11 jogadores conhecidos por um único lance

Tornar-se famoso no concorrido mundo do futebol não é fácil. Mesmo anos de treino e trabalho podem acabar reduzidos a uma carreira sem brilho, recordada apenas em algum almanaque muitíssimo especializado. Entrar na consciência coletiva dos torcedores requer, além de muito talento, uma boa dose de sorte. Portanto, não surpreende que alguns atletas que conseguem ter seus instantes de maior renome não têm a sorte de repeti-los.

Esses jogadores acabam reconhecidos, para a posteridade, como atores principais de momentos muito específicos, e nada mais. Caso sejam citados nas enciclopédias do futebol, será certamente a partir desses eventos, que se tornam o fato definidor e justificador de suas trajetórias. Para o bem ou para o mal.

Aqui estão 11 dos mais celebrizados one-hit wonders do futebol brasileiro.

11. Guinei foi o primeiro vilão do Corinthians na Libertadores

O Corinthians tem uma longa e (nada) nobre linhagem de jogadores que falham e prejudicam o time em momentos cruciais na Libertadores. Agora que o clube já venceu o torneio essa memória não é tão pesada, mas, antes do título de 2012, cada mata-mata continental corintiano era um exercício em tentar adivinhar quem botaria água no chope. E tudo começou em 1991, na segunda Libertadores disputada pelo Corinthians, com o jovem zagueiro Guinei. Revelado pelo São Bento, ele fora titular na conquista do Brasileiro do ano anterior e era uma promessa alvinegra. No segundo jogo das oitavas-de-final contra o Boca Juniors, com 0-0 no placar e já no segundo tempo, o beque pestanejou ao dominar uma bola fácil na lateral-esquerda e a perdeu para Alfredo Graciani, que marcou. O detalhe é que Guinei já havia falhado em dois gols xeneizes no jogo de ida, que o Corinthians perdera por 3-1. Mas uma coisa é vacilar na Bombonera, outra é diante da Fiel. Com a eliminação (o placar final foi de 1-1), o jogador foi ostracizado. Rodou por times de todo o país e sumiu, mas é sempre lembrado como o primeiro bode expiatório do Corinthians em uma Libertadores.

10. Dalmo deu o bi mundial ao Santos

Não houve time brasileiro igual ao Santos dos anos 1960. Abrilhantavam o esquadrão os nomes de Pelé, Gilmar, Zito, Pepe, Mauro, Coutinho e… Dalmo. O lateral-esquerdo, com passagens também por Paulista e Guarani, foi provavelmente o mais anônimo herói santista dos anos dourados do clube. Mas era titular absoluto da defesa e autografou um dos principais momentos daquela história. Em 1963 o Santos conquistou o bi da Libertadores e o direito de defender o título mundial. O adversário era o Milan, que venceu o primeiro jogo em casa, por 4-2. Mesmo sem Pelé e Zito, machucados, o time conseguiu devolver o placar no Brasil – diga-se de passagem, em grande jogo, arrancando a virada após sair perdendo por 2-0 num dia chuvoso, com o campo enlameado. As regras do tempo previam um jogo-desempate, que foi disputado no Maracanã. Aos 30 do primeiro tempo da “nega”, pênalti para o Santos. Na ausência do Rei, quem pegou a bola foi Dalmo, que era um grande batedor (algumas fontes o creditam como inventor da paradinha). De perna direita (curiosamente era destro), colocou no cantinho, fora do alcance do goleiro Luigi Balzarini, e fez o gol do título. Falecido no início deste ano, Dalmo teve ali seu momento único de protagonismo no maior time do futebol brasileiro em todos os tempos.

9. e 8. Valido empurrou Argemiro. Ou não?

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Dois em um! É impossível não ligar esses nomes numa lista como esta, porque eles compartilham o lance que os notabilizou. Flamengo e Vasco disputavam o jogo final do Campeonato Carioca de 1944. Os rubro-negros perseguiam um inédito tricampeonato, enquanto o clube da Colina buscava acabar com um jejum de sete anos. O empate dava a taça ao Vasco. Com a linha ofensiva em pandarecos (Perácio fora, Zizinho, Pirillo e Modesto Bria baleados), o Flamengo apostava suas fichas no ponta-direita argentino Agustín Valido. Ele fora um importante personagem do clube em anos anteriores, mas encontrava-se aposentado havia mais de um ano – voltou excepcionalmente para a fase final do estadual a pedido dos cartolas. Faltando quatro minutos para o fim do jogo do segundo tempo, com o placar intocado e o título se encaminhando para São Januário, uma bola é levantada na área e Valido salta. Quem o marca é o médio Argemiro, jogador que despontara na Portuguesa Santista e até fez parte do elenco da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938, como reserva (participou de um jogo). Valido chega na bola primeiro e cabeceia para dentro. Argemiro, indignado, denuncia que o argentino se valeu de um empurrão. As fotos do lance mostram, de fato, a mão de Valido nas costas do adversário no momento do salto – mas o gol foi confirmado. Flamengo tricampeão, Vasco inconformado, fim de uma das mais memoráveis decisões de um Carioca e polêmica estabelecida para as futuras gerações.

7. Galatto virou a Batalha dos Aflitos

A epopeia do Grêmio para sair da segunda divisão em 2005 é fartamente conhecida e documentada. Quadrangular final, última rodada, jogo contra o Náutico no Estádio dos Aflitos. Quem ganhar sobe e o empate é tricolor, mas o time tem um homem a menos e pênalti contra aos 35 do segundo tempo. Na confusão após a marcação, mais três jogadores gremistas são avermelhados. A partida fica interrompida por quase meia hora e a torcida timbu sobe a pressão nas arquibancadas. Bola na rede é vitória certa do time da casa, porque o Grêmio não teria como reagir com sete em campo e emocionalmente esfarrapado. Você, claro, sabe que o Náutico perdeu o pênalti e, na sequência, Anderson fez o gol que deu ao Grêmio a partida, o título da Série B e o acesso. Do inferno ao céu em questão de segundos. E ponto de virada desse cenário todo, o momento em que a maré tornou a estar a favor dos gaúchos foi responsabilidade do goleiro Galatto. Então com 22 anos, produto das categorias de base tricolores, ele defendeu com os pés a cobrança do lateral Ademar e deu nova vida ao time. Revigorado, o Grêmio buscou o gol. Galatto se consagrou ali. Nos anos seguintes, porém, não se firmou no time, teve algum sucesso com o Atlético Paranaense sem brilhar e depois colecionou várias camisas. Ainda joga (defende o Juventude), mas será eternamente o goleiro da Batalha dos Aflitos.

6. Nildo evitou o gol 1000 de Pelé

A Fonte Nova registrou em 1969 o possível único caso na história do futebol de um zagueiro que é vaiado pela própria torcida por evitar um gol do adversário. O Brasil vivia a contagem regressiva para o milésimo gol da carreira de Pelé. A cada jogo do Santos, todas as atenções se voltavam para onde quer que o time estivesse, na esperança de que o camisa 10 botasse mais bolas para dentro e chegasse cada vez mais perto da marca milenar. Em partida válida pelo Robertão daquele ano, o time paulista foi a Salvador enfrentar o Bahia – e Pelé tinha 999. Tão querido era o Rei pelos torcedores do Brasil inteiro e tão histórico era o momento que até mesmo os tricolores presentes dedicavam algumas preces à possibilidade de testemunharem in loco o gol mil. E ele quase veio. Uma bola sobrou para Pelé na área após uma bobeada da defesa. Ele deu uma finta de corpo num zagueiro, driblou o goleiro e empurrou para as redes desguardadas. Todos se erguem dos assentos. Eis que surge em disparada o outro beque, Nildo, apelidado de Birro Doido, campeão estadual com o Bahia em 1967. Na velocidade, ele esticou a perna esquerda e bloqueou a trajetória da bola, evitando o milésimo por milímetros. Fez o seu trabalho com louvor e… tomou uma senhora descompostura do estádio inteiro. O Bahia foi o auge da carreira de Nildo, e adiar o grande feito do rei do futebol foi o seu cartão de visitas para sempre.

5. Anselmo lavou a alma dos flamenguistas

A Libertadores ainda é um torneio rústico, para dizer o mínimo, mas já foi bem mais indomável. Em 1981, Flamengo e Cobreloa disputaram a final. O time de Zico tinha mais bola, mas o adversário chileno tinha o zagueiro Mario Soto, notório açougueiro em campo. Depois de o Flamengo levar o primeiro jogo, no Maracanã, o Cobreloa assegurou sua sobrevivência com uma vitória magra em Santiago, ajudada pelas agressões de Soto a Adílio e Lico – o último teria que ficar fora do jogo de desempate. Reza a lenda que o beque usava uma pedra para golpear os oponentes, e que até o ditador Augusto Pinochet, presente ao estádio, teria se espantado com a violência do conterrâneo. O título seria decidido em Montevidéu, e o Flamengo fez valer a sua superioridade. Resolvida a taça, faltava resolver Mario Soto. O técnico Carpegiani chamou o centroavante reserva Anselmo e colocou-o em campo nos minutos finais com apenas uma ordem: “Vai lá e quebra ele”. Missão dada é missão cumprida. Foi direto a Soto e sentou-lhe a mão na cabeça sem hesitação ou disfarce – e, como definiria Júnior anos depois, “com a força de 15 milhões de flamenguistas”. O chileno caiu nocauteado e Anselmo foi prontamente expulso. Voltou ao Brasil festejado pela massa rubro-negra como o vingador da Libertadores. Ficou no Flamengo até o ano seguinte apenas e depois viveu bom momento no Ceará. Mas fez sua fama mais com o punho do que com os pés.

4. Héverton rebaixou a Portuguesa só pisando no gramado

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Como vimos no caso de Anselmo, é possível que o lance mais notório de um jogador não envolva nem tocar na bola. o volante Héverton, de passagens pouco momentosas por Corinthians e Vitória, é um exemplo mais extremo disso. Quando defendia a Portuguesa, em 2013, mudou os rumos do Campeonato Brasileiro e do seu time apenas entrando em campo na última rodada. Vamos por partes. Duas semanas antes, ele havia tomado cartão vermelho após o apito final do jogo contra o Bahia por ofensas ao árbitro. Cumpriu suspensão automática na rodada seguinte, mas um julgamento no STJD condenou-o a duas partidas fora. O problema é que a decisão foi tomada na sexta-feira antes da rodada final do torneio e só foi publicada na segunda-feira posterior. Assim, quando a Portuguesa entrou em campo para seu último compromisso, contra o Grêmio, não tinha conhecimento de que Héverton não poderia jogar. O atleta, que começou no banco, entrou no segundo tempo. Com isso, destinou a Lusa a perder os pontos da partida, que a teriam salvo do rebaixamento. Seguiu-se uma controversa batalha judicial que fez de Héverton pivô de um caso de “tapetão” que o futebol brasileiro não presenciava havia anos. Constrangido, ele até quis se aposentar, mas acabou indo para o Paysandu, e depois para times de menor expressão. Novas informações surgiriam tempos depois, dando conta de que a diretoria da Portuguesa na época teria conhecimento da situação do jogador e escalou-o de propósito, supostamente por vantagens financeiras para os cartolas. Tudo ainda é nebuloso, e marcará permanentemente a carreira do volante.

3. Márcio Nunes quebrou Zico antes de uma Copa do Mundo

O lateral-direito Márcio Nunes teve uma carreira curta, quase toda dedicada ao Bangu. Defendeu o time na fase áurea dos anos 1980, e era titular do vice-campeonato brasileiro de 1985. E é tido como um dos maiores estraga-prazeres do futebol brasileiro. No Carioca de 85, em partida contra o Flamengo, o defensor entrou em uma dividida com Zico, recém-retornado da Udinese para os braços da torcida rubro-negra. A bola ficou em segundo plano. Márcio Nunes saltou com o corpo completamente na horizontal, as duas pernas espetadas para frente e as travas das chuteiras em exposição, atingindo o adversário em cheio. Zico não levantou mais, e o banguense foi expulso. O saldo da entrada violenta para o craque do Flamengo foram dois joelhos e um tornozelo torcidos, uma fíbula contundida, escoriações na perna, três cirurgias e meses fora de campo. O pior é que não foi só a torcida do Flamengo que fez de Márcio Nunes inimigo juramentado. A gravidade dos ferimentos pôs em dúvida a participação de Zico no Copa do Mundo de 1986, o que abalou todos os torcedores brasileiros. De fato, o camisa 10 da seleção não foi ao México 100%, e o país creditou a perda de mais uma Copa ao defensor do Bangu. Márcio Nunes recebeu o perdão de Zico, mas o lance o abalou profundamente. Ah, e lembra que eu disse que a carreira dele foi curta? Foi porque aos 25 anos sofreu entrada semelhante, rompeu os ligamentos de um joelho e teve que se aposentar forçadamente.

2. Adriano Gabiru derrubou o Barcelona

O caso de Gabiru é bastante peculiar entre os outros nomes aqui elencados. Até aqui, estivemos falando de jogadores que foram alçados a um status inédito por seus lances famosos. O meia alagoano, porém, já tinha alguma notabilidade antes do seu momento de glória – foi titular do Atlético Paranaense campeão brasileiro de 2001, virou ídolo da torcida e chegou a ser convocado para a seleção. Porém, uma vez escrito na história o acontecimento que vamos relembrar, tudo mais ficou desimportante. Hoje, ninguém consegue falar de Adriano Gabiru sem lembrar, quase que exclusivamente, daquele gol. E que gol foi. Em 2006, o Internacional conquistou a América e se qualificou para disputar o Mundial de Clubes, onde também estaria o poderoso Barcelona de Ronaldinho (que vinha de dois prêmio de melhor do mundo). O elenco colorado estava bem provido de opções ofensivas: Fernandão, Iarley, Alex, os garotos Alexandre Pato e Luiz Adriano. Acuados em campo contra os favoritos catalães, nenhum deles incomodou muito. Já passava da metade do segundo tempo quando Gabiru entrou. Logo ele, que vinha desagradando a torcida ao longo de todo o ano. Minutos depois, um rápido contra-ataque conduzido por Iarley achou o meia disparado pela esquerda. Ele bateu colocado e achou as redes. Virou instantaneamente herói, reconciliado com os torcedores. Afinal, foram duas alegrias: levar o título mundial inédito em cima de um grande adversário e frustrar Ronaldinho, cria do arquirrival Grêmio. O Gabiru jogador deixou o Inter pouco depois, circulou entre clubes médios e perdeu espaço no cenário principal. O Gabiru ídolo permanece no Beira-Rio e na memória coletiva.

1. Cocada fez o gol do Cocada

O primeiro lugar desta lista fica com o jogador que serviu de inspiração para ela. O Vasco conquistou em 1988 um bicampeonato carioca que não conseguia alcançar havia 38 anos, e sempre que esse título é mencionado fala-se que foi o jogo do “gol do Cocada”. O jogador é tão amarrado ao lance que acabou por batizá-lo, e se você conseguir me dizer qualquer outra coisa sobre Cocada, ganha um doce (uma cocada, quem sabe). Irmão menos famoso do atacante Müller, Cocada foi lateral-direito e reserva profissional. Teve uma passagem esquecível (e esquecida) pelo Flamengo, e depois seguiu para o Vasco. A decisão do Carioca de 88 foi entre os dois times. O jogo ia se encaminhando para terminar em 0-0, placar que já garantia o bi cruzmaltino, quando Cocada substituiu o ponta Vivinho. Aos 44 do segundo tempo, depois de uma roubada de bola, o lateral foi lançado em velocidade, cruzou o campo de ataque e disparou uma bomba do bico da grande área, acertando o ângulo. Gol que sacramentava o triunfo. Na comemoração, Cocada correu para o banco do Flamengo e provocou o técnico Carlinhos, que o dispensara do clube rubro-negro anos antes. Acabou expulso e iniciou uma briga generalizada entre os dois times. Ao fim da peleja, o jogador de uma gaiata entrevista em que “previu” que entraria para os anais por seus feitos naquele dia. Na mosca. Então ficamos assim: Cocada entrou no radar do futebol brasileiro numa noite de junho de 1988. Fez um gol histórico. Tomou um cartão vermelho. Provocou um pega-pra-capar. Foi campeão. Tudo em quatro minutos. E nunca mais foi visto. Fim.

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