Os 11 maiores jogadores da Alemanha

Atual campeã do mundo, anfitriã de um campeonato que é sucesso absoluto de público e crítica, celeiro de craques em todas as décadas, dona de uma história coroada e honrosa, detentora de uma das camisas mais pesadas do planeta bola. A Alemanha também é um país do futebol, desde muito antes de impôr 7 a 1 sobre os inventores do termo.

É hora de celebrar os principais nomes que construíram essa trajetória. Muitos outros aqui caberiam, mas a graça está justamente em se esforçar para escolher. Os meus eleitos são estes. Sem mais delongas, os maiores jogadores da história do futebol alemão.

Miroslav-Klose-comemora-seu-16º-gol-na-história-das-Copas-do-Mundo-nas-semifinais-do-Mundial-2014-contra-o-Brasil11. Miroslav Klose

O centroavante nascido na Polônia jamais foi um primor de técnica e habilidade. Mas esta lista não honra os MELHORES, e sim os MAIORES. Klose é o jogador com mais gols na história das Copas do Mundo, e ajudou a Alemanha a estar quatro vezes seguidas entre as três primeiras colocadas da competição. Isso garante a ele um lugar aqui.

Klose se destacou pelo Kaiserslautern no início dos anos 2000, e permaneceu no modesto clube até 2004. Sua presença na grande área e o talento no cabeceio sempre foram seus cartões de visita. Em 2006, jogando pelo Werder Bremen, foi artilheiro da Bundesliga e levou o tradicional prêmio Jogador do Ano no país. Pelo Bayern de Munique foi bicampeão nacional e vice europeu, e venceu uma Copa Itália com a Lazio. A carreira em times não é de arregalar os olhos. Mas foi defendendo a seleção alemã, especialmente em Copas do Mundo, que Klose se tornou gigante.

Aos 23 anos foi titular já em sua primeira Copa, em 2002, e marcou cinco gols na campanha do vice-campeonato. Na Copa de 2006, em solo germânico, fez outros cinco e foi artilheiro isolado do torneio. Com mais quatro em 2010 igualou o compatriota Gerd Müller em total de gols feitos em mundiais, e se tornou o único jogador da história a marcar pelo menos quatro vezes em três Copas diferentes. A glória definitiva veio na Copa de 2014, a única em que não foi titular: mais dois tentos para tornar-se o recordista de redes balançadas em mundiais (superando os 15 de Ronaldo) e, na quarta tentativa, o título. O 16º gol foi marcado em cima do Brasil naquele joguinho, lembra?

Aposentado do futebol internacional desde a conquista da Copa, Klose é o maior artilheiro da história da Nationalelf – 71 gols – e segundo jogador alemão que mais atuou pela seleção. Além da marca de gols, detém outros 13 recordes individuais de Copas do Mundo. Nada mal para um caneludo.

10. Matthias Sammera82c51de163334e5d89da07339c474dd

O último grande jogador da Alemanha Oriental conseguiu também marcar sua história no futebol da Alemanha reunificada. O meio-campista Sammer nasceu em Dresden, uma das principais cidades ao leste do Muro de Berlim, e foi um dos maiores ídolos do grande time local, o Dynamo Dresden. Lá venceu dois campeonatos nacionais e uma copa. Pela seleção oriental, venceu a Eurocopa Sub-18 de 1986 e, quatro anos depois, capitaneou o grupo na última partida da história da Alemanha Oriental. Marcou os dois gols na vitória sobre a Bélgica.

Pouco antes da reunificação da Alemanha, Sammer já havia se transferido para o outro lado da muralha, para atuar pelo Stuttgart. Com a junção dos países, passou a defender a seleção recém-nascida, e foi presença certa nas convocações ao longo da década de 1990. Sua posição de origem era o meio-campo, mas eventualmente fez a transição para o papel de líbero armador, onde podia exercer sua técnica e visão de jogo apuradas.

Nessa nova posição teve seus melhores dias vestindo a camisa do Borussia Dortmund, clube no qual desembarcou em 1993, após uma temporada decepcionante no futebol italiano. Foi o principal jogador do time aurinegro que conquistou o bicampeonato na Bundesliga em 1995 e 1996 e a Liga dos Campeões de 1997. Por dois anos seguidos, em 1996 e 1997, Sammer foi eleito Jogador do Ano da Alemanha. Foi também o grande craque da Eurocopa de 1996, e principal responsável pelo título da Alemanha na competição. Também em 1996 venceu a prestigiosa Bola de Ouro de melhor jogador do futebol europeu.

Obrigado a aposentar-se pouco depois desse período de glórias, devido a uma lesão no joelho, Sammer virou técnico. Eventualmente retornou ao Borussia Dortmund para conquistar mais títulos, consolidando seu status de maior ídolo da história do clube.

9. Paul Breitner5332

Famoso pela chamativa combinação entre cabelo black power, costeletas e bigodão, Breitner foi mais do que um rostinho bonito nos palcos do futebol. Jogou como lateral-esquerdo na primeira perto da carreira, e foi o melhor na posição que a Alemanha já teve. Incisivo e muito técnico, migrou para o meio-campo e também teve sucesso.

Breitner teve um início de carreira primoroso. Titular do Bayern de Munique desde sua chegada ao time profissional, também não demorou a tomar conta da posição na seleção alemã, e com 21 anos foi titular na conquista da Eurocopa de 1972. Com o clube, viveu o período de dominância do início dos anos 1970, vencendo um tricampeonato nacional e uma Copa dos Campeões Europeus (precursora da Champions). Coroou os bons anos com o título da Copa do Mundo de 1974, na qual fez três gols. A vitória alemã na final teve contribuição direta do lateral. Depois de a Holanda sair na frente, foi Breitner que empatou, cobrando pênalti. A Alemanha viraria o jogo para sagrar-se campeã.

Depois da conquista, porém, Breitner desligou-se do futebol alemão. Foi jogar no Real Madrid e separou-se da seleção, entrando numa precoce aposentadoria internacional motivada por fatores extracampo: o jogador sempre foi muito politizado, dono de opiniões fortes, e acabou por cultivar inimizades com colegas e superiores. Os dias merengues foram prolíficos, rendendo dois Campeonatos Espanhois e uma Copa do Rei. O retorno à terra pátria foi através do pequeno Eintracht Braunsweig, onde ficou apenas uma temporada e concretizou a virtuosa mudança de função em campo.

Breitner retornou ao Bayern e imediatamente se reencontrou com os títulos. Conquistou outro bi da Bundesliga e bateu na trave em uma segunda Copa dos Campeões. No novo papel tornou-se mais artilheiro, e fazia uma combinação fatal com seu companheiro de ataque e amigo pessoal Rummenigge. Voltou também à seleção, já às vésperas da Copa de 1982, e foi ao torneio, ajudando a Alemanha a voltar à decisão. O título não veio, mas, ao fazer o gol de consolação do time contra a campeã Itália, o jogador tornou-se um dos únicos da história a marcar em duas finais mundiais diferentes. Em sua companhia estão Vavá, Pelé e Zidane.

Breitner pendurou as chuteiras cedo, aos 31 anos. Foi Jogador do Ano em 1981.

oliver-kahn-und-verena-kerth_gallery_large_landscape8. Oliver Kahn

Pode ser difícil de acreditar mas, em meio a quatro títulos e muitas outras campanhas de destaque, a Alemanha só fez o melhor jogador (oficial, pelo menos) da Copa do Mundo uma vez. Foi em 2002, quando o mal-encarado goleiro Kahn fez um torneio quase perfeito. As falhas da decisão estão bem vivas na história e na memória dos brasileiros, é verdade, mas tudo que veio antes disso faz do arqueiro um colosso – o melhor de seu país na posição, na opinião deste blogueiro, batendo por pouco o histórico Sepp Maier.

Formado pelo Karlsruher, clube que ajudou a levar a uma semifinal de Copa da Uefa, Kahn é identificado mesmo com o Bayern de Munique, cuja meta guardou de 1994 até o fim da carreira. Aterrissou na Bavária em uma época de vacas magras, tomou conta da titularidade e foi fundamental na reestruturação do Bayern, que voltou a ser uma potência nacional e internacional. Tudo começou com o título da Copa da Uefa de 1996, passou por um tricampeonato da Bundesliga e culminou com títulos da Liga dos Campeões e da Copa Intercontinental (o Mundial de Clubes ainda não existia) em 2001.

Ao longo desse período, Kahn virou capitão da equpe e foi escolhido seis vezes seguidas como melhor goleiro do país, quatro como melhor do continente e, em 2000 e 2001, Jogador do Ano da Alemanha, além de concorrer repetidamente à Bola de Ouro de melhor futebolista europeu. Na final da Champions de 2001, contra o Valencia, pegou três pênaltis nas cobranças decisivas e foi votado homem do jogo. Se havia um jogador dominante no futebol alemão na virada do milênio, esse jogador era o Titan do Bayern.

Faltava a esse currículo o sucesso pela seleção. O goleiro foi a duas Copas do Mundo e uma Eurocopa como reserva, e foi ganhar a posição já perto dos 30 anos. Logo virou também capitão. A Copa de 2002 foi sua apoteose. Sofreu apenas um gol até a decisão, à qual a mediana seleção alemã provavelmente não chegaria se não fosse por ele. Ao levar o prêmio de craque do torneio foi não só o primeiro germânico a conseguir o feito, mas também o primeiro arqueiro. A final foi uma infelicidade, mas as boas atuações prévias ficaram marcadas. Kahn ainda foi à Copa de 2006, com a expectativa de liderar o time nacional em casa, mas foi preterido – surpreendentemente até – por Jens Lehmann. Em vez de irritar-se, fez-se de esteio do colega e solidificou o status de ídolo nacional.

Após a Copa, Kahn deu adeus à seleção. Pouco depois, durante uma turnê asiática do Bayern de Munique, despediu-se também dos gramados.

jrgenklinsmann1990wc17. Jürgen Klinsmann

Foi o mais internacional dos futebolistas alemães, tendo atuado em clubes de quatro países – além da Alemanha, claro. O entusiástico e eficiente atacante acumulou mais temporadas no Stuttgart, ainda no início da carreira, mas tem identificação com praticamente todos os clubes que defendeu. Carismático, bem-humorado e dono de muita entrega em campo, angariou o carinho das torcidas de Internazionale, Monaco, Tottenham, Bayern de Munique e do minúsculo Orange County Blue Star (Estados Unidos).

Após se destacar no Stuttgart na segunda metade dos anos 1980, sendo uma vez artilheiro da Bundesliga e eleito Jogador do Ano em 1988 (mesmo ano em que conquistou medalha de bronze nas Olimpíadas de Seul), transferiu-se para a Inter de Milão. Lá venceu uma Copa da Uefa, torneio no qual batera na trave alguns anos antes. Enquanto isso, fazia sucesso pela seleção: formou uma forte dupla de ataque com Rudi Völler, foi vice da Eurocopa de 1992 e campeão da Copa do Mundo de 1990, sempre marcando gols importantes.

Teve boa passagem pelo Monaco e ajudou o Bayern a conquistar a Copa da Uefa de 1996, sendo artilheiro da competição, e a voltar a vencer a Bundesliga, em 1997. No Tottenham foi ídolo, apesar de jogar lá por apenas uma temporada e meia: foi o craque da Premier League em 1995 e reforçou o clube na reta final do campeonato de 1998, por empréstimo, quando foi crucial para salvar os Spurs do rebaixamento. No mesmo ano, que seria o último de sua carreira, venceu pela segunda vez o prêmio de Jogador do Ano da Alemanha – que não se restringe aos atletas que atuam no próprio país.

Klinsmann também jogou as Copas de 1994 e 1998, e foi o capitão alemão na conquista da Eurocopa de 1996. Depois da aposentadoria oficial foi morar nos Estados Unidos e teve uma breve volta aos gramados numa história rocambolesca: reforçou o Blue Star, time californiano da quarta divisão, sob um pseudônimo, apenas por diversão. Apenas vários anos depois confirmou o caso, que era tratado como uma lenda nos círculos da bola.

O atacante trocou as chuteiras pela prancheta. Virou técnico da seleção da Alemanha logo após a Eurocopa de 2004, que foi um fiasco, e promoveu uma renovação do elenco em sua gestão, dando as primeiras chances a vários atletas que eventualmente protagonizariam o título mundial de 2014. Conseguiu calar críticos e empolgar a torcida nacional na campanha da Copa do Mundo de 2006, disputada em casa, mesmo caindo na semifinal. Também treinou o Bayern e a seleção dos Estados Unidos.

6. Philipp Lahm2014-07-13T222812Z_992011801_TB3EA7D1QIJO4_RTRMADP_3_SOCCER-WORLD-M64-GER-ARG

O primeiro dos capitães de títulos da Copa do Mundo da Alemanha nesta lista é o versátil Lahm, nominalmente lateral-direito mas capaz de atuar também na esquerda e no meio de campo. Usou a braçadeira no mundial de 2014 e foi o terceiro alemão a levantar a Taça Fifa. Foi também o capitão do Bayern de Munique na conquista da única tríplice coroa da história do futebol germânico, em 2013.

Nascido em Munique e criado no Bayern, o jogador passou duas temporadas emprestado ao Stuttgart, onde aprendeu a atuar na lateral canhota. De volta ao clube de origem, Lahm domina a ala direita desde 2005, quando retornou e virou titular. Já era figura fácil na Nationalelf, inclusive como líder. Havia capitaneado as seleções de base e, como suplente, participara da Eurocopa de 2004.

Dos cinco torneios internacionais que disputou como titular (Copas de 2006, 2010 e 2014 e Eurocopas de 2008 e 2012), foi votado o melhor de sua posição em todos – independentemente de qual das laterais estivesse preenchendo. Por cinco vezes foi também o o melhor lateral do continente. Virou capitão nacional a partir do mundial de 2010, graças à contusão que impossibilitou Michael Ballack de participar do torneio, e só foi largá-la depois da Copa de 2014, quando anunciou voluntariamente sua aposentadoria internacional apesar de ter apenas 30 anos. A chance de sair assim tão por cima, afinal de contas, não é de se jogar fora.

Além do papel de protagonista no tetracampeonato mundial da Alemanha, Lahm foi central também à brilhante temporada do Bayern em 2012-13. O clube bávaro conquistou os três títulos mais importantes possíveis: a Bundesliga, a Copa da Alemanha e a Liga dos Campeões. Completou assim a tríplice coroa, feito único no futebol alemão e apenas a oitava ocorrência no futebol europeu. As primeiras mãos a tocar cada um dos troféus naquela jornada foram as do capitão Lahm. Detalhe que ele só foi assumir o posto em 2011, depois ter alcançado a mesma responsabilidade pela seleção.

Mais recentemente o jogador tem acumulado atuações como volante, aproveitando toda a sua qualidade com a bola nos pés para abrilhantar a saída de jogo do Bayern.

81RummeniggeBALLON5. Karl-Heinz Rummenigge

A Alemanha é conhecida por produzir jogadores físicos, rápidos, fortes e determinados. Rummenigge era de outra escola. Extremamente técnico, habilidoso, elegante, driblador, completo em todos os aspectos do ataque. Finalizava e armava com igual talento. Foi o melhor jogador alemão da entressafra entre os títulos mundiais de 1974 e 1990, e o grande craque da seleção e do país nos anos 1980.

King Kalle se projetou jogando, que surpresa, pelo Bayern de Munique, que já foi mencionado dúzias de vezes nesta lista. De imediato assumiu um papel de destaque na equipe, que era a base da seleção alemã. No meio craques do nível de Uli Hoeness, Sepp Maier, Gerd Müller e Franz Beckenbauer, o garoto Rummenigge, 20 anos recém completados, achou seu espaço. Venceu duas Copas dos Campeões e a Copa Intercontinental de 1976, sobre o Cruzeiro.

Rumo ao fim da década, o Bayern se renovou. Os ídolos foram embora, aposentados ou transferidos. Rummenigge virou o dono do time, e fez jus. Foi artilheiro da Bundesliga três vezes, bicampeão nacional e venceu a Bola de Ouro duas vezes seguidas, em 1980 e 1981, como melhor jogador do continente. Teve a valiosa ajuda do amigo Breitner, que retornou ao Bayern para compor a dupla de meio-campo que ficou conhecida como Breitnigge. Só faltou ao par um título europeu, que quase veio em 1982: pararam na final, diante do Aston Villa.

O meia-atacante foi fundamental à seleção alemã, que defendeu por dez anos, e o ponto alto foi a conquista da Eurocopa de 1980. Dois anos depois foi um dos destaques da Copa do Mundo da Espanha, da qual foi vice-artilheiro com cinco gols. A Nationalelf cairia na final, perdendo para a Itália. O mesmo destino esperava Rummenigge em 1986, dessa vez contra a Argentina – e ele marcou na final. Jogou aquele torneio baleado e aposentou-se do cenário internacional logo depois, sem conseguir levantar a Taça Fifa. Também havia jogado o mundial de 1978.

Em 1984, Rummenigge descolou uma transferência milionária para a Internazionale. Com o dinheiro, o Bayern montou sua próxima geração de ídolos. Depois da aposentadoria continuou ajudando o clube bávaro: virou cartola.

4. Fritz Walterbc8b38caf3d497eb0d8357f195aac8af

Rápido, pense em tudo que a Alemanha significa e apresenta no futebol internacional. Aplicação, vontade, consistência, seriedade, competência, resiliência. Tudo isso condensado é a campanha do primeiro título mundial germânico, na Copa de 1954, que começou com a humildade dos coadjuvantes e culminou no destronamento dos favoritíssimos húngaros. Aquela seleção campeã contra todas as probabilidades teve como líder e símbolo maior seu capitão, o meia-atacante Fritz Walter. Um craque e um sobrevivente.

Por toda sua carreira Walter defendeu o Kaiserslautern, time de sua cidade natal. Foi protagonista do futebol do país desde as primeiras botinadas, e fez uma estreia em grande estilo na seleção nacional, assinando um hat-trick. Porém a trajetória teve que ser interrompida pela Segunda Guerra Mundial. Convocado pelo exército para lutar, o atleta, que não compartilhava das ideologias nazistas, trocou as chuteiras pelos coturnos. Foi capturado pelos soviéticos e enviado para um campo de prisioneiros na Romênia, onde contraiu malária. Escapou de ser eventualmente enviado para um gulag, onde certamente morreria, graças à intervenção de um guarda húngaro, que já o tinha visto jogar e conseguiu convencer os colegas a não levá-lo.

Libertado e de volta à vida civil depois do conflito, Walter encontrou o futebol alemão em frangalhos. Ajudou o Kaiserslautern a ser campeão nacional duas vezes (os primeiros títulos do clube, e os únicos até a década de 1990) e vice outras três. Defender o time era tudo que podia fazer, uma vez que a seleção alemã estava banida de competir internacionalmente. Quando a proibição foi revogada, Walter tornou-se o capitão da Nationalelf e liderou a classificação para a Copa do Mundo da Suíça, em 1954, que seria o reencontro do país que provocou a guerra com o mundo que ainda tentava se recuperar dela.

A Alemanha não constava entre as favoritas, e entrou no torneio de cabeça baixa, tentando humildemente reconquistar algum respeito. Ao longo da trajetória de seis jogos, Walter liderou impecavelmente o time, armando jogadas e motivando os companheiros. Fez três gols e brilhou na semifinal contra a Áustria, marcando duas vezes e dando duas assistências. A decisão foi contra a forte Hungria, invicta há 31 partidas. A improvável vitória por 3-2, de virada, entrou para a história como “O Milagre de Berna”, compõe o mito fundador do futebol alemão. E Walter virou o símbolo do triunfo que devolveu à Alemanha algum orgulho.

O jogador ainda atuaria pelo Kaiserslautern por mais cinco anos e jogaria a Copa de 1958, já não como capitão. Em 1956, no rescaldo da Revolução Húngara, que representou a submissão definitiva do país à União Soviética, Walter providenciou suporte logístico e financeiro para que a seleção nacional pudesse continuar jogando. Uma pequena retribuição, e um pedido de desculpas pela destruição do sonho da Copa, à nação do homem que possivelmente salvou sua vida na guerra.

Fritz Walter é um dos “capitães honorários” da seleção alemã, e dá nome ao estádio do Kaiserslautern. Também influenciou o vocabulário do país: até hoje, dias nublados e chuvosos na Alemanha são conhecidos como Fritz Walter Wetter (“clima de Fritz Walter”). Segundo consta, as complicações oriundas da malária faziam com que o jogador ficasse debilitado no calor, e tivesse suas melhores atuações em tempo ruim.

i_old_ger_matthaeus_920_th3. Lothar Matthäus

O interminável Matthäus, dono de uma carreira de duas décadas em alto nível, guarda a honra de ter sido o primeiro agraciado com o prêmio de Jogador do Ano da Fifa, em 1991. Até hoje é o único alemão com esse troféu na estante. O meio-campista e líbero é o recordista histórico de partidas em Copas do Mundo, com 25 ao longo de cinco edições, e também o jogador que mais atuou com a camisa da Alemanha – foram 150 aparições. Em meio a tantos feitos invejáveis, talvez o maior deles seja o de ter sido considerado por Diego Maradona o maior rival e competidor que o argentino já teve.

Matthäus surgiu como um foguete no Borussia Mönchengladbach e alcançou o vice da Copa da Uefa em 1980. Chegou à seleção antes dos 20 anos, Já disputando – e vencendo, mesmo como reserva – a Eurocopa do mesmo ano. Seria também vice da Copa do Mundo de 1982, e a partir daí seus dias de coadjuvante estavam acabados. Conquistou uma vaga no meio de campo da Nationalef, descolou uma transferência para o Bayern de Munique e partiu para voos maiores.

Com a equipe bávara, em duas passagens distintas, levantou sete Bundesligas, três copas nacionais e uma Copa da Uefa. Bateu na trave duas vezes na Liga dos Campeões, em 1987 contra o Porto (quando o torneio ainda se chamava Copa dos Campeões) e em 1999 contra o Manchester United, sempre sofrendo viradas nos minutos finais. Nunca ter erguido a principal taça do continente foi a grande frustração da carreira. Os períodos defendendo o Bayern foram interrompidos apenas por quatro temporadas que Matthäus passou na Internazionale, compondo um talentoso pelotão alemão com o atacante Klinsmann e o lateral Andreas Brehme. Na Itália, ganhou um scudetto, uma nova Copa da Uefa e protagonizou duelos memoráveis contra Maradona, que jogava pelo Napoli.

Matthäus também encontrou o gênio argentino em momentos decisivos de Copas do Mundo. Em 1986, já como destaque do time, foi designado para marcar El Pibe na decisão, mas Maradona estava impossível naquele mundial e levou a melhor. Quatro anos depois, no solo italiano que ambos conheciam tão bem, voltaram a se encontrar em uma decisão. Matthäus já era capitão da Alemanha, marcara quatro gols e se projetava como um dos melhores da competição. A vitória magra da seleção germânica deu a ele a chance de arrancar a Taça Fifa das mãos do rival. De quebra, ao fim do ano, foi eleito Jogador do Ano da Alemanha e levou a Bola de Ouro europeia. No ano seguinte, estreou a condecoração máxima da Fifa.

Mudando de posição ao longo da década para compensar o envelhecimento e manter o melhor uso de seus talentos, Matthäus virou volante e depois líbero. Capitaneou o time nacional novamente na Copa de 1994 e depois caiu em ostracismo devido à projeção de seu desafeto Berti Vogts para o cargo de treinador. Perdeu a braçadeira e acabou não convocado para a Eurocopa de 1996, que a Alemanha venceu. Mas retornou para a Copa de 1998, onde igualou o mexicano Antonio Carbajal ao disputar o quinto mundial e participou das partidas que o deram o recorde de participações no palco mundial.

O veteraníssimo craque manteve-se em atividade mesmo depois disso, e até mereceu pela segunda vez o título de Jogador do Ano alemão. Foi 1999, ano em que conduziu o Bayern de volta à final da Liga dos Campeões – mas perdeu para o Manchester com gols nos acréscimos, como já foi dito. Tinha, então, 38 anos. Disputou mais uma Eurocopa com a seleção, em 2000, que marcou sua despedida internacional. Ainda jogaria por alguns meses no MetroStars, dos Estados Unidos, e teria uma carreira esquecível como treinador. Já havia, porém, se firmado no panteão da Alemanha.

2. Gerd Müllerla-legende-vivante-gerd-muller-meilleur-buteur-de-nationalmannschaft-et-du-bayern-munich-vient-fermer-la-marche-avec-un-record-de-732-buts-d-ou-son-surnom-der-bomber_55303_wide

Alguns atletas do futebol não podem ser descritos como “jogadores”. Isso implicaria um envolvimento com diferentes habilidades e etapas do jogo, versatilidade que Gerd Müller não tinha. Ele era, simplesmente, um fazedor de gols. E é possível que ninguém tenha sido melhor nessa tarefa do que ele. Baixinho para a posição de centroavante (1.76m), compensava com velocidade, finalização impecável e um senso de colocação fora do comum.

A trajetória de bolas nas redes começou no minúsculo TSV Nördlingen, clube de sua cidade natal. Em apenas uma temporada lá, Müller marcou gols em uma média de mais de um por jogo, e chamou a atenção de outro time pequeno – o Bayern de Munique. Não se espante: naqueles tempos, em meados dos anos 1960, o Bayern não era muita coisa. Tudo mudaria em breve, muito graças à chegada de seu artilheiro do futuro. Ele desembarcou na Bavária em 1964 e já no primeiro ano ajudou o time a vencer a Liga Regional Sul e conseguir o acesso para a Bundesliga.

Na divisão principal da Alemanha, Müller fez a festa. Foi artilheiro de sete das quinze temporadas que disputou, e totalizou 365 gols – a melhor marca da história da Bundesliga. Só em 1971-72 foram 40, o recorde da liga em uma só temporada. Venceu o prêmio de Jogador do Ano em duas ocasiões, 1967 e 1969. Este segundo foi conquistado na temporada do primeiro título nacional do Bayern desde os anos 1930. Ao todo, o centroavante conquistou quatro com o time, além de quatro Copas da Alemanha. Também foi tricampeão da Copa dos Campeões, marcando em duas das decisões e sendo goleador máximo de duas das edições. No total, foi artilheiro de quatro torneios continentais. Na Copa Intercontinental de 1976, também fez um e levou a taça. Mora no coração de todos os torcedores do Bayern como um dos monstros sagrados da história do clube.

Pela seleção da Alemanha, Müller jogou comparativamente pouco. Foram menos de 70 partidas oficiais e apenas três torneios. A passagem, porém, foi muito bem aproveitada. Com 68 gols marcados, alcançou média de mais de um por jogo e estabeleceu um recorde que só seria quebrado depois de quatro décadas, por Klose – que jogou mais do que o dobro de vezes. Disputou  Eurocopa de 1972, a primeira que a Alemanha venceu. Dos cinco gols da seleção, quatro foram de Müller, artilheiro e melhor jogador da competição.

Seus dez gols na Copa do Mundo de 1970 são marca em uma única edição superada apenas pelos 13 do francês Just Fontaine, ainda em 1958. Desde então, ninguém mais. A atuação, que incluiu dois hat-tricks em quatro dias, o gol da vitória na quarta-de-final contra a Inglaterra e dois no apoteótico duelo de semifinal contra a Itália, rendeu-lhe a Bola de Ouro de melhor jogador europeu do ano. Com outros quatro gols no mundial de 1974 – que a Alemanha venceu, com gol decisivo dele na final – Müller somou 14 tentos em Copas, total que só seria superado mais de 30 anos depois, primeiro pelo brasileiro Ronaldo e depois pelo compatriota Klose. No entanto, Müller precisou de apenas dois torneios.

Os recordes não param por aí, e mesmo os que já foram derrubados levaram décadas para cair. O alemão manteve-se como maior artilheiro de competições europeias de clubes até ser superado pelo espanhol Raúl, em 2010, e segurou o posto de maior artilheiro de um só ano de calendário (de janeiro a dezembro) no futebol europeu até aparecer um certo Lionel Messi, que tirou-lhe a glória em 2012. Um feito que ainda resiste é o de maior artilheiro internacional do futebol mundial (contando gols por seleção e clubes em partidas internacionais), mas que fatalmente será tomado por Messi e/ou Cristiano Ronaldo – dois seres extraterrestres, admita-se.

A dificuldade que jogadores sobrenaturais encontram para ultrapassar os números de Gerd Müller, mesmo tantos anos depois e em outro tipo de futebol, são testemunho indiscutível de que Der Bomber não tinha igual no palco da grande área.

1. Franz BecFranz Beckenbauerkenbauer

Não é à toa que ele é o Kaiser. Vitorioso a nível nacional e internacional, com time e seleção, como jogador e como técnico, Franz Beckenbauer e futebol alemão são sinônimos inseparáveis. É um dos poucos defensores da história do esporte, senão o único, a ser rotineiramente incluído entre os melhores de todos os tempos. Técnica e taticamente brilhante, revolucionou sua posição. Modelo de líder, capitaneou e comandou esquadrões rumo a conquistas históricas. Tem a salas de troféus mais abarrotada do que muitos times. Não é à toa que ele é o Kaiser.

Beckenbauer foi produto da base do Bayern de Munique num tempo em que o clube bávaro disputava divisões inferiores e não era uma força do futebol alemão. Em sua primeira temporada como profissional, porém, ajudou na conquista do título da Liga Regional Sul e da promoção para a Bundesliga. Fazia parte de um grupo de jogadores jovens que, juntos, leveriam o Bayern à estratosfera. Além dele, o centroavante Gerd Müller, o goleiro Sepp Maier, o zagueiro Hans-Georg Schwarzenbeck e o meia Franz Roth eram os destaques do futuro.

O time venceu a Copa da Alemanha em seu primeiro ano como membro da elite, e a partir daí as coisas só melhoraram. Beckenbauer recuou para a posição de líbero, em poucos anos assumiu a braçadeira de capitão e passou a acumular títulos: outras três Copas, quatro Bundesligas, três Copas dos Campeões consecutivas e uma Copa Intercontinental. O clube não teria passado de figurante a dono do mundo sem a colaboração de seu principal líder em campo – e também referência técnica.

Isso porque, apesar de jogar como zagueiro e líbero, Beckenbauer tinha muita qualidade e finesse com a bola nos pés. Quando jovem, atuava no ataque, e depois passou para o meio de campo. Tinha capacidade de fazer a saída de bola ou mesmo avançar para a criação de jogadas. Tinha também a consciência tática para fazer a troca de posições e organizar a equipe toda em campo. Além de tudo, era um primoroso defensor.

Pela seleção da Alemanha, o Kaiser projetou-se para o planeta. A Fifa elegeu-o para os “times dos sonhos” das Copas do Mundo e do século XX. Em sua primeira Copa, em 1966, o ainda jovem líbero foi terceiro artilheiro, com 4 gols, e quase derrubou a anfitriã Inglaterra na final. Em 1970 Beckenbauer protagonizou uma das mais memoráveis cenas do futebol mundial na semifinal contra a Itália: quebrou a clavícula e fez questão de permanecer em campo, braço em tipoia, já que o time não podia mais fazer substituições. A disputa foi perdida na prorrogação, mas ele não comprometeu. Ficou de novo entre os melhores do torneio.

A partir de 1972 Beckenbauer tornou-se o capitão da Nationalelf, e nessa condição ergueu a taça da Eurocopa de 1972, o primeira conquista alemã da competição. Dois anos depois, na Copa do Mundo realizada em sua casa, levantou mais um caneco. Foi o primeiro capitão a erguer a Taça Fifa, feita especialmente para aquela edição do mundial. Pela primeira vez uma seleção campeã europeia conquistava o mundo, e o Kaiser estava no centro dos acontecimentos em ambas.

Ainda falta falar do vice-campeonato da Eurocopa de 1976, da Bundesliga conquistada jogando pelo Hamburgo e da passagem pelo New York Cosmos de Pelé, que rendeu três títulos. Falta falar das duas Bolas de Ouro, recorde para um zagueiro, e dos quatro prêmios de Jogador do Ano da Alemanha, recorde absoluto. Falta falar da carreira como técnico, que teve um título alemão (Bayern), um francês (Olympique de Marselha), uma Copa da Uefa (Bayern) e uma Copa do Mundo (Alemanha, claro). Falta falar do papel fundamental que Beckenbauer teve para fazer da Alemanha novamente anfitriã de uma Copa do Mundo. Ufa.

Intra e extracampo, um dos maiores de todos os tempos. Na Alemanha, maior dos maiores. Não é à toa que ele é o Kaiser.

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