Os 11 melhores livros sobre futebol da minha coleção

Eu deveria estar trabalhando na minha monografia neste exato momento. É um estudo sobre como crônica e futebol se encontraram no Brasil, e como um influenciou o outro. Fiz bem em escolher um assunto agradável. Se tivesse prosseguido com minhas intenções de fazer um sisudo estudo crítico da mídia eu estaria sofrendo bastante. A princípio pensei que precisava de um tema “sério”, e que era hora de deixar o futebol um pouco de lado. Não consegui. Conselho pra você que vai fazer sua monografia em breve: não fuja das suas preferências. Nunca. A tentação de escrever alguma coisa “importante” é grande, eu sei, mas não vale a pena se esfalfar de estudar algo que é desconfortável pra você. Se você gosta do assunto, vai fazer um bom trabalho. É nisso que eu me fio.

Enfim. Eu deveria estar trabalhando nisso agora. Aí me vi cercado por meus livros sobre futebol, que estou usando na monografia, e pensei nesta lista. Aí joguei tudo pro alto, me convenci a ficar uma noite sem dormir pra compensar o tempo perdido e toquei a elencar meus 11 preferidos entre os integrantes da minha pequena biblioteca esportiva. Aí vão, acompanhados por fotos dos exemplares que eu tenho.

11 SÃO PAULO: DENTRE OS GRANDES, ÉS O PRIMEIRO (Conrado Giacomini)
Ganhei este aqui do meu pai. Devorei rapidinho, claro. Faz parte de uma coleção muito boa chamada Camisa 13, em que célebres torcedores dos principais clubes do país assinam obras sobre a história dos times. Mas Conrado Giacomini é uma exceção a essa regra. No meio de nomes como Luís Fernando Verissimo (Internacional), Aldir Blanc (Vasco) e Mário Prata (Palmeiras), aparece um advogado estreante em publicações que recém tinha passado dos 25 anos de idade quando o livro foi lançado. Não estou sacaneando, ele mesmo aponta isso. Seja como for, ele fez um grande trabalho, traçando a história do São Paulo – desde a primeira fundação, em 1930, passando pela falência e refundação em 1935, construção do Morumbi, títulos brasileiros, anos Telê, etc. – através de partidas notáveis do clube. Sempre, claro, tirando um sarrinho dos rivais.

10 BOLA FORA (Paulo Vinícius Coelho)
PVC – ou PVCpedia, ou PVC3PO, como preferir – é provavelmente o mais dedicado e minucioso jornalista esportivo que há no Brasil. Só mesmo ele poderia escrever um livro tão sucinto, preciso e saboroso sobre um assunto a princípio tão intangível quanto o êxodo de jogadores brasileiros para o exterior. Bola fora registra os contextos das saídas de atletas do país para todos os outros mercados futebolísticos importantes do planeta desde sempre, e procura, em cada caso, buscar motivos e entender como influenciou o futebol brasileiro. Muitos lamentam sobre como é ruim que estejamos perdendo nossos jovens talentos para times estrangeiros. Apenas um pesquisou, estudou e registrou. Só você mesmo, PVC.

9 O FUTEBOL EXPLICA O BRASIL (Marcos Guterman)
A proposta de Marcos Guterman, jornalista do Estado de S. Paulo, é ambiciosa e intreigante: mostrar que, no Brasil, história social e história do futebol sempre caminharam juntas, e estudar o esporte é uma forma de estudar (e entender) o país. É um trabalho que ajuda a vencer um preconceito: o de que o futebol é um “escapismo”, um “ópio do povo”, porque não é um assunto “importante”. Basta ler algumas páginas escritas por Guterman para perceber que não dizem que somos o país do futebol à toa. Dá, sim, para o futebol explicar o Brasil, ou no mínimo ilustrar, exemplificar, representar. Porque o jogo bretão fincou raízes muito profundas na nossa sociedade, no nosso povo e nos nossos hábitos, e certamente também incorporou muito da nossa personalidade e da nossa identidade – assim como ajudou a construi-las.

8 À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS (Nelson Rodrigues)
Bom, este cara é o mestre, falemos a verdade. Foi por causa dele que escolhi fazer uma monografia sobre crônica esportiva. Este livro também foi um presente, e é o mais recente da coleção: recebi do meu avô quando fui visitá-lo em Santa Catarina no fim do ano passado. Não só eu estava atrás dele feito louco para a monografia como queria lê-lo, por prazer mesmo há muito tempo. À sombra das chuteiras imortais – assim como A pátria em chuteiras, da mesma coleção – é uma coletânea de crônicas de Nelson Rodrigues. Neste livro está, por exemplo, o texto que define o “complexo de vira-latas”, estado de espírito cunhado por Nelson Rodrigues para definir os brasileiros no período antes de vencermos qualquer Copa do Mundo – e que, com adaptações, aplica-se até hoje. Também constam os relatos das partidas das campanhas vitoriosas de 1958, 1962 e 1970.

7 A DANÇA DOS DEUSES: FUTEBOL, SOCIEDADE, CULTURA (Hilário Franco Júnior)
É um dos vovôs da coleção. A dança dos deuses foi, acho, o primeiro livro mais profundo sobre futebol que adquiri. É uma obra bastante abrangente – o que não a torna vaga ou imprecisa. Aborda sociologia, história, religião, política, até linguística, com o objetivo de mostrar como o futebol espraia-se através de várias áreas do conhecimento humano. É uma ótima recomendação para iniciantes, não por ser especialmente fácil ou pouco profunda, mas por introduzir muito bem esse conceito para o leitor: o de que o futebol é um tema influente, complexo e fascinante.

6 LANCEPÉDIA (LANCE! Publicações)
Outro presente, desta vez da minha namorada, que leu minha mente. Pela foto dá pra ver que são dois volumes. É isso mesmo. Cmo o próprio nome diz, é uma enciclopédia do futebol brasileiro, elaborada pelos profissionais do Lance!. Traz fichas e informações bem detalhadas sobre jogadores, clubes, técnicos, estádio, juízes, jornalistas, competições, federações, dirigentes, ufa! Em resumo, muita informação. Para sanar qualquer dúvida, folhear nas horas vagas ou mesmo tirar ideias para listas neuróticas sobre futebol, como certas pessoas fazem.

5 SOCCERNOMICS (Simon Kuper / Stefan Szymanski)
É o primeiro dos três livros em inglês que vão aparecer nesta lista. O grande mérito de Soccernomics é oferecer uma visão do futebol diferente de tudo que estamos acostumados a ver. Uma visão que procura se livrar de vícios amadorísticos que ainda ditam algumas regras no meio do esporte. Uma visão não necessariamente empresarial, mas racional, prática, lógica. Ajuda nisso o fato de Kuper e Szymanski serem pessoas de formação diferenciada dos que costumam escrever sobre futebol: este é professor de economia, e aquele é articulista do Financial Times, de Londres (ou pelo menos era essa a situação de cada um quando a obra foi publicada). O texto é bastante acessível, mesmo quando usa alguns raciocínios e cálculos matemáticos e estatísticos mais complicados – não é preciso compreendê-los totalmente para pegar as ideias dos autores.

4 FEVER PITCH (Nick Hornby)
Nick Hornby era um inglês aspirante a escritor que não conseguia emplacar nada até escrever Fever pitch, em 1992. Daí para frente sua carreira foi alavancada e ele já foi até indicado ao Oscar por um roteiro adaptado. E tudo por causa do Arsenal, seu time do coração, que o motivou a escrever uma espécie de biografia futebolística – coisa que pretendo fazer um dia, quem sabe. A história de Hornby é a história de todos nós, fãs obssessivos do esporte (como ele próprio se descreve). Ele confessa que deixa de prestar atenção à vida real para pensar em futebol, garante que não vai a jogos para se divertir e sim para sofrer pela sua equipe e admite todo tipo de comportamento incompreensível para quem não padece do mesmo mal. Faz isso em nome daqueles que não tem coragem de fazê-lo por quererem preservar um mínimo de integridade pública. Hornby não teve vergonha, e levou adiante o sentimento de muitos homens (e algumas mulheres): futebol é nossa vida, sim, somos meio malucos, sim, acostumem-se com isso.

3 O MUNDO DAS COPAS (Lycio Vellozo Ribas)
Me deparei com este livro meio que por acaso, na FNAC de Brasília. Era época de Copa do Mundo e as prateleiras da entrada da loja estavam abarrotadas de livros sobre futebol, de modo que eu não precisava dar mais do que dois passos para encontrar as coisas que normalmente procuro em livrarias (geralmente preciso dar algumas voltas até achar a seção de esportes). O mundo das Copas estava lá, imenso, dominante na paisagem, me chamando. Comprei sem saber muito bem no que estava me metendo, atraído pela promessa do livro: contar tudo, absolutamente tudo, sobre as Copas do Mundo. Não é que era verdade? Durante o período pré-Copa juroque não me afastei três metros deste adorável calhamaço. Levava para todos os lugares, como uma criança com um brinquedo novo. Na universidade atraí alguns olhares debruçado sobre aquele livrão em vez de socializar com as pessoas. Valeu a pena. Acredite: tem tudo MESMO.

2 THE BALL IS ROUND (David Goldblatt)
Se você quer ter sua cabeça obliterada, pegue algumas semanas da sua vida para ler The ball is round. Já deu pra ver que está lista está cheia de autores com planos grandiosos que, no fim das contas, cumprem. David Goldblatt chega a um novo patamar com um livro do tamanho de uma Bíblia (e páginas tão finas quanto as de uma) que conta, simplesmente, a história do futebol em todo. O. Planeta. E não é “só” isso. Ele começa falando de todos os esportes de bola-no-pé que a humanidade já praticou e conta como isso tudose transformou nesse tal futebol que conhecemos hoje – não sem antes mostrar como o próprio futebol, já com esse nome e uma cara mais ajeitada, passou por um milhão de estágios antes de tomar forma. E é apenas o começo. Goldblatt bombardeia o leitor a cada fração de linha com datas, nomes, eventos, fatos, por vezes abandona o futebol durante páginas só para falar de história global. É um livro que exige pausas para respiração. Eu comecei a ler no ano passado. Ainda não terminei. Pense nisso.

1 O NEGRO NO FUTEBOL BRASILEIRO (Mário Filho)
Eu não li Sérgio Buarque de Hollanda, não li Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro ou Euclides da Cunha. Ainda. Mas li Mário Filho, e devo dizer que ele não deve muito a esses outros caras não. O negro no futebol brasileiro merece um lugar lá em cima, junto com as obras definidoras do Brasil e dos brasileiros. É a história de como o futebol se tornou o esporte do povo no país, como deixou de ser um passatempo das elites para abraçar eser abraçado por todos que o quisessem jogar. Como diz o título, o ponto central é a participação dos negros – e também dos mulatos -, cuja entrada definitiva nas disputas futebolísticas marcou de fato a democratização deste que é o esporte coletivo mais acessível a qualquer pessoa, pela simplicidade das regras, pouca exigência de equipamentos e poucas especificidades físicas. O texto de Mário Filho é delicioso, dá a impressão de que você está lendo uma enorme crônica. Recomendo a todos, mesmo quem pouco se interessa por futebol. É uma obra-base do Brasil, excepcional para esclarecer quem somos e porque somos quem somos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s