Os 11 cartolas que mais fizeram cartolices

O cartola é uma figura essencial do futebol brasileiro. Aquele dirigente falastrão, paternalista, aferrado ao poder, nada profissional, metido em maracutaias e politicagens. Que vê seu clube como uma extensão de si mesmo e faz de tudo para levá-lo ao sucesso, em parte por paixão de torcedor e em parte por vaidade pessoal. Há também a variedade que comanda entidades, e que compensa com mais despotismo o que não pode ter de títulos.

A categoria está em alta. Cartolas tupiniquins exercem alguns dos principais papéis na investigação que está fazendo a casa da FIFA cair como nenhuma outra casa jamais caiu antes. É o Brasil fazendo bonito na primeira divisão da criminalidade internacional. Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo del Nero são a geração de ouro da nossa cartolagem, os nossos Gullit-Rijkaard-Van Basten de terno e gravata.

Em homenagem a eles, vamos recordar os maiores representantes do ofício na história do futebol brasileiro. A trinca de ouro atualmente ocupando manchetes policiais em todo o planeta vira hors concours aqui, senão não teria graça. Fica como café-com-leite também o grande capo da famiglia FIFA, o inabalável João Havelange, que é o bode na sala do escândalo. Noves fora esse hall da fama, eis a nata da dirigência boleira nacional.

11. Carlito Rocha (Botafogo)

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Carlito Rocha é uma exceção nesta lista pelo fato de que não se metia em delinquências. Fora esse detalhe, preenchia ao extremo todos os outros requisitos da cartolagem e era particularmente talentoso em uma característica: a excentricidade. Era supersticioso ao ponto de parecer lunático. Foi jogador e técnico do Botafogo, mas foi na condição de presidente do clube, entre 1948 e 1951, que mais se celebrizou. Mandava dar nós nas cortinas da sede social como forma de azarar as pernas dos adversários, recusava-se a estar dentro de um carro que desse ré por achar que era má sorte e carregava consigo um alfinete de fralda repleto de medalhinhas de santos. Em sua gestão, o Botafogo arrancou o Campeonato Carioca de 1948 das mãos do Vasco, que era, na época, o melhor time do Rio de Janeiro e base da seleção brasileira. Uma das contribuições mais longevas do dirigente ao clube de General Severiano foi o cachorro Biriba, adotado como mascote. O animalzinho, que pertencia ao zagueiro Macaé, invadiu o campo durante uma partida de aspirantes que o Botafogo acabou por vencer. Dali em diante, Carlito só entrava no estádio com Biriba em punho.

10. Laudo Natel (São Paulo)

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O ponto de partida para os cartolas metidos em práticas escusas é com o ex-governador de São Paulo e ex-presidente do São Paulo Laudo Natel, um dos principais responsáveis pela construção do estádio do Morumbi – através de manobras no mínimo duvidosas. Natel presidiu o Tricolor entre 1958 e 1971, justamente o intervalo durante o qual foi erguida a obra. Durante esse período, acumulou por alguns anos o cargo com o posto de vice-governador do estado (justiça seja feita, licenciou-se do clube sempre que assumiu a titularidade do governo, uma vez pela cassação de Adhemar de Barros e outra por eleição indireta). Também ocupou um assento na diretoria do Bradesco, que usou para facilitar a obtenção de créditos e títulos para o São Paulo. Jamais ficou claro se aproveitou suas posições políticas para beneficiar diretamente o clube, mas a cessão do terreno onde se encontra o estádio é envolta em mistério até hoje, e as boas conexões de Laudo Natel, combinadas com sua longeva presidência, contribuem para tornar a história toda ainda mais suspeita.

9. Andrés Sanchez (Corinthians, CBF)

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Atravessando a cidade de São Paulo, chegamos ao Corinthians e a Andrés Sanchez, um cartola dos novos tempos. Envolvido em políticas clubísticas desde cedo (foi fundador da torcida organizada Pavilhão Nove), Sanchez assumiu a presidência em 2007 e conduziu o Timão no renascimento pós-rebaixamento. Sua grande obra foi a construção do Itaquerão, feito que alcançou através de sua amizade com Lula, então presidente da República. O financiamento da Caixa Econômica Federal, as isenções tributárias concedidas e a briga política para colocar o novo estádio na Copa do Mundo (e assim justificar sua construção) são os rastros deixados pelas relações perigosas de Andrés Sanchez no caminho para a realização do projeto da casa própria do Corinthians. Aliado de primeira hora de Ricardo Teixeira, conseguiu rachar o Clube dos 13 no meio de uma negociação de direitos de televisão que prometia ser histórica, tudo para ajudar o status quo da CBF. Chegou a diretor de seleções e tinha tudo para suceder Teixeira, mas a renúncia do mentor mudou o cenário e ele perdeu força. Hoje é deputado federal e ainda vai aprontar muito.

8. Vicente Matheus (Corinthians)

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Outro que não sujou o nome com falcatruas, Vicente Matheus sobe na lista pela excelência nos critérios “longevidade” e “boca grande”, além da entrega carnal que tinha pelo Corinthians. Diretor de futebol no auge do sucesso do time nos anos 1950, foi presidente por 16 anos, ao longo de oito mandatos que abrangeram porções de quatro décadas diferentes – e ainda emplacou a esposa, Marlene, em uma eleição. Na sua gestão foi quebrado o tabu de 23 anos sem títulos, e foi com ele que o Timão conquistou o Campeonato Brasileiro pela primeira vez. Matheus investia (muito) dinheiro do próprio bolso para financiar o clube (prática adotada por vários cartolas hoje) e bancou o crescimento da Gaviões da Fiel, que ganhou muita influência na política interna corintiana graças a seu apoio. Talvez seja mais conhecido do grande público como frasista desastrado. São de sua autoria pérolas como “O Sócrates é inegociável, invendável e imprestável”; “Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático”; “Comigo ou sem migo o Corinthians vais ser campeão”; e “O difícil, vocês sabem, não é fácil”.

7. Eduardo José Farah (FPF)

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Como eu disse, existem cartolas que fazem fama não liderando clubes, mas comandando federações, regendo campeonatos e moldando o cenário do futebol nacional de forma mais ampla. É o caso de Eduardo José Farah, que foi presidente do Guarani no fim dos anos 60 mas ganhou fama mesmo em seus 15 anos como mandatário da Federação Paulista de Futebol, entre 1988 e 2003. Sua longa gestão foi marcada por invencionices que tiveram vida curta, como as disputas de pênaltis para desfazer todos os empates e a escalação de dois juízes por partida. Farah também investiu na importação de árbitros estrangeiros para apitar jogos do Paulista, iniciativa que culminou na infame performance do argentino Javier Castrilli na semifinal de 1998, entre Corinthians e Portuguesa. No mesmo ano, bolou o bizarro “Disque-Marcelinho”: a FPF comprou o passe de Marcelinho Carioca do Valencia e promoveu uma votação telefônica entre as torcidas para decidir qual clube ficaria com o meia (ganhou o Corinthians). Uma ideia do cartola que pegou foi a adoção do spray dos árbitros – que foi por muito tempo visto como uma excentricidade. Farah também ficou marcado por denúncias de sonegação, evasão de divisas e desvio de recursos da Federação, e pela campanha que fez contra as torcidas organizadas. Sua presidência baniu os bandeirões, proibição que vigora até hoje no futebol paulista e que deixa os estádios menos festivos.

6. Caixa D’Água (FERJ)

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Enquanto Farah reinava em São Paulo, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro vivia sob o jugo de Eduardo Vianna, mais conhecido pelo apelido de “Caixa D’Água” (recebido nos tempos de estudante, quando ia aos bebedouros da escola paquerar as colegas). Homem de muita instrução e cultura, usou toda a sua inteligência para reinar por 22 anos na FERJ, escorado na base eleitoral das inúmeras ligas amadoras do Rio. Assumiu a Federação em 1984 e só deixou o posto graças à pequena inconveniência de seu falecimento em 2006. Carregou nas costas denúncias de formação de quadrilha, estelionato e falsidade ideológica, foi acusado de desviar receitas de bilheteria do Maracanã e chegou a ser afastado judicialmente do cargo por duas vezes, mas sempre conseguiu voltar. Bancou viradas de mesa no Campeonato Brasileiro quando elas beneficiaram times cariocas, e também aprontou das suas no campeonato estadual local. O Carioca de 2002, eternizado como “Caixão”, foi uma odisseia que só terminou sete anos depois nos tribunais, em meio a mudanças no regulamento e polêmicas de arbitragem. Curiosamente, um dos prejudicados naquele certame foi o Americano, clube do coração de Caixa D’Água, a quem ele era constantemente acusado de beneficiar.

5. Nabi Abi Chedid (Bragantino, CBF)

FUTEBOL - HISTÓRIA DO BRAGANTINO

Membro mais notável da família que colocou o Bragantino no mapa do futebol nacional, o libanês de nascimento Nabi Abi Chedid foi presidente entre 1959 e 1977, e em sua gestão o clube conquistou pela primeira vez o acesso para a elite do Campeonato Paulista. Os anos dourados no início da década de 90, com título estadual e vice Brasileiro, foram sob os auspícios de seu irmão Jesus (sim), mas Nabi era patrono e comandava o futebol. Suas atenções, porém, estavam divididas com voos mais altos. Sua carreira passou por todos os níveis da cartolagem: do Bragantino foi para a presidência da FPF, entre 1979 e 1982, e de lá ambicionou a CBF. Em 1986, ano de eleição na entidade, o cenário eleitoral projetava um rigoroso empate entre Nabi e o candidato da situação, Medrado Dias (havia número par de federações na época). Sedento pela vitória, o cartola apelou a uma manobra: como o estatuto da CBF previa a vitória do candidato mais velho em caso de igualdade de votos, Nabi inverteu a chapa com seu vice, o sexagenário presidente da FERJ Octávio Pinto Guimarães. O detalhe, que faria Frank Underwood corar, é que Nabi apostava que o câncer que acometia Guimarães deixaria a presidência vaga em breve. Não foi o que aconteceu. O novo mandatário cumpriu o mandato e faleceu cerca de um ano após o fim, deixando seu ávido vice de mãos abanando. Modo de dizer, claro, pois o cartola continuou influente em todos os níveis do futebol e deteve mandatos de deputado estadual durante toda a vida adulta, até sua morte em 2006. O estádio do Bragantino foi rebatizado em sua homenagem graças ao atual presidente, Marquinho Chedid – seu filho, que sucedeu Jesus e está no posto há quase 20 anos.

4. Rivadávia Corrêa Meyer (AMEA, CBD)

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Hora de voltar bastante no tempo e revisitar os primórdios do futebol brasileiro, quando o amadorismo ainda vigorava e ser jogador não era uma profissão. Esses tempos teriam durado para sempre se dependesse de Rivadávia Corrêa Meyer. Ligado ao Botafogo, onde fora atleta e dirigente, detinha a presidência da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA) do Rio de Janeiro no início dos anos 30, quando esquentou no país a disputa entre os puristas do esporte amador e os defensores da profissionalização. Rivadávia era capitão do primeiro time. Considerava que pagar alguém para jogar futebol era indigno, e até chamou publicamente os atletas que reivindicavam salário e reconhecimento profissional de “gigolôs”. Lutava uma causa perdida, pois tinha o apoio apenas de seu Botafogo, do Flamengo e de clubes pequenos (do outro lado estavam Fluminense, Vasco, América, Bangu e, eventualmente, a própria CBD). Mas conseguiu provocar uma cisão no futebol carioca, que forçou o surgimento de uma liga paralela e acabaria por sepultar a AMEA. Depois disso, presidiu a CBD entre 1943 e 1955, ou seja, durante a Copa do Mundo de 1950, no Brasil. No calor do torneio, expôs a seleção às hostes de políticos que quiseram tirar vantagem do contato com os jogadores e permitiu o oba-oba sobre o time, inclusive com manchetes de jornal proclamando os brasileiros campeões antes mesmo do jogo final. Deu no que deu. Sua presidência também organizou um torneio internacional de clubes, a Copa Rio, que, em sua terceira e última edição, foi batizado com o nome do próprio Rivadávia. Modéstia não era o seu forte.

3. Castor de Andrade (Bangu)

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Muitos cartolas têm as ilicitudes como, digamos, negócios paralelos. Castor de Andrade, patrono e benemérito eterno do Bangu, fazia diferente: o crime era seu meio de vida. Herdou do pai um dos maiores impérios de jogo do bicho do Rio de Janeiro e conseguiu a proeza de expandi-lo. Virou um dos homens mais poderosos do estado e circulava entre as elites nacionais, ganhando reverência até do ex-presidente João Figueiredo. Nunca assumiu formalmente nenhum cargo na diretoria do seu clube do coração, mas fez de absolutamente tudo para ajudar o Bangu: usou dinheiro da contravenção para bancar o elenco, subornou árbitros, fez fluir propinas, supostamente botou na gaveta até jogadores adversários quando foi conveniente. Durante mais de 30 anos exerceu sua influência, período no qual o time alvirrubro teve suas maiores glórias: finalista do Carioca por quatro temporadas seguidas, campeão em 1966, vice-campeão brasileiro em 1985. O poder de Castor de Andrade fez-se evidente até mesmo na escolha do mascote oficial do Bangu, em 1981: justamente o animal que batiza o bicheiro. Quem procurar a história do cartola no site do clube vai perceber uma reverência quase religiosa. Os registros falam em “melhor amigo e salvador” do Bangu, “acima do bem e do mal”, e não fazem a menor questão de disfarçar o império mafioso de Castor – pelo contrário, enaltecem-no. O bicheiro também tinha envolvimento no Carnaval: patrocinou a Mocidade Independente de Padre Miguel e foi fundador e primeiro presidente da Liga das Escolas de Samba.

2. Alberto Dualib (Corinthians)

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A dinastia Matheus no Corinthians deu lugar a outra longa presidência de um nome só: a de Alberto Dualib. Eleito para o cargo máximo em 1993, só largou o osso em 2007, praticamente arrancado da cadeira pela justiça. No teste do sucesso do clube ele passa com êxito: o Corinthians teve seus melhores anos sob Dualib, vencendo vários estaduais, duas Copas do Brasil, três Brasileiros e o primeiro Mundial de Clubes da Fifa. Testemunho da força política de Dualib é o fato de que ele conquistou para o clube o direito de participar do Mundial mesmo sem ter vencido antes uma Libertadores. Um dos títulos nacionais alcançados durante a gestão do cartola foi o de 2005, para o qual o Corinthians se reforçou pesadamente graças ao aporte de dinheiro da Media Sports Investment – a famigerada MSI, uma obscura empresa de investimentos em esportes. Seus rostos eram o russo Boris Berezovsky, presidente, e o iraniano Kia Joorabchian, representante no Brasil, ambos figuras carimbadas do submundo das negociatas internacionais. A parceria rendeu apenas este título, mas muitas dívidas para o Corinthians e acusações de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro sobre Dualib. Dois anos depois o presidente estava deposto, deixando como seu legado final um doloroso rebaixamento. Dos maiores altos aos menores baixos, o reinado de Dualib mostrou tudo que um cartola de marca maior pode fazer por um clube de futebol.

1. Eurico Miranda (Vasco)

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Quem mais senão o imperador de São Januário para ficar com o primeiro lugar? Para quem conhece a peça pode ser difícil acreditar, mas Eurico Miranda só exerceu formalmente o cargo de presidente do Vasco por seis anos (2001-2007), antes de retornar em triunfo no ano passado. Mas sua influência na Colina teve início nos anos 60, e por muito tempo foi ele quem deu as cartas no clube, mesmo sem ocupar a cadeira máxima. Foi responsável por repatriar o ídolo Roberto Dinamite do Barcelona, em 1980, e por roubar Bebeto do arquirrival Flamengo em uma das transações mais célebres do futebol brasileiro, em 1989. Na década seguinte tornou-se vice-presidente de Antônio Soares Calçada, a quem enfrentara em eleições anteriores, e, diante da personalidade mais discreta do titular, virou o manda-chuva. Sua figura encharutada virou símbolo de um dos melhores períodos da história do Vasco. Os sucessos (quatro estaduais, um Rio-São Paulo, dois Brasileiros, uma Mercosul e uma Libertadores) vieram na mesma proporção dos desmandos. A mão de ferro de Eurico desautorizava treinadores e jogadores, centralizava as decisões, monopolizava entrevistas e se espraiava para a política clubística nacional. Enfrentava até do governador do Rio de Janeiro. No segundo jogo da final do Brasileiro de 2000, contra o São Caetano, o alambrado de São Januário cedeu após um tumulto nas arquibancadas, ferindo cerca de 150 torcedores. Ambulâncias entraram em campo e pessoas eram atendidas no gramado. Eurico desfilava em meio ao cenário de guerra, bradando ordens para que todos fossem retirados e o jogo (que ia dando o título ao Vasco), reiniciado – apesar de o governador Anthony Garotinho já ter determinado o encerramento do evento. Pelo regulamento, o acontecido deveria causar a eliminação do time mandante. A força política de Eurico forçou o descarte dessa regra, substituída apenas por um novo jogo em campo neutro. Em gesto de provocação à Globo, que transmitia a final e teria pintado-o como vilão do desastre, o cartola fechou um contrato para estampar a logomarca do SBT, emissora concorrente, apenas na partida extra. Eurico teve também carreira parlamentar, sendo deputado federal por dois mandatos. Seu maior ato no Congresso foi tumultuar a CPI da CBF/Nike, em 2000, e rasgar o relatório final dos trabalhos em plena sessão. Deixou a presidência do Vasco em 2008, com o clube rebaixado. Após o patético hiato que foi a gestão de Roberto Dinamite, o monarca está de volta, prometendo resgatar o “respeito” e já fazendo das suas cartolices novamente.

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Os 11 melhores momentos de Ricardo Teixeira na piauí

Em 2011, quando escrevi originalmente esta lista, Ricardo Teixeira estava no auge de seus poderes e de sua arrogância. Havia sido bem-sucedido em trazer a Copa do Mundo para o Brasil, fazia o governo federal dançar miudinho para organizar o evento do jeito que ele queria e estava seriamente cotado para a futura sucessão de Joseph Blatter na presidência da FIFA. Sentindo-se invencível, o imperador da CBF abriu a guarda e permitiu que a revista piauí publicasse um delicioso perfil que entregava toda a sua prepotência e empáfia. Comprovando que quanto maior o salto maior a queda, dali para frente a carreira de Ricardo Teixeira foi morro abaixo, culminando com sua renúncia antes da Copa que, ele imaginava, seria sua apoteose. Gosto de acreditar que a reportagem teve papel importante nisso. E que minha lista é, de certa forma, um registro histórico daquele momento.

A esta altura todo mundo já sabe, e muitos já leram. A edição de julho da revista piauí (é com minúscula mesmo) traz um extenso perfil de Ricardo Teixeira escrito por Daniela Pinheiro, que passou cerca de dez dias na desagradável companhia do imperador da CBF. O texto, muito bem escrito, é chocante em seu conteúdo por expôr a falta de vergonha na cara e consideração pela sociedade que caracterizam Teixeira. As frases embasbacantes reproduzidas pela jornalista (todas elas confirmadas pela CBF, diga-se) estão por toda a internet. Li a reportagem e selecionei as 11 mais marcantes, na minha opinião, para comentar.

Antes de prosseguir para a lista, uma observação. Eu quero estar vivo e bem atento no dia em que Ricardo Teixeira morrer. Quero saborear. Não que eu esteja desejando a morte dele. Mas um dia ele vai morrer, é óbvio. E também não desejo a ele um fim doloroso, cruel, terrível, enfim, que seria condizente com suas ações enquanto vivo. Por mim ele pode morrer dormindo, sem dor, cercado pela família – e pela famiglia – na maior paz. Só digo que, nesse dia, quero aproveitar cada segundo do fato, quero me deleitar com a notícia.

Enfim. A lista.

11. “Só jornalista fala mal de mim. Olha como a imprensa brasileira é escrota! A imprensa brasileira é muito vagabunda”

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Não existe sequer uma pessoa pública com culpa no cartório que não reclame da imprensa. Ricardo Teixeira não seria diferente, mas vai além e xinga-a abertamente, para uma repórter, sabendo que vai tudo parar numa revista. Imagino que, em geral, quem não gosta muito de jornalistas só empregaria esse palavreado nos bastidores, de forma velada. Teixeira, porém, não se preocupa nadinha com isso. Ele sabe que pode falar o que quiser e fazer o que quiser. Segundo ele, e imprensa é “escrota” e “vagabunda” porque fala mal dele, e diz que só a imprensa faz isso. Calculo que ele não deve sair na rua (no Brasil, porque é habitué nas calçadas da Suíça) há uns dez anos para acreditar que é só a imprensa brasileira que o despreza – a parte séria dela, pelo menos.

10. “O neguinho do Harlem olha o carrão do branco e fala: ‘Quero um igual’. O negro não quer que o branco se foda e perca o carro. Mas no Brasil não é assim. É essa coisa de quinta categoria”

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Uma vez Tom Jobim disse que “sucesso no Brasil é ofensa pessoal”, querendo dizer que nosso país ainda não aprendeu o significado de meritocracia. Ricardo Teixeira tentou parafrasear o brilhante músico e não só passou longe da elegância de Jobim como também banhou a frase em um racismo asqueroso. Certamente imaginava-se o “branco” dirigindo seu carrão através de uma multidão de “neguinhos” reverentes. É uma metáfora interessante. O “carrão” seria a CBF, que é mesmo muito sua, o “Harlem” seria todo o Brasil e os “neguinhos” seríamos todos nós, que temos que prestar homenagem a Ricardo Teixeira, em vez de desejarmos sua imediata expulsão do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo e da CBF.

9. “Não vai ter isso, está tudo sob controle”

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Esta frase refere-se a um momento em que Teixeira procurou tranquilizar um representante da empresa que negocia pacotes de hospedagem para a Copa no Brasil, que estava preocupado com possíveis perguntas sobre preços de hotéis em uma entrevista do presidente da CBF com a Globo. Em resposta, Teixeira mandou isso aí. Em outras palavras, “tenho a Globo na rédea curta”. Reclamações? Críticas? Investigações? Verdade? Nada temam, empresários que pretendem fazer a festa no mundial de 2014, Ricardo Teixeira não vai deixar que essas coisas atrapalhem os negócios. Vale observar aqui que a Globo não é censurada: ela concorda com todas as restrições, por conveniência. Esta frase indica um cenário de indignidades em que a Vênus Platinada divide a responsabilidade, mas não deixa de ser indicativo da postura de dono do mundo de Teixeira.

8. “Com dinheiro, se faz tudo”

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O presidente da CBF pronunciou estas palavras à repórter para explicar os atrasos nas obras dos estádios da Copa. Ele diz que está tudo dentro do prazo e que tudo será entregue a tempo, graças ao poder da grana. De futebol Ricardo Teixeira não entende chongas, tenho certeza, mas em bufunfa é um especialista como poucos. A frase significa que qualquer obstáculo na execução dos planos pode ser transposto com uma injeção de dinheiro, só que esqueceu de dizer que o dinheiro não é dele, é nosso. Os estádios serão pagos, na absurda e estrondosa maioria, com verbas públicas. Mais correto seria Teixeira dizer que “Com o dinheiro do Brasil, eu faço tudo”. Talvez coubessem algumas perguntinhas em resposta à máxima digna do filme Wall Street: presidente, com dinheiro se faz inclusive um dirigente esportivo mudar de voto em eleição da FIFA e em escolha de sede de Copa do Mundo?

7. “Só fico preocupado quando sair no Jornal Nacional”

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Novamente o desprezo pela imprensa em geral. Ricardo Teixeira é bombardeado de todos os lados por acusações de corrupção, desvio de dinheiro, recebimento de propina e negócios escusos de forma geral. Para ele, é tudo insignificante. Coisa da “mesma patota”, explica em outro momento: UOL, Folha, Lance, ESPN. Veículos sem audiência, diz ele, sem leitores, ouvintes ou espectadores. Só interessa a Globo e seu principal veículo. É um agrado à parceira, claro, como faz um dono com seu cachorrinho de estimação. Mas, assim como o JN é o maior telejornal do Brasil, a Folha é o maior jornal impresso, o Lance é o maior diário esportivo, o UOL e a ESPN estão entre os maiores em suas áreas de atuação. Os adversários são sim, grandes. Mas ele sabe que não é uma questão de tamanho. Além disso, ele sabe que as pessoas que lhe interessam não dão bola para as notícias desfavoráveis, onde quer que saiam. É uma questão de poder. Ver-se acuado no JN significaria perder o comando sobre a Globo. É isso que preocupa, não uma imagem suja – ora, se ele já conviveu tanto tempo com ela…

6. “O feio é perder, minha querida. Quando ganha, acabou”

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Em suma, os fins justificam os meios. Esse é o lema preferido de muitos tipos lamentáveis de pessoas: os canalhas, os intolerantes, os populistas, os protoditadores… Teixeira é tudo isso junto. A frase foi dita à jornalista quando ela perguntou sobre a eleição da FIFA que manteve Joseph Blatter no cargo e o porquê de, uma semana depois dos atribulados incidentes que marcaram o evento, ninguém mais tocar no assunto. Percebe-se, então, que Teixeira está defendendo o aliado e chefe. A vitória apaga tudo de ruim, portanto. Lembremos que este é o homem que comanda a preparação de uma Copa do Mundo zilionária, repleta de manobras políticas e problemas administrativos. Para ele, o importante, no final, é a festa. Se for bonita, e, ainda, se o Brasil ganhar, danem-se as fortunas arrancadas da saúde, da educação, do saneamento básico e enterradas em estádios faraônicos e nos bolsos de alguns engravatados.

5. “Ai, pai! Não me belisca!”

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Esta frase foi dita pela filha de Ricardo Teixeira, Antônia, de 11 anos, durante um almoço. A cena: Teixeira discursava para a jornalista, pomposamente, sobre sua irrevogável preferência por Joseph Blatter no pleito da FIFA. A pequena Antônia, confusa, exercitou a doce inconveniência de todas as crianças e perguntou, em voz alta “Ué, mas você não quer o Bin Hammam?”, em referência ao oponente de Blatter, Mohamed Bin Hammam. O papai foi rápido e tascou na menina um beliscão por baixo da mesa, pretendendo punir a filha longe das vistas da repórter. Novamente Antônia botou a boca no mundo. Lá atrás vimos como Teixeira valoriza o sucesso individual. Ele não parece pensar o mesmo dos enganos: é sempre culpa dos outros. Neste caso, é culpa da filha o fato de ele ter misteriosamente mudado de opinião sobre o melhor candidato. Em outra passagem do perfil, ele diz que a imprensa é que é a culpada pelo atraso no estádio de São Paulo. O êxito é dele, mas o fracasso deve ser compartilhado, ou simplesmente jogado sobre os outros, quem sabe na forma de um beliscão.

4. “Que porra as pessoas têm a ver com as contas da CBF? Não tem dinheiro público, não tem isenção fiscal. Por que merda todo mundo enche o saco?”

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Como diz o próprio Teixeira, a CBF é uma entidade “pri-va-da” – assim mesmo, escandindo as sílabas, como se os brasileiro fossem alunos de pré-primário com dificuldade para entender as coisas. Ele reclama do interesse das pessoas pela forma como a CBF gere seus recursos, já que tudo ali é privado, e compara a entidade a bancos como o HSBC ou o Bradesco. De fato, a CBF não recebe dinheiro público ou isenção fiscal, e nem precisa, graças à sua dúzia de patrocinadores. Mas um cidadão insatisfeito com o HSBC pode mudar de banco. Eu, insatisfeito com a condução do futebol brasileiro, não tenho outra escolha a não ser o que a CBF decide fazer. É um monopólio, e, ainda por cima, construído sobre algo que nem foi a CBF que desenvolveu, que é o futebol brasileiro. Por mais pri-va-da que seja a confederação, ela não gere algo que é seu. Claro que Ricardo Teixeira, o dono do mundo, não consegue compreender isso.

3. “Isso é o governo. E se o governo acha que a Copa não é prioridade, não posso fazer nada. Esse é o SEU país”

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O manda-chuvas critica o governo por não dar a devida atenção e urgência às obras de infra-estrutura da Copa. Preocupado ele, não? Com o bem do país? Claro que não. Com o bem da sua festa. Ricardo Teixeira é o dono da Copa do Mundo, presidente do comitê organizador, patrão de tudo que diz respeito ao mundial. Como tal, é claro que ele se considera em posição de cobrar do governo federal que coloque seu brinquedinho no topo da lista de prioridades. Atenção, presidente Dilma Rousseff: não é a senhora que decide o que o Brasil precisa. A senhora acha que devemos investir no pré-sal ou no Minha Casa, Minha Vida? Mude os planos, pois Ricardo Teixeira pensa diferente. Mas acredito que a presidente já saiba muito bem disso. Afinal, foi o líder dela na Câmara que disse que seria uma “temeridade” não fazer a Copa, certo? Ele deve ter andado conversando com Teixeira.

2. “Em 2014, posso fazer a maldade que for. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Porque eu saio em 2015. E aí, acabou”

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Aqui está a prova definitiva de que, para Ricardo Teixeira, a Copa do Mundo é DELE. A imprensa fala mal dele? Não deixa entrar! A imprensa critica, desagrada? Usa a Copa como instrumento de vingança! Veja só como ele fala em mudar horários de jogos com a maior sem-cerimônia do mundo, como se milhares de pessoas não fossem gastar altas somas e viajar grandes distâncias dependendo de uma programação bem estabelecida, e não sujeita a ataques egomaníacos de um cartola acometido de desenfreada safadez. A Copa do Mundo é um exercício de poder de Ricardo Teixeira, nada mais que isso. Não é a maior competição do esporte mais popular do mundo. Não é um grande fato jornalístico. Não é um evento que atrai a atenção de milhões de pessoas. Não é um bem coletivo da humanidade que foi colocado, temporariamente, sob guarda do Brasil. É propriedade do presidente da CBF, para ele modelar como bem entender e jogar na cara de quem o incomoda.

1. “Caguei montão”

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Curto e grosso. Quando convidado a dar sua opinião sobre as graves denúncias contra sua pessoa – uma oportunidade até para apresentar uma defesa séria e embasada -, foi apenas isso que Ricardo Teixeira disse. É o que ele pensa da sociedade, das leis, da justiça. Ele caga nisso tudo. O mundo é seu trono – em todos os sentidos. Não há muito o que comentar aqui. Apenas leia e releia essas duas palavras acima e assimile bem o significado da existência de Ricardo Teixeira.