAUGURAÇÃO
08.12.2012 – Grêmio 2-1 Hamburgo, Amistoso
PRIMEIRO GOL
André Lima, Grêmio

Se a diferença de capacidade entre o Beira-Rio e a novíssima Arena do Grêmio (cerca de 500 cabeças) parece pequena, é porque é mesmo, e de propósito. Só a maior rivalidade do futebol brasileiro é capaz de motivar um clube a construir um estádio minuciosamente calculado para ser o mínimo possível maior do que o de seu arquirrival, só de sacanagem. Deus abençoe o Gre-Nal. Mas divago. A Arena transportou o Grêmio de sua tradicional sede no bairro da Azenha para os limites de Porto Alegre, onde haveria mais espaço para a construção de um estádio de maiores dimensões. Além da perda do histórico Olímpico (que ainda está de pé, mas inativo), os gremistas certamente lamentaram a falta de espaço na nova casa para realizar a “avalanche”, tradicional comemoração tricolor em que os torcedores descem correndo as arquibancadas em grupo, criando um magnífico efeito visual – e um risco de pisoteamento. Numa das primeiras avalanches, em janeiro de 2013, um pedaço de alambrado cedeu com o peso da massa que se acumulava na frente, derrubando torcedores no campo. Não houve feridos graves, mas o clube decidiu acrescentar cadeiras ao setor, efetivamente impedindo a prática. A inauguração do estádio, um grande evento até com apresentação do grupo americano Blue Man Group, foi uma reedição da final do Mundial Interclubes de 1983, vencido pelo Grêmio, e o placar foi até igual. A Arena é o maior estádio do Sul do Brasil.

6. Arruda (Recife, PE) – 60.044

arruda

NOME OFICIAL
Estádio José do Rego Maciel
PROPRIETÁRIO
Santa Cruz Futebol Clube
INAUGURAÇÃO
04.06.1972 – Santa Cruz 0-0 Flamengo, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Betinho, Santa Cruz (07.06, Santa Cruz 1-0 Seleção Brasileira Olímpica)

Não é por acaso que o estádio do Santa Cruz leva o apelido de “Mundão do Arruda”. O local já chegou a abrigar mais de 100 mil torcedores, e hoje, mesmo com a capacidade reduzida, ajuda a manter o Santinha como constante recordista de média de público no futebol brasileiro. O nome oficial da arena homenageia o ex-prefeito do Recife (e pai do ex-vice-presidente da República Marco Maciel) que facilitou a obtenção do terreno para o Santa Cruz, ainda na década de 50. Já o nome popular é o mesmo do bairro onde o campo se localiza. O processo de construção foi arrastado e difícil, durou quase 20 anos e contou muito com a ajuda dos torcedores, que se mobilizaram para doar materiais e até mesmo trabalhar nas obras de graça. Depois de todo o esforço, os fieis seguidores corais foram recompensados com um jogo inaugural sem gols, num amistoso contra o Flamengo. Foi preciso arranjar outra partida, contra a seleção olímpica de Falcão, para ver o primeiro gol – felizmente, de um atleta da casa. O Arruda foi um dos palcos da Copa América de 1989, mas não integrou a lista de sedes da Copa do Mundo de 2014. A organização do mundial preferiu construir, com muito dinheiro público, uma nova arena na capital pernambucana a usar o segundo maior estádio particular do país, já pronto.

5. Mineirão (Belo Horizonte, MG) – 61.846

belohorizonte_aerea_arenamineirao1401_06

NOME OFICIAL
Estádio Governador Magalhães Pinto
PROPRIETÁRIO
Governo de Minas Gerais
INAUGURAÇÃO
05.09.1965 – Seleção Mineira 2-1 River Plate, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Buglê, Seleção Mineira

O local é de más lembranças para o futebol brasileiro depois da Copa de 2014, desnecessário explicar o porquê, mas o Mineirão tem uma formidável história que o 7-1 não pode derrubar. A trajetória do futebol de Minas Gerais é dividido entre antes e depois do estádio. Não é modo de dizer. Os campeonatos estaduais realizados a partir da inauguração compõem aquilo que os estudiosos chamam de “Era Mineirão”. Cruzeiro e Atlético Mineiro viveram bons anos no início da vida da arena: a Raposa levou uma Taça Brasil de forma invicta em 1966 e uma Libertadores em 1976, enquanto o Galo foi campeão brasileiro em 1971 e vice em 1977, isso sem contar os estaduais. A rivalidade entre Cruzeiro e Atlético é provavelmente uma das maiores do mundo a ser contestada no mesmo estádio (ou seja, sem que cada clube tenha uma casa diferente), e os maiores jogadores de cada clube, respectivamente Tostão e Reinaldo, são os reis de gols do Mineirão. Em 2014, já depois da Copa, foi realizada lá a final da Copa do Brasil entre os arquirrivais mineiros, um dos grandes momentos do clássico. Vale uma curiosidade: os dois gols inaugurais do estádio forma marcados por jogadores do Atlético, mas nenhum valeu para o Atlético. Na primeira partida, o meia atleticano Buglê estreou as redes, mas ele atuava naquele dia pela seleção mineira. Na reabertura após as reformas para a Copa do Mundo, o lateral-direito Marcos Rocha, do Galo, fez contra e ajudou – logo quem – o Cruzeiro. O Mineirão recebeu seis jogos do mundial, incluindo uma semifinal, aquela mesmo. Receberá partidas de futebol nas Olimpíadas de 2016.

4. Castelão (Fortaleza, CE) – 63.903

castelao

NOME OFICIAL
Estádio Governador Plácido Castelo
PROPRIETÁRIO
Governo do Ceará
INAUGURAÇÃO
11.11.1973 – Ceará 0-0 Fortaleza, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Erandy, Ceará (18.11, Ceará 1-0 Vitória)

O maior estádio do Nordeste do Brasil é cearense. O Castelão foi também a única sede nordestina da Copa do Mundo de 2014 a receber a seleção brasileira, o que fez por duas vezes, e ainda viu mais três jogos da competição. É o palco histórico do Clássico-Rei, a rivalidade entre Ceará e Fortaleza, que polariza o estado. Bote polarização nisso: dos dez maiores públicos do Castelão em todos os tempos, cada clube foi responsável por cinco. Assim como o Arruda, o Castelão também teve que esperar/organizar uma segunda partida para ver seu gol de estreia, já que o amistoso inaugural, justamente entre os grandes rivais da capital, terminou zerado. Batizado em homenagem a um governador, prática muito comum, o estádio foi erguido durante o frenesi de construção de grandes arenas esportivas que se seguiu à conquista do tricampeonato mundial pela seleção brasileira. Ele tem um homônimo menos famosos: o Castelão de São Luís (MA), que figuraria nesta lista há alguns anos. O Castelão (original) foi local também de um encontro entre o Papa João Paulo II e o músico Luiz Gonzaga, em 1980, quando o pontífice, visitando o Brasil pela primeira vez, participou do Congresso Eucarístico Nacional em Fortaleza e foi homenageado pelo Rei do Baião.

3. Morumbi (São Paulo, SP) – 66.795

morumbi

NOME OFICIAL
Estádio Cícero Pompeu de Toledo
PROPRIETÁRIO
São Paulo Futebol Clube
INAUGURAÇÃO
02.10.1960 – São Paulo 1-0 Sporting, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Peixinho, São Paulo

O São Paulo tem duas datas de fundação, então seria bastante apropriado que o seu estádio também fosse inaugurado duas vezes. Essa curiosidade marca o Morumbi, o maior estádio particular do Brasil. A construção de sua arena custou caro ao Tricolor, que passou por uma longa seca de títulos enquanto dedicava recursos à obra. Em 1960, com o estádio só meio pronto, realizou-se a inauguração referida acima, contra o Sporting de Lisboa. Mas os trabalhos só foram concluídos dez anos depois, e fez-se outro jogo, contra o também português Porto. Sorte do São Paulo que a primeira impressão é que vale e a inauguração considerada oficial é a primeira, porque o time venceu o jogo e conseguiu anotar o primeiro gol – contra o Porto, foi empate e os lusitanos abriram o placar. O Morumbi valorizou o bairro de mesmo nome, que, se hoje é um dos mais nobres da cidade de São Paulo, antes do estádio era uma região esquecida. Batizado em homenagem ao presidente do clube que comandou o início da construção (e morreu sem ver a obra pronta), o Morumbi recebeu por muito tempo os grandes jogos do futebol paulista, mesmo os que não envolviam o São Paulo. O maior público, por exemplo, foi na final do Paulista de 1977, entre Corinthians e Ponte Preta. No entanto, os maiores momentos vividos lá foram mesmo protagonizados pelos donos da casa: duas das três Libertadores são-paulinas foram sacramentadas no gramado do Morumbi.

2. Mané Garrincha (Brasília, DF) – 72.288

brasilia_aerea_arenaestadionacional-5789

NOME OFICIAL
Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha
PROPRIETÁRIO
Governo do Distrito Federal
INAUGURAÇÃO
18.05.2013 – Brasília 0-3 Brasiliense, Campeonato Brasiliense
PRIMEIRO GOL
Bocão, Brasiliense

Assim como a Fonte Nova, o Mané Garrincha também aparece aqui em sua nova versão, depois de ter sido posto abaixo para receber a Copa do Mundo. Inaugurado em 1974, o primeiro Mané só foi receber o nome de um dos maiores jogadores da história do futebol depois que o próprio Garrincha esteve no Distrito Federal, já em fim de carreira, para disputar um amistoso – em outro estádio, ressalte-se. Inicialmente a personalidade que dava nome à arena da capital era o ex-governador Hélio Prates. Ao refazê-lo para a Copa, o governo local esteve a ponto de erradicar a homenagem ao ponta-direita, rebatizando a obra apenas de Estádio Nacional, mas a pressão popular conseguiu garantir a manutenção do nome histórico. O Mané Garrincha foi o estádio mais caro de toda a Copa do Mundo, com custos totais girando em volta de R$ 1 bilhão, inteiramente em dinheiro público. Para uma cidade que não tem representante sequer na segunda divisão nacional desde 2010 é um exagero injustificável. Entretanto, grandes times nacionais têm cultivado o hábito de mandar algumas partidas em Brasília, o que traz alguma atividade futebolística relevante ao estádio. No mundial foram sete partidas recebidas, incluindo duas do Brasil. A abertura da Copa das Confederações de 2013 também se realizou no Mané Garrincha, e alguns jogos de futebol das Olimpíadas de 2016 terão lugar lá. Além de ser o segundo maior estádio brasileiro, é o maior das regiões Centro-Oeste e Norte.

1. Maracanã (Rio de Janeiro, RJ) – 78.838

maracana

NOME OFICIAL
Estádio Jornalista Mário Filho
PROPRIETÁRIO
Governo do Rio de Janeiro
INAUGURAÇÃO
16.06.1950 – Seleção Carioca 1-3 Seleção Paulista, Amistoso
PRIMEIRO GOL
Didi, Seleção Carioca

E chegamos a ele, o maior de todos. E por muitos anos foi mesmo. A capacidade total do Maracanã um dia chegou a espantosos 120.000 espectadores, colocando-o como maior palco para futebol do planeta, mas sucessivas reformas foram minando o tamanho do estádio, substituindo a lendária geral por cadeiras, e o honroso posto teve que ser abandonado. Segundo quem se habituou aos anos gloriosos do estádio, nem o charme sobrou. As lembranças, porém, não são poucas. O Maracanã foi megalomaniacamente construído para abrigar a Copa do Mundo de 1950 e, implicitamente, para abrigar o primeiro título mundial do Brasil. O público da final (contabilizadas todas as pessoas dentro do estádio, não apenas nas arquibancadas) foi inacreditável: 200.000 pessoas. Todas saíram decepcionadas com a queda diante do Uruguai. Poderia aquele monumento superar tão doloroso debute? Poderia, ah se poderia. O Maracanã tornou-se um personagem próprio da história do nosso futebol, palco de craques, esquadrões, decisões épicas e momentos inesquecíveis. Imortalizou o histórico Mário Filho, principal jornalista esportivo do Brasil e quem mais advogou pela construção de um estádio faraônico no Rio de Janeiro, um sujeito tão grande que, segundo seu irmão Nelson Rodrigues, merecia ser enterrado no Maracanã. Foi-o simbolicamente, emprestando seu nome depois da morte. O Maracanã tornou-se em 2014 apenas o segundo estádio do mundo a receber duas finais de Copa, e hospedará as Olimpíadas de 2016. Já recebeu Copa América, Copa das Confederações, Jogos Pan-Americanos. Toda essa história começou com um gigante: Didi, um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, que fez o primeiro gol do estádio ainda como juvenil. Lá foi a casa de Garrincha, Pelé (o Santos mandou jogos oficiais no local), Gérson, Rivellino, Roberto Dinamite, Zico, Romário. Quem chega às portas do estádio é recebido por uma estátua do zagueiro e capitão Bellini erguendo para sempre a Taça Jules Rimet. É, inquestionavelmente, um lugar de mitos. E o maior, em todos os sentidos, estádio do Brasil.

Os 11 regulamentos mais estapafúrdios do Campeonato Brasileiro

A CBF discute com os clubes e a Rede Globo a mudança do regulamento do Campeonato Brasileiro – mais uma vez. Após doze temporadas seguidas repetindo as regras da disputa, um recorde para a caótica organização do futebol do país, é possível que os pontos corridos acabem por dar lugar ao retorno do mata-mata. Seria o ideal? Honestamente, não sei. Vejo méritos nas duas fórmulas e acho que um debate aberto sobre o assunto seria muito bem-vindo. Além disso, nenhum modelo é intocável, e o passar dos anos pode trazer necessidade e interesses diferentes para os torcedores.

O problema é que, quando se trata de elaborar o Campeonato Brasileiro, a preferência do torcedor vem em último lugar na lista de ingredientes usados para se criar um regulamento. Xícaras de jeitinho, colheres de politicagem, pitadas de viradas de mesa e surrealismo a gosto dão o tom da principal competição do futebol brasileiro há décadas. Já que o papo voltou, vamos recordar as maiores atrocidades em forma de livro de regras que o nosso futebol já teve que engolir.

11. 1989 – Pontos cumulativos

vasco89_1
O Vasco campeão de 89: Mazinho, Luís Carlos Winck, Zé do Carmo, Quiñonez, Marco Aurélio, Acácio / William, Sorato, Boiadeiro, Bebeto, Bismarck

As duas primeiras fases do Campeonato Brasileiro de 1989 foram um exercício do subtração. Os 22 times foram divididos em dois grupos de 11. Na primeira fase, os grupos se enfrentavam internamente. Cada clube fazia, então, dez jogos. Ao fim, cada grupo classificava seus oito primeiros para a segunda fase, enquanto os seis piores times seguiam para a disputa do Torneio de Rebaixamento (jogos de ida e volta, os quatro últimos caíam). No entanto, as equipes não foram redistribuídas, e os grupos permaneceram os mesmos – a única diferença era a exclusão dos lanternas. A partir daí, os times enfrentavam os integrantes do outro grupo, num total de oito confrontos para cada participante. O detalhe é que os pontos conquistados na primeira fase eram mantidos. Ou seja, se em teoria havia duas fases, na prática o torneio consistia em uma fase de dois turnos – sendo que os piores do primeiro eram excluídos da disputa do segundo. Ao fim, o melhor de cada grupo na soma de todas as rodadas avançava à final, onde o Vasco, do grupo B, venceu o São Paulo, do grupo A. O sistema de pontos cumulativos não pegou.

10. 1973 – A farra dos grupos

palmeiras 73
O Palmeiras campeão de 73: Eurico, Leão, Luís Pereira, Alfredo Mostarda, Dudu, Zeca / Edu, Leivinha, César, Ademir da Guia, Nei

A primeira grande engorda do Campeonato Brasileiro – de 26 para 40 participantes – exigiu um certo contorcionismo da CBD para criar uma disputa ampla na primeira fase. Em um primeiro turno, os times eram divididos sem muito critério em dois grupos de 20 e se enfrentavam dentro das chaves em jogos só de ida, totalizando 19 partidas. Passada essa etapa, as equipes foram reembaralhadas em quatro grupos de 10, a partir de um método vagamente geográfico, e jogaram mais nove vezes. Ao fim, portanto, de 28 rodadas compilavam-se todos os pontos e classificavam-se para a segunda fase os 20 melhores da classificação geral, independente do desempenho relativo dentro dos grupos em cada turno. Para completar a bagunça da primeira fase, os jogos de cada equipe não foram divididos igualmente entre casa e fora. O Olaria, por exemplo, teve mando de campo em duas míseras partidas. No extremo oposto, o Figueirense atuou em casa inacreditáveis 23 vezes. O título ficou com o Palmeiras, bicampeão.

9. 1975-1978, 1994 – Repescagem favorece os piores

cam-lon-1
Em 1977, o Londrina (camisa listrada) foi 8º no seu grupo de 10 times na primeira fase, mas, graças à repescagem, chegou à semifinal, onde enfrentou o Atlético Mineiro

O modelo de fases preliminares eliminatórias servia bem ao Brasileiro nos primeiros anos, para evitar que os clubes tivessem que viajar muito pelo país enfrentando todos os outros participantes de um campeonato já inchado. Porém, era preciso agradar politicamente os centros periféricos (a razão pela qual, afinal de contas, o governo ditatorial acrescentava tantos times ao torneio), mesmo que seus representantes não tivessem condições competitivas de brigar pelas vagas para as fases decisivas. A solução inventada em 1975 foi uma repescagem, logo depois da primeira fase, a ser disputada por todos os últimos colocados dos grupos. Uma nova oportunidade para que os mais fracos prosseguissem na disputa. Só que a repescagem não dava vaga para a segunda fase: jogava seus classificados diretamente na terceira. Ou seja, os campeões dos grupos tinham que disputar entre si lugares na terceira fase, enquanto quem caísse mais cedo só enfrentava os demais “capachos” pelas mesmas vagas. Era, então, uma segunda fase alternativa, só que contra competição mais fraca. O modelo vigorou até 1978 e foi ressuscitado por razões insondáveis em 1994 – se bem que com o ônus de rebaixar quem não sobrevivesse à segunda chance. Apenas dois times, em todo esse histórico, alcançaram as semifinais do campeonato vindos da repescagem: o Londrina de 1977 e o Atlético Mineiro de 1994.

8. 1974 – Classificação por renda

flu
Em 74 a torcida do Fluminense teve um papel muito mais direto para influenciar o sucesso de seu time no Campeonato Brasileiro

A média de público do Brasileiro vinha em decadência desde os tempos de Robertão. Uma ideia inédita e pouquíssimo ortodoxa foi implementada no torneio de 1974 para tentar reverter esse quadro: a renda de bilheteria dos times como critério de classificação. Na primeira fase os 40 times estavam divididos em dois grupos de 20. Os 10 primeiros de cada grupo, mais os dois de melhor desempenho geral fora dessas posições, passariam adiante. Aí vinha o truque: avançariam, ainda, os dois clubes dentre os demais com as maiores rendas acumuladas em suas partidas. A norma beneficiou o Fluminense, 16º do Grupo A, e o Nacional-AM, 17º do Grupo B – em meio a suspeitass de que seus próprios dirigentes haviam comprado ingressos para inflar os números. Logo ficou claro que beneficiar os campeões de público não faria sentido para a competição. Primeiro porque os dois times não chegaram nem perto de brigar pelas vagas na fase seguinte. Segundo porque a média de público do campeonato, mesmo com o incentivo nada sutil para levar mais torcida aos estádios, foi a pior da década até então. Foi a primeira e última aparição da classificação por renda.

7. 1985 – Dois mundos em um torneio

ctb-ban
Coritiba (camisa listrada) e Bangu fizeram a final mais inusitada de todos os Brasileiros – conclusão perfeita para um campeonato que promoveu artificialmente os pequenos ao nível dos grandes

A repartição do Brasileiro em duas divisões e o sistema de rebaixamento e acesso estavam em pleno e próspero funcionamento (mesmo que de forma inusitada, como veremos adiante) desde 1980, e pareciam consolidados. Por algum motivo isso passou a ser um problema em 1985, quando a CBF resolveu simplesmente promover a segunda divisão inteira de uma vez. Ou quase isso. Os 20 times que comporiam a Taça de Ouro (primeira divisão) foram divididos nos grupos A e B e jogaram entre si, enquanto que os 22 da Taça de Prata (segunda divisão) formaram os grupos C e D e se enfrentaram. A primeira fase se realizou, então, ainda segregada. As divisões conviveram, mas não se encontraram. Cada grupo classificava quatro equipes para a segunda fase integrada. Isso significa que as melhores se digladiaram pelo mesmo número de vagas que as piores. Apenas então, com quatro grupos de quatro, é que houve a mescla de divisões. Esse tratamento igualitário permitiu campanhas mais longas de clubes como CSA, Joinville, Mixto, Brasil de Pelotas (semifinalista) e Bangu (vice-campeão). O título ficou com o surpreendente Coritiba, oriundo dos grupos da Taça de Ouro mas ainda assim uma grande surpresa.

6. 1980-1984 – Acesso no mesmo ano

cor-gre 82
Em 1982, o Corinthians (camisa branca) começou o Brasileiro na segunda divisão, mas se aproveitou do acesso expresso, chegou à primeira para as fases decisivas e pegou o Grêmio na semifinal

Na virada dos anos 70 para os 80, a CBD se desmembrou em várias confederações esportivas específicas, entre elas a CBF. Com isso, a organização do Campeonato Brasileiro também passou por transformações. O torneio foi dividido em três divisões – as taças de Ouro, de Prata e de Bronze -, cada qual com sua própria disputa, e um sistema de rebaixamento e acesso foi instituído entre elas. Tudo parecia mais organizado e estável. Mas não seria Brasileirão sem um pingo de criatividade. Estabeleceu-se que a classificação para o campeonato seria por meio dos estaduais: os melhores colocados iriam para a Taça de Ouro, os imediatamente abaixo para a Taça de Prata, e assim por diante. Para contornar o risco de ver times grandes na segunda divisão nacional por conta de deslizes regionais, criou-se a ferramenta do acesso à primeira divisão na mesma temporada. Após uma primeira fase, os quatro melhores colocados da Taça de Prata eram promovidas à disputa da segunda fase da Taça de Ouro, e podiam competir pelo título da divisão principal. Curiosamente a disputa da Taça de Prata continuaria sem eles, significando que os melhores times da segunda divisão não podiam brigar pelo título da… segunda divisão! Campeão e vice da Taça de Prata também subiriam, mas só no ano seguinte. A norma beneficiou clubes tradicionais como Sport, Bahia, Palmeiras, Corinthians e Guarani, que começaram diferentes anos na segundona por más campanhas estaduais e rapidamente voltaram à elite. O Corinthians de 1982, aliás, foi semifinalista. Em 1984 apenas um time ganhou o benefício, e no ano seguinte a regra já havia desaparecido.

5. 1979 – Paulistas pulam fora

inter 79
O Internacional campeão de 79: João Carlos, Benítez, Mauro Pastor, Falcão, Mauro Galvão, Cláudio Mineiro / Valdomiro, Jair, Bira, Batista, Mário Sérgio

O Brasileiro de 79 foi o ápice da ingerência política no torneio e o recordista (até então) de participantes: absurdos 94 . O campeonato precisou se adaptar também à possibilidade da realização de um Torneio Rio-São Paulo, que tumultuaria o calendário de paulistas e cariocas. Decidiu-se que os 12 participantes do Rio-São Paulo entrariam no Brasileiro já na segunda fase. Eles se juntariam aos classificados da primeira fase, que seriam (prepare-se) os quatro primeiros dos grupos A e C, os cinco primeiros dos grupos B, D, E e F e os oito primeiros dos grupos G e H. Total da segunda fase: 56. Dali sairiam 14 para a terceira fase, e aqui, por incrível que pareça, é que começa o problema. A esses 14 seriam adicionados Guarani e Palmeiras, já previamente classificados à terceira fase por terem sido campeão e vice do Brasileiro de 78. Só que os demais times grandes paulistas não gostaram nadinha do favorecimento a seus rivais e pleitearam o direito a também só entrarem na disputa mais à frente. O pedido foi negado, então Corinthians, Portuguesa, Santos e São Paulo simplesmente desistiram de participar. Tiveram que ser substituídos às pressas, de modo que os representantes do estado de São Paulo no principal campeonato de futebol do país foram Comercial, Francana, Inter de Limeira, São Bento, XV de Jaú e XV de Piracicaba – além de Guarani e Palmeiras, claro, que não tinham nada a ver com isso. Quem se aproveitou foi o Internacional, que conseguiu ser campeão invicto. Ah, e o Rio-São Paulo que bagunçou o coreto do Brasileiro acabou nem acontecendo.

4. 1993 – Rebaixamento seletivo

gre-flu 93
Grêmio e Fluminense se enfrentam em jogo que não deveria ter acontecido, já que o tricolor gaúcho estaria na segundona se não fosse o bizarro regulamento

A história do Brasileiro de 1993 começa com uma virada de mesa arquitetada para beneficiar o Grêmio. O clube gaúcho havia caído para a segunda divisão em 1991 e não conseguira o retorno em 1992, ficando apenas em 9º. Para resgatar os tricolores, a CBF rasgou o regulamento estabelecido e promoveu nada menos que 12 times da segundona, além de cancelar o rebaixamento de 92 (bom para Náutico e Paysandu, que cairiam). Em 93, com 32 times no torneio, a confederação dividiu-os em quatro grupos baseados em critérios quase técnicos. Nos grupos A e B, os membros do Clube dos 13 (Grêmio incluso) mais os três melhores não-membros do ano anterior: Bragantino, Guarani e Sport. Os demais foram para os grupos C e D. Após ida e volta dentro dos grupos, passariam à segunda fase os seis melhores de A e B e os dois melhores de C e D. O rebaixamento viria para os oito piores no geral – desde que eles pertencessem aos grupos C e D. Ou seja, os maiores clubes brasileiros foram imunizados da queda – incluindo aí o Grêmio, que nem deveria estar na primeira divisão, para começo de conversa. Ao final, das cinco piores campanhas do torneio, quatro foram de times protegidos, que, portanto, não caíram. Nem Náutico e Paysandu, que já deveriam ter caído. Enquanto isso, o América-MG, 16º no quadro geral, foi um dos rebaixados. O ano seguinte retomou um semblante de normalidade.

3. 1986 – Regulamento pra quê?

1986
Revista Placar noticia a consolidação da virada de mesa que definiu e desfigurou o Brasileiro de 86

Após o imbróglio de 1985, a CBF decidiu usar o Brasileiro de 1986 para arrumar a casa. Novamente a segunda divisão pôde competir por vagas na segunda fase da elite, através do chamado Torneio Paralelo, que reunia 36 equipes. Na divisão principal, chamada de Copa Brasil, eram 44 times divididos em quatro grupos de 11. Avançavam os seis primeiros de cada, mais os quatro melhores no geral que não alcançassem essas posições. Com mais quatro oriundos do Torneio Paralelo, seriam 32 classificados à segunda fase. A ideia é que os 24 melhores desse etapa compusessem a primeira divisão a partir do ano seguinte. Pois bem. Tudo isso que eu expliquei, que já não é simples, não serviu para nada. O Vasco fez má campanha e brigava por um dos quatro lugares destinadas às “sobras” da classificação geral, mas estava ficando para trás. No desespero, recorreu à CBF para protestar contra uma decisão que dava ao Joinville – rival dos cariocas na disputa por vaga – os pontos de um jogo contra o Sergipe por motivo de doping. Ganhou o caso e a vaga. Porém, o Joinville foi apoiado pelo Conselho Nacional de Desportos e também acabou classificado. A CBF precisou inventar uma regra para desclassificar alguém, e a vítima foi a Portuguesa (segunda colocada no seu grupo), sob alegação de ter um processo correndo na Justiça comum, o que seria irregular. Os demais clubes paulistas se mobilizaram em solidariedade à Lusa, ameaçando abandonar o campeonato, e a CBF cedeu mais uma vez. O resultado foi ter em suas mãos uma segunda fase com 33 times, o que tornava impraticável elaborar um calendário. Solução? Ora, perdido por um, perdido por dez. A confederação picotou o que ainda restava de regulamento e determinou a classificação de mais três times, só para chegar ao número mais palpável de 36 remanescentes. Com tantas idas e voltas o torneio só foi concluído em fevereiro do ano seguinte, e a tentativa de criar um marco para a pacificação do Campeonato Brasileiro saiu por todas as culatras possíveis.

2. 2000 – Ode ao absurdo

vas-sca
O Vasco de Romário enfrenta o São Caetano no misericordioso fim de um campeonato gigantesco, confuso e que todos só queriam deixar para trás

É difícil diagnosticar onde o Campeonato Brasileiro de 2000 começou a dar errado. A única certeza é que não houve sequer uma decisão racional envolvida no processo que construiu um torneio Frankenstein, que teve, na prática, inacreditáveis 116 participantes. No ano anterior, o rebaixamento fora tumultuado pelo célebre caso Sandro Hiroshi, que rendeu pontos extras ao Botafogo e salvou o time carioca da queda às custas do Gama. Inconformado, o alviverde de Brasília entrou na Justiça comum apoiado até mesmo pelo então senador José Roberto Arruda (ele mesmo). Na batalha judicial que se seguiu, a CBF viu-se proibida de organizar o campeonato de 2000. Passou o encargo ao Clube dos 13, pela segunda vez na história (a primeira, veremos adiante, também não havia dado muito certo). Temerosa de organizar as diferentes divisões sem a certeza de quem deveria ficar, cair ou subir, a entidade surtou. Aboliu as divisões e criou quatro módulos: Azul, Amarelo, Verde e Branco. Cada um teria um número diferente de integrantes e uma fórmula distinta de disputa e representaria mais ou menos uma “divisão”, com a particularidade que haveria encontro entre módulos na fase final. Ao monstro parido deu-se o nome de Copa João Havelange. Neste momento eu paro para você pegar um café, porque a coisa vai ficar feia.

No Módulo Azul fez-se a festa. Entraram os 18 times que teriam direito de permanecer na primeira divisão; o Goiás e o Santa Cruz, que conquistaram o acesso; o Gama, protegido pela Justiça; o Juventude, que seria rebaixado mas foi salvo sabe-se lá por quê; o Bahia e o América-MG, que não se classificaram na segundona mas acabaram pescados assim mesmo; e o Fluminense, que havia sido campeão da terceira divisão e foi autorizado a pular a segunda. Total: 25 times e incontáveis viradas de mesa. No Módulo Amarelo, 15 times que, depois de desrespeitados todos esses detalhes anteriores dos regulamentos, estariam na segunda divisão e mais 21 convidados arbitrários, totalizando 36. No Módulo Verde, 28 clubes selecionados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No Módulo Branco, 27 clubes selecionados do Sudeste e Sul. Sim, o pistolão rolou solto.

Ainda está aí? Ótimo. Não vale a pena explicar os regulamentos particulares de cada módulo. Saiba apenas que, no fim das disputas, sobravam 16 finalistas: 12 do Azul, 3 do Amarelo e 1 de Verde e Branco. Eles se enfrentaram em mata-mata até que sobrassem dois, que fariam a decisão e disputariam o título. Em teoria, portanto, um time que nem fizesse parte do Campeonato Brasileiro em 1999 em qualquer divisão podia brigar pelo troféu em 2000, se ganhasse o convite para os módulos inferiores. O insignificante Malutrom, que havia se profissionalizado dois anos antes, foi o representante dos módulos Verde e Branco, mas acabou eliminado pelo Cruzeiro logo de cara. Porém, o São Caetano, oriundo da segunda divisão de 99 e do Módulo Amarelo, alcançou a final e quase surpreendeu. O título ficou com o Vasco, campeão de um certame gloriosamente delirante.

1. 1987 – O campeonato que ninguém entendeu

1987
Tanto Flamengo quanto Sport comemoram o título brasileiro de 1987: o regulamento era tão nebuloso que até hoje ainda não foi decifrado

Mas melhor ser o reconhecido campeão de uma maluquice do que vencer um campeonato relativamente simples e ninguém acreditar. É essa a situação de não um mas dois clubes brasileiros, protagonistas da Copa União (risos) de 1987, cujo resultado ainda não é consensual quase três décadas depois do apito final. O pandemônio de 1986 fez a CBF declarar falta de condições financeiras para organizar o Campeonato Brasileiro no ano seguinte, jogando a batata quente para os times. Entrou em cena o Clube dos 13, entidade criada para ser o embrião de uma moderna liga de clubes brasileiros. Reunindo os 13 principais clubes do país, tomou para si as rédeas do Brasileiro e bolou um torneio que seria comercialmente imbatível, com patrocínios fortes e muita rentabilidade.

Para isso dar certo, o Clube dos 13 precisou ser implacável. Apesar do regulamento do Brasileiro de 86 ditar que os 28 primeiros colocados comporiam a elite de 87, o número foi reduzido para apenas 16: os membros do Clube e mais Coritiba, Goiás e Santa Cruz, selecionados a dedo por serem representantes de mercados grandes. Melhor para o próprio Coritiba e para o Botafogo, que não disputariam a primeira divisão nas condições normais. Pior para os 14 times que haviam conquistado o direito dentro das regras e foram simplesmente ignorados. Entre eles estava o Guarani, vice-campeão nacional em exercício.

Para fazer justiça a essas equipes, a CBF “esqueceu” que havia aberto mão de gerenciar o campeonato e criou sua própria disputa. Aos 14 foram adicionados Vitória e Náutico, e a Ponte Preta foi substituída pelo Treze. Nascia um torneio paralelo, também com 16 times, embora mais fracos. A disputa do Clube dos 13 ganhou o nome de Módulo Verde; a da CBF, de Módulo Amarelo (sim, a ideia de batizar campeonatos com cores da bandeira precedeu a Copa João Havelange). Havia ainda os módulos Azul e Branco, arremedos de segunda divisão, mas eles não entram na história.

A CBF foi além e jogou uma ideia: que tal seria se os campeões e vices dos módulos Verde e Amarelo se enfrentassem num quadrangular para decidir o campeão dos campeões nacionais de 1987? Aqui é o ponto central da discordância que permanece viva até hoje. O Clube dos 13 alega que nunca topou. A CBF garante que obteve a concordância do notável Eurico Miranda, que representava o Clube dos 13 nas negociações. Sem os ponteiros estarem acertados, os campeonatos aconteceram. O Flamengo venceu o Módulo Verde, tendo o Internacional como vice. Sport e Guarani dividiram o título do Módulo Amarelo após dois empates nas finais e graças à trivial ausência de uma regra para desempatar. Os dois primeiros não compareceram ao quadrangular e tomaram W.O. em seus jogos. O Sport venceu o Guarani e foi declarado, pela CBF, campeão brasileiro, título que o Flamengo já comemorava há semanas. Estava plantada a semente do mal.

A experiência foi tão desastrosa que já no ano seguinte o Clube dos 13 abriu mão de seu propósito fundador e virou um mero negociador de direitos de televisão. A CBF voltou a organizar o Campeonato Brasileiro e continuou fazendo besteira, como pudemos ver. A disputa pelo reconhecimento do título de 1987 segue nos tribunais, como a evidência mais visível e famosa da nossa histórica incapacidade de organizar torneios descomplicados.