Os 11 melhores momentos de Ricardo Teixeira na piauí

Em 2011, quando escrevi originalmente esta lista, Ricardo Teixeira estava no auge de seus poderes e de sua arrogância. Havia sido bem-sucedido em trazer a Copa do Mundo para o Brasil, fazia o governo federal dançar miudinho para organizar o evento do jeito que ele queria e estava seriamente cotado para a futura sucessão de Joseph Blatter na presidência da FIFA. Sentindo-se invencível, o imperador da CBF abriu a guarda e permitiu que a revista piauí publicasse um delicioso perfil que entregava toda a sua prepotência e empáfia. Comprovando que quanto maior o salto maior a queda, dali para frente a carreira de Ricardo Teixeira foi morro abaixo, culminando com sua renúncia antes da Copa que, ele imaginava, seria sua apoteose. Gosto de acreditar que a reportagem teve papel importante nisso. E que minha lista é, de certa forma, um registro histórico daquele momento.

A esta altura todo mundo já sabe, e muitos já leram. A edição de julho da revista piauí (é com minúscula mesmo) traz um extenso perfil de Ricardo Teixeira escrito por Daniela Pinheiro, que passou cerca de dez dias na desagradável companhia do imperador da CBF. O texto, muito bem escrito, é chocante em seu conteúdo por expôr a falta de vergonha na cara e consideração pela sociedade que caracterizam Teixeira. As frases embasbacantes reproduzidas pela jornalista (todas elas confirmadas pela CBF, diga-se) estão por toda a internet. Li a reportagem e selecionei as 11 mais marcantes, na minha opinião, para comentar.

Antes de prosseguir para a lista, uma observação. Eu quero estar vivo e bem atento no dia em que Ricardo Teixeira morrer. Quero saborear. Não que eu esteja desejando a morte dele. Mas um dia ele vai morrer, é óbvio. E também não desejo a ele um fim doloroso, cruel, terrível, enfim, que seria condizente com suas ações enquanto vivo. Por mim ele pode morrer dormindo, sem dor, cercado pela família – e pela famiglia – na maior paz. Só digo que, nesse dia, quero aproveitar cada segundo do fato, quero me deleitar com a notícia.

Enfim. A lista.

11. “Só jornalista fala mal de mim. Olha como a imprensa brasileira é escrota! A imprensa brasileira é muito vagabunda”

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Não existe sequer uma pessoa pública com culpa no cartório que não reclame da imprensa. Ricardo Teixeira não seria diferente, mas vai além e xinga-a abertamente, para uma repórter, sabendo que vai tudo parar numa revista. Imagino que, em geral, quem não gosta muito de jornalistas só empregaria esse palavreado nos bastidores, de forma velada. Teixeira, porém, não se preocupa nadinha com isso. Ele sabe que pode falar o que quiser e fazer o que quiser. Segundo ele, e imprensa é “escrota” e “vagabunda” porque fala mal dele, e diz que só a imprensa faz isso. Calculo que ele não deve sair na rua (no Brasil, porque é habitué nas calçadas da Suíça) há uns dez anos para acreditar que é só a imprensa brasileira que o despreza – a parte séria dela, pelo menos.

10. “O neguinho do Harlem olha o carrão do branco e fala: ‘Quero um igual’. O negro não quer que o branco se foda e perca o carro. Mas no Brasil não é assim. É essa coisa de quinta categoria”

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Uma vez Tom Jobim disse que “sucesso no Brasil é ofensa pessoal”, querendo dizer que nosso país ainda não aprendeu o significado de meritocracia. Ricardo Teixeira tentou parafrasear o brilhante músico e não só passou longe da elegância de Jobim como também banhou a frase em um racismo asqueroso. Certamente imaginava-se o “branco” dirigindo seu carrão através de uma multidão de “neguinhos” reverentes. É uma metáfora interessante. O “carrão” seria a CBF, que é mesmo muito sua, o “Harlem” seria todo o Brasil e os “neguinhos” seríamos todos nós, que temos que prestar homenagem a Ricardo Teixeira, em vez de desejarmos sua imediata expulsão do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo e da CBF.

9. “Não vai ter isso, está tudo sob controle”

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Esta frase refere-se a um momento em que Teixeira procurou tranquilizar um representante da empresa que negocia pacotes de hospedagem para a Copa no Brasil, que estava preocupado com possíveis perguntas sobre preços de hotéis em uma entrevista do presidente da CBF com a Globo. Em resposta, Teixeira mandou isso aí. Em outras palavras, “tenho a Globo na rédea curta”. Reclamações? Críticas? Investigações? Verdade? Nada temam, empresários que pretendem fazer a festa no mundial de 2014, Ricardo Teixeira não vai deixar que essas coisas atrapalhem os negócios. Vale observar aqui que a Globo não é censurada: ela concorda com todas as restrições, por conveniência. Esta frase indica um cenário de indignidades em que a Vênus Platinada divide a responsabilidade, mas não deixa de ser indicativo da postura de dono do mundo de Teixeira.

8. “Com dinheiro, se faz tudo”

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O presidente da CBF pronunciou estas palavras à repórter para explicar os atrasos nas obras dos estádios da Copa. Ele diz que está tudo dentro do prazo e que tudo será entregue a tempo, graças ao poder da grana. De futebol Ricardo Teixeira não entende chongas, tenho certeza, mas em bufunfa é um especialista como poucos. A frase significa que qualquer obstáculo na execução dos planos pode ser transposto com uma injeção de dinheiro, só que esqueceu de dizer que o dinheiro não é dele, é nosso. Os estádios serão pagos, na absurda e estrondosa maioria, com verbas públicas. Mais correto seria Teixeira dizer que “Com o dinheiro do Brasil, eu faço tudo”. Talvez coubessem algumas perguntinhas em resposta à máxima digna do filme Wall Street: presidente, com dinheiro se faz inclusive um dirigente esportivo mudar de voto em eleição da FIFA e em escolha de sede de Copa do Mundo?

7. “Só fico preocupado quando sair no Jornal Nacional”

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Novamente o desprezo pela imprensa em geral. Ricardo Teixeira é bombardeado de todos os lados por acusações de corrupção, desvio de dinheiro, recebimento de propina e negócios escusos de forma geral. Para ele, é tudo insignificante. Coisa da “mesma patota”, explica em outro momento: UOL, Folha, Lance, ESPN. Veículos sem audiência, diz ele, sem leitores, ouvintes ou espectadores. Só interessa a Globo e seu principal veículo. É um agrado à parceira, claro, como faz um dono com seu cachorrinho de estimação. Mas, assim como o JN é o maior telejornal do Brasil, a Folha é o maior jornal impresso, o Lance é o maior diário esportivo, o UOL e a ESPN estão entre os maiores em suas áreas de atuação. Os adversários são sim, grandes. Mas ele sabe que não é uma questão de tamanho. Além disso, ele sabe que as pessoas que lhe interessam não dão bola para as notícias desfavoráveis, onde quer que saiam. É uma questão de poder. Ver-se acuado no JN significaria perder o comando sobre a Globo. É isso que preocupa, não uma imagem suja – ora, se ele já conviveu tanto tempo com ela…

6. “O feio é perder, minha querida. Quando ganha, acabou”

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Em suma, os fins justificam os meios. Esse é o lema preferido de muitos tipos lamentáveis de pessoas: os canalhas, os intolerantes, os populistas, os protoditadores… Teixeira é tudo isso junto. A frase foi dita à jornalista quando ela perguntou sobre a eleição da FIFA que manteve Joseph Blatter no cargo e o porquê de, uma semana depois dos atribulados incidentes que marcaram o evento, ninguém mais tocar no assunto. Percebe-se, então, que Teixeira está defendendo o aliado e chefe. A vitória apaga tudo de ruim, portanto. Lembremos que este é o homem que comanda a preparação de uma Copa do Mundo zilionária, repleta de manobras políticas e problemas administrativos. Para ele, o importante, no final, é a festa. Se for bonita, e, ainda, se o Brasil ganhar, danem-se as fortunas arrancadas da saúde, da educação, do saneamento básico e enterradas em estádios faraônicos e nos bolsos de alguns engravatados.

5. “Ai, pai! Não me belisca!”

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Esta frase foi dita pela filha de Ricardo Teixeira, Antônia, de 11 anos, durante um almoço. A cena: Teixeira discursava para a jornalista, pomposamente, sobre sua irrevogável preferência por Joseph Blatter no pleito da FIFA. A pequena Antônia, confusa, exercitou a doce inconveniência de todas as crianças e perguntou, em voz alta “Ué, mas você não quer o Bin Hammam?”, em referência ao oponente de Blatter, Mohamed Bin Hammam. O papai foi rápido e tascou na menina um beliscão por baixo da mesa, pretendendo punir a filha longe das vistas da repórter. Novamente Antônia botou a boca no mundo. Lá atrás vimos como Teixeira valoriza o sucesso individual. Ele não parece pensar o mesmo dos enganos: é sempre culpa dos outros. Neste caso, é culpa da filha o fato de ele ter misteriosamente mudado de opinião sobre o melhor candidato. Em outra passagem do perfil, ele diz que a imprensa é que é a culpada pelo atraso no estádio de São Paulo. O êxito é dele, mas o fracasso deve ser compartilhado, ou simplesmente jogado sobre os outros, quem sabe na forma de um beliscão.

4. “Que porra as pessoas têm a ver com as contas da CBF? Não tem dinheiro público, não tem isenção fiscal. Por que merda todo mundo enche o saco?”

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Como diz o próprio Teixeira, a CBF é uma entidade “pri-va-da” – assim mesmo, escandindo as sílabas, como se os brasileiro fossem alunos de pré-primário com dificuldade para entender as coisas. Ele reclama do interesse das pessoas pela forma como a CBF gere seus recursos, já que tudo ali é privado, e compara a entidade a bancos como o HSBC ou o Bradesco. De fato, a CBF não recebe dinheiro público ou isenção fiscal, e nem precisa, graças à sua dúzia de patrocinadores. Mas um cidadão insatisfeito com o HSBC pode mudar de banco. Eu, insatisfeito com a condução do futebol brasileiro, não tenho outra escolha a não ser o que a CBF decide fazer. É um monopólio, e, ainda por cima, construído sobre algo que nem foi a CBF que desenvolveu, que é o futebol brasileiro. Por mais pri-va-da que seja a confederação, ela não gere algo que é seu. Claro que Ricardo Teixeira, o dono do mundo, não consegue compreender isso.

3. “Isso é o governo. E se o governo acha que a Copa não é prioridade, não posso fazer nada. Esse é o SEU país”

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O manda-chuvas critica o governo por não dar a devida atenção e urgência às obras de infra-estrutura da Copa. Preocupado ele, não? Com o bem do país? Claro que não. Com o bem da sua festa. Ricardo Teixeira é o dono da Copa do Mundo, presidente do comitê organizador, patrão de tudo que diz respeito ao mundial. Como tal, é claro que ele se considera em posição de cobrar do governo federal que coloque seu brinquedinho no topo da lista de prioridades. Atenção, presidente Dilma Rousseff: não é a senhora que decide o que o Brasil precisa. A senhora acha que devemos investir no pré-sal ou no Minha Casa, Minha Vida? Mude os planos, pois Ricardo Teixeira pensa diferente. Mas acredito que a presidente já saiba muito bem disso. Afinal, foi o líder dela na Câmara que disse que seria uma “temeridade” não fazer a Copa, certo? Ele deve ter andado conversando com Teixeira.

2. “Em 2014, posso fazer a maldade que for. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Porque eu saio em 2015. E aí, acabou”

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Aqui está a prova definitiva de que, para Ricardo Teixeira, a Copa do Mundo é DELE. A imprensa fala mal dele? Não deixa entrar! A imprensa critica, desagrada? Usa a Copa como instrumento de vingança! Veja só como ele fala em mudar horários de jogos com a maior sem-cerimônia do mundo, como se milhares de pessoas não fossem gastar altas somas e viajar grandes distâncias dependendo de uma programação bem estabelecida, e não sujeita a ataques egomaníacos de um cartola acometido de desenfreada safadez. A Copa do Mundo é um exercício de poder de Ricardo Teixeira, nada mais que isso. Não é a maior competição do esporte mais popular do mundo. Não é um grande fato jornalístico. Não é um evento que atrai a atenção de milhões de pessoas. Não é um bem coletivo da humanidade que foi colocado, temporariamente, sob guarda do Brasil. É propriedade do presidente da CBF, para ele modelar como bem entender e jogar na cara de quem o incomoda.

1. “Caguei montão”

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Curto e grosso. Quando convidado a dar sua opinião sobre as graves denúncias contra sua pessoa – uma oportunidade até para apresentar uma defesa séria e embasada -, foi apenas isso que Ricardo Teixeira disse. É o que ele pensa da sociedade, das leis, da justiça. Ele caga nisso tudo. O mundo é seu trono – em todos os sentidos. Não há muito o que comentar aqui. Apenas leia e releia essas duas palavras acima e assimile bem o significado da existência de Ricardo Teixeira.

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