Os 11 regulamentos mais estapafúrdios do Campeonato Brasileiro

A CBF discute com os clubes e a Rede Globo a mudança do regulamento do Campeonato Brasileiro – mais uma vez. Após doze temporadas seguidas repetindo as regras da disputa, um recorde para a caótica organização do futebol do país, é possível que os pontos corridos acabem por dar lugar ao retorno do mata-mata. Seria o ideal? Honestamente, não sei. Vejo méritos nas duas fórmulas e acho que um debate aberto sobre o assunto seria muito bem-vindo. Além disso, nenhum modelo é intocável, e o passar dos anos pode trazer necessidade e interesses diferentes para os torcedores.

O problema é que, quando se trata de elaborar o Campeonato Brasileiro, a preferência do torcedor vem em último lugar na lista de ingredientes usados para se criar um regulamento. Xícaras de jeitinho, colheres de politicagem, pitadas de viradas de mesa e surrealismo a gosto dão o tom da principal competição do futebol brasileiro há décadas. Já que o papo voltou, vamos recordar as maiores atrocidades em forma de livro de regras que o nosso futebol já teve que engolir.

11. 1989 – Pontos cumulativos

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O Vasco campeão de 89: Mazinho, Luís Carlos Winck, Zé do Carmo, Quiñonez, Marco Aurélio, Acácio / William, Sorato, Boiadeiro, Bebeto, Bismarck

As duas primeiras fases do Campeonato Brasileiro de 1989 foram um exercício do subtração. Os 22 times foram divididos em dois grupos de 11. Na primeira fase, os grupos se enfrentavam internamente. Cada clube fazia, então, dez jogos. Ao fim, cada grupo classificava seus oito primeiros para a segunda fase, enquanto os seis piores times seguiam para a disputa do Torneio de Rebaixamento (jogos de ida e volta, os quatro últimos caíam). No entanto, as equipes não foram redistribuídas, e os grupos permaneceram os mesmos – a única diferença era a exclusão dos lanternas. A partir daí, os times enfrentavam os integrantes do outro grupo, num total de oito confrontos para cada participante. O detalhe é que os pontos conquistados na primeira fase eram mantidos. Ou seja, se em teoria havia duas fases, na prática o torneio consistia em uma fase de dois turnos – sendo que os piores do primeiro eram excluídos da disputa do segundo. Ao fim, o melhor de cada grupo na soma de todas as rodadas avançava à final, onde o Vasco, do grupo B, venceu o São Paulo, do grupo A. O sistema de pontos cumulativos não pegou.

10. 1973 – A farra dos grupos

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O Palmeiras campeão de 73: Eurico, Leão, Luís Pereira, Alfredo Mostarda, Dudu, Zeca / Edu, Leivinha, César, Ademir da Guia, Nei

A primeira grande engorda do Campeonato Brasileiro – de 26 para 40 participantes – exigiu um certo contorcionismo da CBD para criar uma disputa ampla na primeira fase. Em um primeiro turno, os times eram divididos sem muito critério em dois grupos de 20 e se enfrentavam dentro das chaves em jogos só de ida, totalizando 19 partidas. Passada essa etapa, as equipes foram reembaralhadas em quatro grupos de 10, a partir de um método vagamente geográfico, e jogaram mais nove vezes. Ao fim, portanto, de 28 rodadas compilavam-se todos os pontos e classificavam-se para a segunda fase os 20 melhores da classificação geral, independente do desempenho relativo dentro dos grupos em cada turno. Para completar a bagunça da primeira fase, os jogos de cada equipe não foram divididos igualmente entre casa e fora. O Olaria, por exemplo, teve mando de campo em duas míseras partidas. No extremo oposto, o Figueirense atuou em casa inacreditáveis 23 vezes. O título ficou com o Palmeiras, bicampeão.

9. 1975-1978, 1994 – Repescagem favorece os piores

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Em 1977, o Londrina (camisa listrada) foi 8º no seu grupo de 10 times na primeira fase, mas, graças à repescagem, chegou à semifinal, onde enfrentou o Atlético Mineiro

O modelo de fases preliminares eliminatórias servia bem ao Brasileiro nos primeiros anos, para evitar que os clubes tivessem que viajar muito pelo país enfrentando todos os outros participantes de um campeonato já inchado. Porém, era preciso agradar politicamente os centros periféricos (a razão pela qual, afinal de contas, o governo ditatorial acrescentava tantos times ao torneio), mesmo que seus representantes não tivessem condições competitivas de brigar pelas vagas para as fases decisivas. A solução inventada em 1975 foi uma repescagem, logo depois da primeira fase, a ser disputada por todos os últimos colocados dos grupos. Uma nova oportunidade para que os mais fracos prosseguissem na disputa. Só que a repescagem não dava vaga para a segunda fase: jogava seus classificados diretamente na terceira. Ou seja, os campeões dos grupos tinham que disputar entre si lugares na terceira fase, enquanto quem caísse mais cedo só enfrentava os demais “capachos” pelas mesmas vagas. Era, então, uma segunda fase alternativa, só que contra competição mais fraca. O modelo vigorou até 1978 e foi ressuscitado por razões insondáveis em 1994 – se bem que com o ônus de rebaixar quem não sobrevivesse à segunda chance. Apenas dois times, em todo esse histórico, alcançaram as semifinais do campeonato vindos da repescagem: o Londrina de 1977 e o Atlético Mineiro de 1994.

8. 1974 – Classificação por renda

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Em 74 a torcida do Fluminense teve um papel muito mais direto para influenciar o sucesso de seu time no Campeonato Brasileiro

A média de público do Brasileiro vinha em decadência desde os tempos de Robertão. Uma ideia inédita e pouquíssimo ortodoxa foi implementada no torneio de 1974 para tentar reverter esse quadro: a renda de bilheteria dos times como critério de classificação. Na primeira fase os 40 times estavam divididos em dois grupos de 20. Os 10 primeiros de cada grupo, mais os dois de melhor desempenho geral fora dessas posições, passariam adiante. Aí vinha o truque: avançariam, ainda, os dois clubes dentre os demais com as maiores rendas acumuladas em suas partidas. A norma beneficiou o Fluminense, 16º do Grupo A, e o Nacional-AM, 17º do Grupo B – em meio a suspeitass de que seus próprios dirigentes haviam comprado ingressos para inflar os números. Logo ficou claro que beneficiar os campeões de público não faria sentido para a competição. Primeiro porque os dois times não chegaram nem perto de brigar pelas vagas na fase seguinte. Segundo porque a média de público do campeonato, mesmo com o incentivo nada sutil para levar mais torcida aos estádios, foi a pior da década até então. Foi a primeira e última aparição da classificação por renda.

7. 1985 – Dois mundos em um torneio

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Coritiba (camisa listrada) e Bangu fizeram a final mais inusitada de todos os Brasileiros – conclusão perfeita para um campeonato que promoveu artificialmente os pequenos ao nível dos grandes

A repartição do Brasileiro em duas divisões e o sistema de rebaixamento e acesso estavam em pleno e próspero funcionamento (mesmo que de forma inusitada, como veremos adiante) desde 1980, e pareciam consolidados. Por algum motivo isso passou a ser um problema em 1985, quando a CBF resolveu simplesmente promover a segunda divisão inteira de uma vez. Ou quase isso. Os 20 times que comporiam a Taça de Ouro (primeira divisão) foram divididos nos grupos A e B e jogaram entre si, enquanto que os 22 da Taça de Prata (segunda divisão) formaram os grupos C e D e se enfrentaram. A primeira fase se realizou, então, ainda segregada. As divisões conviveram, mas não se encontraram. Cada grupo classificava quatro equipes para a segunda fase integrada. Isso significa que as melhores se digladiaram pelo mesmo número de vagas que as piores. Apenas então, com quatro grupos de quatro, é que houve a mescla de divisões. Esse tratamento igualitário permitiu campanhas mais longas de clubes como CSA, Joinville, Mixto, Brasil de Pelotas (semifinalista) e Bangu (vice-campeão). O título ficou com o surpreendente Coritiba, oriundo dos grupos da Taça de Ouro mas ainda assim uma grande surpresa.

6. 1980-1984 – Acesso no mesmo ano

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Em 1982, o Corinthians (camisa branca) começou o Brasileiro na segunda divisão, mas se aproveitou do acesso expresso, chegou à primeira para as fases decisivas e pegou o Grêmio na semifinal

Na virada dos anos 70 para os 80, a CBD se desmembrou em várias confederações esportivas específicas, entre elas a CBF. Com isso, a organização do Campeonato Brasileiro também passou por transformações. O torneio foi dividido em três divisões – as taças de Ouro, de Prata e de Bronze -, cada qual com sua própria disputa, e um sistema de rebaixamento e acesso foi instituído entre elas. Tudo parecia mais organizado e estável. Mas não seria Brasileirão sem um pingo de criatividade. Estabeleceu-se que a classificação para o campeonato seria por meio dos estaduais: os melhores colocados iriam para a Taça de Ouro, os imediatamente abaixo para a Taça de Prata, e assim por diante. Para contornar o risco de ver times grandes na segunda divisão nacional por conta de deslizes regionais, criou-se a ferramenta do acesso à primeira divisão na mesma temporada. Após uma primeira fase, os quatro melhores colocados da Taça de Prata eram promovidas à disputa da segunda fase da Taça de Ouro, e podiam competir pelo título da divisão principal. Curiosamente a disputa da Taça de Prata continuaria sem eles, significando que os melhores times da segunda divisão não podiam brigar pelo título da… segunda divisão! Campeão e vice da Taça de Prata também subiriam, mas só no ano seguinte. A norma beneficiou clubes tradicionais como Sport, Bahia, Palmeiras, Corinthians e Guarani, que começaram diferentes anos na segundona por más campanhas estaduais e rapidamente voltaram à elite. O Corinthians de 1982, aliás, foi semifinalista. Em 1984 apenas um time ganhou o benefício, e no ano seguinte a regra já havia desaparecido.

5. 1979 – Paulistas pulam fora

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O Internacional campeão de 79: João Carlos, Benítez, Mauro Pastor, Falcão, Mauro Galvão, Cláudio Mineiro / Valdomiro, Jair, Bira, Batista, Mário Sérgio

O Brasileiro de 79 foi o ápice da ingerência política no torneio e o recordista (até então) de participantes: absurdos 94 . O campeonato precisou se adaptar também à possibilidade da realização de um Torneio Rio-São Paulo, que tumultuaria o calendário de paulistas e cariocas. Decidiu-se que os 12 participantes do Rio-São Paulo entrariam no Brasileiro já na segunda fase. Eles se juntariam aos classificados da primeira fase, que seriam (prepare-se) os quatro primeiros dos grupos A e C, os cinco primeiros dos grupos B, D, E e F e os oito primeiros dos grupos G e H. Total da segunda fase: 56. Dali sairiam 14 para a terceira fase, e aqui, por incrível que pareça, é que começa o problema. A esses 14 seriam adicionados Guarani e Palmeiras, já previamente classificados à terceira fase por terem sido campeão e vice do Brasileiro de 78. Só que os demais times grandes paulistas não gostaram nadinha do favorecimento a seus rivais e pleitearam o direito a também só entrarem na disputa mais à frente. O pedido foi negado, então Corinthians, Portuguesa, Santos e São Paulo simplesmente desistiram de participar. Tiveram que ser substituídos às pressas, de modo que os representantes do estado de São Paulo no principal campeonato de futebol do país foram Comercial, Francana, Inter de Limeira, São Bento, XV de Jaú e XV de Piracicaba – além de Guarani e Palmeiras, claro, que não tinham nada a ver com isso. Quem se aproveitou foi o Internacional, que conseguiu ser campeão invicto. Ah, e o Rio-São Paulo que bagunçou o coreto do Brasileiro acabou nem acontecendo.

4. 1993 – Rebaixamento seletivo

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Grêmio e Fluminense se enfrentam em jogo que não deveria ter acontecido, já que o tricolor gaúcho estaria na segundona se não fosse o bizarro regulamento

A história do Brasileiro de 1993 começa com uma virada de mesa arquitetada para beneficiar o Grêmio. O clube gaúcho havia caído para a segunda divisão em 1991 e não conseguira o retorno em 1992, ficando apenas em 9º. Para resgatar os tricolores, a CBF rasgou o regulamento estabelecido e promoveu nada menos que 12 times da segundona, além de cancelar o rebaixamento de 92 (bom para Náutico e Paysandu, que cairiam). Em 93, com 32 times no torneio, a confederação dividiu-os em quatro grupos baseados em critérios quase técnicos. Nos grupos A e B, os membros do Clube dos 13 (Grêmio incluso) mais os três melhores não-membros do ano anterior: Bragantino, Guarani e Sport. Os demais foram para os grupos C e D. Após ida e volta dentro dos grupos, passariam à segunda fase os seis melhores de A e B e os dois melhores de C e D. O rebaixamento viria para os oito piores no geral – desde que eles pertencessem aos grupos C e D. Ou seja, os maiores clubes brasileiros foram imunizados da queda – incluindo aí o Grêmio, que nem deveria estar na primeira divisão, para começo de conversa. Ao final, das cinco piores campanhas do torneio, quatro foram de times protegidos, que, portanto, não caíram. Nem Náutico e Paysandu, que já deveriam ter caído. Enquanto isso, o América-MG, 16º no quadro geral, foi um dos rebaixados. O ano seguinte retomou um semblante de normalidade.

3. 1986 – Regulamento pra quê?

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Revista Placar noticia a consolidação da virada de mesa que definiu e desfigurou o Brasileiro de 86

Após o imbróglio de 1985, a CBF decidiu usar o Brasileiro de 1986 para arrumar a casa. Novamente a segunda divisão pôde competir por vagas na segunda fase da elite, através do chamado Torneio Paralelo, que reunia 36 equipes. Na divisão principal, chamada de Copa Brasil, eram 44 times divididos em quatro grupos de 11. Avançavam os seis primeiros de cada, mais os quatro melhores no geral que não alcançassem essas posições. Com mais quatro oriundos do Torneio Paralelo, seriam 32 classificados à segunda fase. A ideia é que os 24 melhores desse etapa compusessem a primeira divisão a partir do ano seguinte. Pois bem. Tudo isso que eu expliquei, que já não é simples, não serviu para nada. O Vasco fez má campanha e brigava por um dos quatro lugares destinadas às “sobras” da classificação geral, mas estava ficando para trás. No desespero, recorreu à CBF para protestar contra uma decisão que dava ao Joinville – rival dos cariocas na disputa por vaga – os pontos de um jogo contra o Sergipe por motivo de doping. Ganhou o caso e a vaga. Porém, o Joinville foi apoiado pelo Conselho Nacional de Desportos e também acabou classificado. A CBF precisou inventar uma regra para desclassificar alguém, e a vítima foi a Portuguesa (segunda colocada no seu grupo), sob alegação de ter um processo correndo na Justiça comum, o que seria irregular. Os demais clubes paulistas se mobilizaram em solidariedade à Lusa, ameaçando abandonar o campeonato, e a CBF cedeu mais uma vez. O resultado foi ter em suas mãos uma segunda fase com 33 times, o que tornava impraticável elaborar um calendário. Solução? Ora, perdido por um, perdido por dez. A confederação picotou o que ainda restava de regulamento e determinou a classificação de mais três times, só para chegar ao número mais palpável de 36 remanescentes. Com tantas idas e voltas o torneio só foi concluído em fevereiro do ano seguinte, e a tentativa de criar um marco para a pacificação do Campeonato Brasileiro saiu por todas as culatras possíveis.

2. 2000 – Ode ao absurdo

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O Vasco de Romário enfrenta o São Caetano no misericordioso fim de um campeonato gigantesco, confuso e que todos só queriam deixar para trás

É difícil diagnosticar onde o Campeonato Brasileiro de 2000 começou a dar errado. A única certeza é que não houve sequer uma decisão racional envolvida no processo que construiu um torneio Frankenstein, que teve, na prática, inacreditáveis 116 participantes. No ano anterior, o rebaixamento fora tumultuado pelo célebre caso Sandro Hiroshi, que rendeu pontos extras ao Botafogo e salvou o time carioca da queda às custas do Gama. Inconformado, o alviverde de Brasília entrou na Justiça comum apoiado até mesmo pelo então senador José Roberto Arruda (ele mesmo). Na batalha judicial que se seguiu, a CBF viu-se proibida de organizar o campeonato de 2000. Passou o encargo ao Clube dos 13, pela segunda vez na história (a primeira, veremos adiante, também não havia dado muito certo). Temerosa de organizar as diferentes divisões sem a certeza de quem deveria ficar, cair ou subir, a entidade surtou. Aboliu as divisões e criou quatro módulos: Azul, Amarelo, Verde e Branco. Cada um teria um número diferente de integrantes e uma fórmula distinta de disputa e representaria mais ou menos uma “divisão”, com a particularidade que haveria encontro entre módulos na fase final. Ao monstro parido deu-se o nome de Copa João Havelange. Neste momento eu paro para você pegar um café, porque a coisa vai ficar feia.

No Módulo Azul fez-se a festa. Entraram os 18 times que teriam direito de permanecer na primeira divisão; o Goiás e o Santa Cruz, que conquistaram o acesso; o Gama, protegido pela Justiça; o Juventude, que seria rebaixado mas foi salvo sabe-se lá por quê; o Bahia e o América-MG, que não se classificaram na segundona mas acabaram pescados assim mesmo; e o Fluminense, que havia sido campeão da terceira divisão e foi autorizado a pular a segunda. Total: 25 times e incontáveis viradas de mesa. No Módulo Amarelo, 15 times que, depois de desrespeitados todos esses detalhes anteriores dos regulamentos, estariam na segunda divisão e mais 21 convidados arbitrários, totalizando 36. No Módulo Verde, 28 clubes selecionados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No Módulo Branco, 27 clubes selecionados do Sudeste e Sul. Sim, o pistolão rolou solto.

Ainda está aí? Ótimo. Não vale a pena explicar os regulamentos particulares de cada módulo. Saiba apenas que, no fim das disputas, sobravam 16 finalistas: 12 do Azul, 3 do Amarelo e 1 de Verde e Branco. Eles se enfrentaram em mata-mata até que sobrassem dois, que fariam a decisão e disputariam o título. Em teoria, portanto, um time que nem fizesse parte do Campeonato Brasileiro em 1999 em qualquer divisão podia brigar pelo troféu em 2000, se ganhasse o convite para os módulos inferiores. O insignificante Malutrom, que havia se profissionalizado dois anos antes, foi o representante dos módulos Verde e Branco, mas acabou eliminado pelo Cruzeiro logo de cara. Porém, o São Caetano, oriundo da segunda divisão de 99 e do Módulo Amarelo, alcançou a final e quase surpreendeu. O título ficou com o Vasco, campeão de um certame gloriosamente delirante.

1. 1987 – O campeonato que ninguém entendeu

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Tanto Flamengo quanto Sport comemoram o título brasileiro de 1987: o regulamento era tão nebuloso que até hoje ainda não foi decifrado

Mas melhor ser o reconhecido campeão de uma maluquice do que vencer um campeonato relativamente simples e ninguém acreditar. É essa a situação de não um mas dois clubes brasileiros, protagonistas da Copa União (risos) de 1987, cujo resultado ainda não é consensual quase três décadas depois do apito final. O pandemônio de 1986 fez a CBF declarar falta de condições financeiras para organizar o Campeonato Brasileiro no ano seguinte, jogando a batata quente para os times. Entrou em cena o Clube dos 13, entidade criada para ser o embrião de uma moderna liga de clubes brasileiros. Reunindo os 13 principais clubes do país, tomou para si as rédeas do Brasileiro e bolou um torneio que seria comercialmente imbatível, com patrocínios fortes e muita rentabilidade.

Para isso dar certo, o Clube dos 13 precisou ser implacável. Apesar do regulamento do Brasileiro de 86 ditar que os 28 primeiros colocados comporiam a elite de 87, o número foi reduzido para apenas 16: os membros do Clube e mais Coritiba, Goiás e Santa Cruz, selecionados a dedo por serem representantes de mercados grandes. Melhor para o próprio Coritiba e para o Botafogo, que não disputariam a primeira divisão nas condições normais. Pior para os 14 times que haviam conquistado o direito dentro das regras e foram simplesmente ignorados. Entre eles estava o Guarani, vice-campeão nacional em exercício.

Para fazer justiça a essas equipes, a CBF “esqueceu” que havia aberto mão de gerenciar o campeonato e criou sua própria disputa. Aos 14 foram adicionados Vitória e Náutico, e a Ponte Preta foi substituída pelo Treze. Nascia um torneio paralelo, também com 16 times, embora mais fracos. A disputa do Clube dos 13 ganhou o nome de Módulo Verde; a da CBF, de Módulo Amarelo (sim, a ideia de batizar campeonatos com cores da bandeira precedeu a Copa João Havelange). Havia ainda os módulos Azul e Branco, arremedos de segunda divisão, mas eles não entram na história.

A CBF foi além e jogou uma ideia: que tal seria se os campeões e vices dos módulos Verde e Amarelo se enfrentassem num quadrangular para decidir o campeão dos campeões nacionais de 1987? Aqui é o ponto central da discordância que permanece viva até hoje. O Clube dos 13 alega que nunca topou. A CBF garante que obteve a concordância do notável Eurico Miranda, que representava o Clube dos 13 nas negociações. Sem os ponteiros estarem acertados, os campeonatos aconteceram. O Flamengo venceu o Módulo Verde, tendo o Internacional como vice. Sport e Guarani dividiram o título do Módulo Amarelo após dois empates nas finais e graças à trivial ausência de uma regra para desempatar. Os dois primeiros não compareceram ao quadrangular e tomaram W.O. em seus jogos. O Sport venceu o Guarani e foi declarado, pela CBF, campeão brasileiro, título que o Flamengo já comemorava há semanas. Estava plantada a semente do mal.

A experiência foi tão desastrosa que já no ano seguinte o Clube dos 13 abriu mão de seu propósito fundador e virou um mero negociador de direitos de televisão. A CBF voltou a organizar o Campeonato Brasileiro e continuou fazendo besteira, como pudemos ver. A disputa pelo reconhecimento do título de 1987 segue nos tribunais, como a evidência mais visível e famosa da nossa histórica incapacidade de organizar torneios descomplicados.

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