Os 11 maiores clássicos interestaduais do Brasil

Grenal. Fla-Flu. Dérbi Paulistano. Clássico Mineiro. Atletiba. Ba-Vi. E muitos outros. As rivalidades regionais são a alma do futebol brasileiro. Quando o esporte começou a se estruturar em um país do tamanho do nosso, ele nada mais era do que uma coleção de campeonatos locais sem nenhuma conexão uns com os outros. Nessas disputas bairristas surgiram as primeiras grandes glórias e os primeiros grandes heróis, e engrandeceram-se os clubes. Confrontos com décadas de tradição, que atravessam gerações, continuam vivos e sustentando a mística do país do futebol.

Com o passar dos anos, e a expansão e valorização de torneios nacionais, surgiram novas rivalidades. Confrontos cada vez mais frequentes e importantes entre times de estados diferentes permitiram que eles construíssem entre si as suas rixas, as suas culturas e as suas histórias. Hoje, perto da maioridade do século XXI, não é absurdo dizer que alguns confrontos interestaduais estão entre as principais rivalidades do nosso futebol.

Com base em decisões importantes, polêmicas e momentos marcantes protagonizados juntos, compilei aqui os embates mais interessantes que pegam BRs e cruzam divisas. Roupa suja se lava em casa, mas às vezes é muito divertido ir comprar briga em outra vizinhança.

11. Corinthians x Vasco

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Dois clubes historicamente identificados com o povão, o que dá à sua rivalidade uma dimensão de massas. Recentemente este embate teve um revival de respeito, com os times disputando o título do Campeonato Brasileiro de 2011 e as quartas-de-final da Libertadores de 2012 (melhor para o Corinthians nas duas ocasiões). Corinthians e Vasco fizeram história juntos ao protagonizarem a primeira final do Mundial de Clubes da Fifa, em 2000. Após superarem Real Madrid e Manchester United em fase preliminar, os elencos estelares alvinegros e cruzmaltinos protagonizaram boa briga em campo. A taça só ganhou dono nos pênaltis, quando Edmundo errou a última cobrança e o time paulista saiu vencedor. As origens da rivalidade, porém, remontam aos anos 50, quando o Vasco de Ademir, Danilo e Augusto e o Corinthians de Luizinho, Cláudio e Baltazar batalharam ponto a ponto por três Rio-São Paulo (disputados em pontos corridos naquela época). O time da Colina só conseguiu ficar à frente em 1952, mas acabou perdendo a taça para a Portuguesa em dois jogos extras. Em 1950 e 1953 o Corinthians levou, tendo o Vasco como vice.

10. Cruzeiro x Palmeiras

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Os maiores representantes das colônias italianas no Brasil compartilharam holofotes nos quadrangulares finais dos Robertões de 1969 e 1970 e do Brasileiro de 1973, mas tiveram o ápice da rivalidade no final dos anos 90, quando se encontraram em vários mata-matas decididos com gols no final. Na primeira peleja dessa série, decisão da Copa do Brasil de 1996, o Cruzeiro levou. O momento mais especial foi o ano de 1998: no intervalo de sete meses, os Palestras decidiram a Copa do Brasil, uma quarta-de-final do Campeonato Brasileiro e a Copa Mercosul (edição inaugural). O Cruzeiro levou a melhor no Brasileiro, em melhor de três com três expulsões no jogo final, mas o Palmeiras conseguiu levantar as duas taças. Depois disso, houve encontro decisivo nas quartas-de-final da Libertadores de 2001, com mais uma conclusão dramática: vitória palmeirense só nos pênaltis. Detalhe interessante é que, nesse confronto, o Cruzeiro contava com Alex e Oséas, jogadores que haviam participado das disputas anteriores entre os clubes vestindo a camisa do Palmeiras. A rivalidade arrefeceu um pouco nos últimos anos, já que o Palmeiras tem sofrido para encontrar embalo enquanto o Cruzeiro está frequentemente nas disputas de Brasileiros e Libertadores.

9. Corinthians x Internacional

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Essa rixa tem um pezinho no passado, mas suas motivações principais são definitivamente modernas. O primeiro ato de maior tensão foi no Brasileiro de 1976, quando o Inter foi bicampeão nacional em cima do Corinthians e, de quebra, impediu o clube paulista de sair do seu jejum de mais de 20 anos sem títulos. Mas a disputa de Brasileiro que realmente fez a relação entre gaúchos e paulistas pegar fogo foi a de 2005. O campeonato teve vários jogos anulados devido ao esquema de manipulação de resultados conduzido pelo árbitro Edílson Pereira de Carvalho. Com todos os placares originais, o Internacional levaria a taça. Na nova tabela depois das partidas serem redisputadas, o Corinthians sagrou-se campeão. A polêmica só cresceu graças ao encontro decisivo entre os dois times na antepenúltima rodada, valendo a liderança. No segundo tempo, o volante Tinga foi atingido na área pelo goleiro Fábio Costa. O juiz não só não marcou o pênalti como expulsou o colorado por simulação. O placar final de empate favoreceu o Timão. O Inter jamais esqueceu os acontecimentos daquele ano. Antes da final da Copa do Brasil de 2009, a diretoria do clube gaúcho preparou um DVD com supostos erros de arbitragem a favor do adversário ao longo dos anos, como forma de pilhar a torcida, pressionar a arbitragem e fazer manchetes. O Corinthians acabou vencendo também aquele torneio e, até hoje, usa o caso do DVD para provocar o Internacional quando os times se enfrentam.

8. Cruzeiro x São Paulo

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Os clubes são brasileiros, mas o clássico tem a maior cara de América do Sul. Cruzeiro e São Paulo já se confrontaram em seis edições de torneios continentais, sendo três Libertadores, uma Mercosul, uma Recopa Sul-Americana e uma Supercopa Libertadores. O time celeste leva vantagem no saldo geral dos confrontos, tendo triunfado em quatro, mas a única disputa direta de título nesse histórico (a Recopa de 1993) está na sala de troféus do Tricolor – vitória só nos pênaltis após dois empates sem gols. A rivalidade é também uma das mais notáveis da era de pontos corridos do Campeonato Brasileiro, já que Cruzeiro e São Paulo são os maiores campeões nacionais do período, com três taças cada, e dividem constantemente as primeiras posições. Talvez o embate mais lembrado entre os dois adversários seja a final da Copa do Brasil de 2000, com os ídolos Sorín e Raí em campo. O São Paulo buscava seu primeiro título na competição, e estava levando com um empate por 1-1 no Mineirão (o jogo de ida havia terminado em 0-0). No último minuto, porém, o cruzeirense Geovanni cobrou uma falta perfeita, por baixo da barreira, e virou o jogo. O detalhe é que ele foi orientado para a batida pelo ex-são-paulino Müller, que vestia a camisa azul naquele dia.

7. Corinthians x Flamengo

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Não poderia ficar de fora o duelo entre os dois clubes com as maiores torcidas do país. Quando Corinthians e Flamengo se encontram, o calor das arquibancadas é garantido e tanto a Fiel quanto a Nação tornam-se personagens centrais e inescapáveis do confronto. Apesar desse fator nada irrelevante, essa rivalidade não sobe mais na lista por um motivo surpreendente: os dois times nunca protagonizaram grandes disputas diretas entre si. Batalharam em apenas uma final: a Supercopa do Brasil de 1991, segunda e última edição do torneio que reunia os campeões do Brasileiro e da Copa do Brasil do ano anterior. O Timão venceu com gol de Neto, após falha do goleiro Zé Carlos. Os rivais também se encontraram nas quartas-de-final de um Brasileiro (1984), uma Copa do Brasil (1989) e um Rio-São Paulo (1997), e nas oitavas da Libertadores de 2010. O Flamengo levou a melhor em quase todos esses episódios, só sofrendo a eliminação no Brasileiro. É parte da história da rivalidade, ainda, o Rio-São Paulo de 1958, ainda disputado em pontos corridos, no qual o Corinthians venceu o Flamengo na última rodada e praticamente tirou das mãos do adversário a taça, que ficou com o Vasco.

6. Palmeiras x Vasco

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Novamente um clássico entre colônias, desta vez os italianos de São Paulo contra os portugueses do Rio de Janeiro. Encontramos o primeiro duelo de grande porte na semifinal da Copa Rio de 1951, torneio reconhecido pela Fifa como antecessor do Mundial de Clubes. O eventual campeão Palmeiras, de Oberdan, Waldemar Fiúme e Jair, derrubou em dois jogos o Vasco ainda recheado de jogadores do Expresso da Vitória dos anos 1940. Meio século depois, também num palco internacional, os clubes tiveram outro embate marcante, que entrou para a história como um dos maiores jogos do futebol brasileiro. Foi na Copa Mercosul de 2000, cujo título só foi decidido no terceiro jogo, após uma vitória para cada lado. No antigo Palestra Itália, o Vasco de Mauro Galvão, Juninho Pernambucano e Romário virou no segundo tempo um jogo que perdia por 3-0. Foi um troco pelo Rio-São Paulo do mesmo ano, vencido pelo Palmeiras em cima dos cruzmaltinos com goleada. No saldo geral das finais disputadas, porém, o Vasco ainda leva a melhor, por ter superado os palmeirenses no Brasileiro de 1997. Além das decisões, o que abrilhanta a relação entre Palmeiras e Vasco é a idolatria compartilhada por um dos principais jogadores brasileiros do fim do século XX: Edmundo, herói de vários títulos com as duas camisas.

5. Internacional x São Paulo

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Muitos dos clássicos aqui listados têm uma história antiga, datada do futebol em preto e branco narrado por Fiori Gigliotti. A grande exceção é Inter x São Paulo, que foi praticamente todo construído no terceiro milênio. Não que não tenham existido momentos notáveis no passado – estiveram juntos no quadrangular final do Brasileiro de 1973, por exemplo. Mas é inegável que as batalhas nas Libertadores de 2006 e 2010 – ambas vencidas pelo Colorado – elevaram esse jogo a um novo patamar. Em 2006, Inter e São Paulo fizeram a segunda final consecutiva do torneio entre times brasileiros, e o time gaúcho impediu o Tricolor de ser bicampeão com duas performances dominantes, inclusive vencendo o primeiro jogo no Morumbi. Quatro anos depois o duelo foi pela semifinal, e novamente o Inter saiu vencedor, se bem que com um pouco mais de dificuldade. Nesses dois encontros, passaram pelos gramados ídolos dos dois clubes do calibre de Fernandão (que vestiu as duas camisas), Rogério Ceni, Lugano e D’Alessandro. Some-se a isso as frequentes disputas no topo da tabela nos Campeonatos Brasileiros de pontos corridos e temos aí uma das maiores rivalidades modernas do futebol nacional.

4. Cruzeiro x Internacional

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Desenterre sua calça boca-de-sino e sua saia flower power porque vamos mergulhar nos anos 1970, quando Cruzeiro e Internacional ostentavam os melhores esquadrões do futebol brasileiro e, durante alguns anos, dominaram o cenário como jamais uma dupla fora do eixo Rio-São Paulo faria de novo. Em 74 eles participaram juntos do quadrangular final do Brasileiro, com o time celeste sendo vice do Vasco. Em 75, fizeram a final do campeonato, em jogo único vencido pelo Inter com o famoso “gol iluminado” do xerife Elías Figueroa. A desforra cruzeirense viria já no ano seguinte, eliminando o Colorado da fase de grupos da Libertadores, com direito a um jogo de ida épico, do qual falei aqui. O Cruzeiro seria campeão continental e o Inter alcançaria o bi nacional, o que credenciou ambos para voltar à Libertadores em 77, quando voltaram a se pegar na segunda fase de grupos – de novo, melhor para o time mineiro. Os nomes que desfilaram por esse confronto naqueles dias – Falcão, Piazza, Figueroa, Palhinha, Valdomiro, Nelinho… – já são o suficiente para elevá-lo a um dos maiores de todos os tempos. E olha que nem mencionei os Brasileiros de 1987 (semi, Inter) e 2000 (quartas, Cruzeiro).

3. Botafogo x Santos

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Gostou dos anos 1970? Então vamos voltar mais uma década. É lá que encontramos as raízes do clássico Botafogo x Santos, que salta para o top 3 desta lista apenas pelo nível dos craques que se enfileiravam diante uns dos outros sempre que os dois times se encontravam entre os anos 1950 e 1960. Veja a foto acima e tente não permitir que a radiação mitológica que dela emana derreta seus olhos. Estamos falando da base da seleção naquele que foi, possivelmente, o melhor momento da história do futebol brasileiro. Eu poderia até deixar para lá os jogos em si, mas seria uma injustiça com a final da Taça Brasil de 1962, por exemplo, que foi decidida a favor do Santos em três grandes partidas. Ou com a semifinal da Libertadores de 1963, que já veio aqui para o blog. Ou com o Rio-São Paulo de 1964, cuja taça acabou dividida porque os times ficaram empatados em pontos e não houve datas para jogos de desempate (aconteceu só o primeiro, que terminou com vitória do Botafogo e três expulsões, incluindo Pelé e Manga). Os clubes passaram maus bocados por algum tempo depois dessa fase áurea, mas reviveram os bons dias na final do Brasileiro de 1995, quando o Botafogo de Túlio superou o Santos de Giovanni.

2. Corinthians x Fluminense

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Você deve ter percebido uma semelhança geral entre os clássicos desta lista até agora: cada um deles teve um momento de auge, um intervalo de anos em que os dois times em questão estavam particularmente bem e se encontravam com frequência em jogos decisivos. Corinthians x Fluminense ganha terreno sobre as outras por se diferenciar justamente nisso: teve diversos pontos de conflito acentuado ao longo da história, o que torna esta uma das rivalidades interestaduais mais frequentemente renovadas. Um desses pontos é bem recente: os dois times brigaram bem de perto pelo título do Brasileiro de 2010, que ficou nas mãos do Tricolor carioca. Outros Brasileiros da história tiveram Flu e Timão como protagonistas de semifinais: encontraram-se em 2002 (deu Corinthians), 1984 (deu Fluminense) e, no maior de todos os jogos entre eles, 1976. Foi quando a torcida corintiana protagonizou a famosa invasão do Maracanã, botando 70.000 fiéis na casa do adversário para ajudar o time a derrubar o esquadrão da Máquina Tricolor, que era favorito. A Máquina, aliás, contava com Rivellino, ex-ídolo alvinegro que deixara o time paulista a pontapés por não conseguir quebrar o jejum de títulos que assombrava o Parque São Jorge – e estreara pelo Flu no ano anterior com três gols sobre o ex-clube. Anos antes, o Fluminense havia perdido dois Rio-São Paulo graças ao Corinthians, que levou em 1954 e evitou que o rival fosse campeão em 1952 vencendo-o na última rodada. Porém, no mesmo 52, poucos meses depois, o Fluminense conquistaria a Copa Rio ao derrotar na final justamente quem? Pois é. Eu disse que eram muitos acontecimentos.

1. Atlético Mineiro x Flamengo

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Sabe o que faltou para a maioria das rivalidades que ficaram para trás? Uma boa de uma briga. Justamente por isso Atlético e Flamengo garantem o topo. As controvérsias que rodearam a final do Campeonato Brasileiro de 1980 e o jogo-desempate da Libertadores de 1981 marcam a relação entre os dois times até hoje. Para a torcida atleticana, derrotar o Flamengo é um prazer que vale mais do que apenas os três pontos. Os flamenguistas, por sua vez, têm um infalível ingrediente para provocações. E não são esses fatores que caracterizam uma verdadeira rivalidade? Ambos os confrontos vencidos pelo time carioca e tiveram arbitragem polêmica, com várias expulsões contestadas de jogadores atleticanos que inviabilizaram a reação do Galo – que era bem possível, visto que o escudo do clube era defendido naqueles tempos por Reinaldo, Cerezo, Éder e muitos outros. O Flamengo triunfante era o de Zico e Júnior, e certamente teria sido muito menos celebrado se não tivesse batido um adversário de tamanha qualidade – apesar dos dramas do apito, claro. Os times ainda se encontrariam em outros momentos importantes mais tarde. Em 1987, o Flamengo bateu o Atlético na semifinal do Brasileiro, rumo ao título da famigerada Copa União. O Galo pôde sentir um pouco do gosto da vingança em 2014, ao derrubar o Fla na semifinal da Copa do Brasil com uma gigantesca recuperação no jogo de volta. Mas nenhuma vitória apaga a lembrança daqueles embates dos anos 1980, que sempre estarão vivos para ambos os lados, como testemunho da maior rivalidade interestadual do futebol brasileiro.

11 jogadores conhecidos por um único lance

Tornar-se famoso no concorrido mundo do futebol não é fácil. Mesmo anos de treino e trabalho podem acabar reduzidos a uma carreira sem brilho, recordada apenas em algum almanaque muitíssimo especializado. Entrar na consciência coletiva dos torcedores requer, além de muito talento, uma boa dose de sorte. Portanto, não surpreende que alguns atletas que conseguem ter seus instantes de maior renome não têm a sorte de repeti-los.

Esses jogadores acabam reconhecidos, para a posteridade, como atores principais de momentos muito específicos, e nada mais. Caso sejam citados nas enciclopédias do futebol, será certamente a partir desses eventos, que se tornam o fato definidor e justificador de suas trajetórias. Para o bem ou para o mal.

Aqui estão 11 dos mais celebrizados one-hit wonders do futebol brasileiro.

11. Guinei foi o primeiro vilão do Corinthians na Libertadores

O Corinthians tem uma longa e (nada) nobre linhagem de jogadores que falham e prejudicam o time em momentos cruciais na Libertadores. Agora que o clube já venceu o torneio essa memória não é tão pesada, mas, antes do título de 2012, cada mata-mata continental corintiano era um exercício em tentar adivinhar quem botaria água no chope. E tudo começou em 1991, na segunda Libertadores disputada pelo Corinthians, com o jovem zagueiro Guinei. Revelado pelo São Bento, ele fora titular na conquista do Brasileiro do ano anterior e era uma promessa alvinegra. No segundo jogo das oitavas-de-final contra o Boca Juniors, com 0-0 no placar e já no segundo tempo, o beque pestanejou ao dominar uma bola fácil na lateral-esquerda e a perdeu para Alfredo Graciani, que marcou. O detalhe é que Guinei já havia falhado em dois gols xeneizes no jogo de ida, que o Corinthians perdera por 3-1. Mas uma coisa é vacilar na Bombonera, outra é diante da Fiel. Com a eliminação (o placar final foi de 1-1), o jogador foi ostracizado. Rodou por times de todo o país e sumiu, mas é sempre lembrado como o primeiro bode expiatório do Corinthians em uma Libertadores.

10. Dalmo deu o bi mundial ao Santos

Não houve time brasileiro igual ao Santos dos anos 1960. Abrilhantavam o esquadrão os nomes de Pelé, Gilmar, Zito, Pepe, Mauro, Coutinho e… Dalmo. O lateral-esquerdo, com passagens também por Paulista e Guarani, foi provavelmente o mais anônimo herói santista dos anos dourados do clube. Mas era titular absoluto da defesa e autografou um dos principais momentos daquela história. Em 1963 o Santos conquistou o bi da Libertadores e o direito de defender o título mundial. O adversário era o Milan, que venceu o primeiro jogo em casa, por 4-2. Mesmo sem Pelé e Zito, machucados, o time conseguiu devolver o placar no Brasil – diga-se de passagem, em grande jogo, arrancando a virada após sair perdendo por 2-0 num dia chuvoso, com o campo enlameado. As regras do tempo previam um jogo-desempate, que foi disputado no Maracanã. Aos 30 do primeiro tempo da “nega”, pênalti para o Santos. Na ausência do Rei, quem pegou a bola foi Dalmo, que era um grande batedor (algumas fontes o creditam como inventor da paradinha). De perna direita (curiosamente era destro), colocou no cantinho, fora do alcance do goleiro Luigi Balzarini, e fez o gol do título. Falecido no início deste ano, Dalmo teve ali seu momento único de protagonismo no maior time do futebol brasileiro em todos os tempos.

9. e 8. Valido empurrou Argemiro. Ou não?

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Dois em um! É impossível não ligar esses nomes numa lista como esta, porque eles compartilham o lance que os notabilizou. Flamengo e Vasco disputavam o jogo final do Campeonato Carioca de 1944. Os rubro-negros perseguiam um inédito tricampeonato, enquanto o clube da Colina buscava acabar com um jejum de sete anos. O empate dava a taça ao Vasco. Com a linha ofensiva em pandarecos (Perácio fora, Zizinho, Pirillo e Modesto Bria baleados), o Flamengo apostava suas fichas no ponta-direita argentino Agustín Valido. Ele fora um importante personagem do clube em anos anteriores, mas encontrava-se aposentado havia mais de um ano – voltou excepcionalmente para a fase final do estadual a pedido dos cartolas. Faltando quatro minutos para o fim do jogo do segundo tempo, com o placar intocado e o título se encaminhando para São Januário, uma bola é levantada na área e Valido salta. Quem o marca é o médio Argemiro, jogador que despontara na Portuguesa Santista e até fez parte do elenco da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938, como reserva (participou de um jogo). Valido chega na bola primeiro e cabeceia para dentro. Argemiro, indignado, denuncia que o argentino se valeu de um empurrão. As fotos do lance mostram, de fato, a mão de Valido nas costas do adversário no momento do salto – mas o gol foi confirmado. Flamengo tricampeão, Vasco inconformado, fim de uma das mais memoráveis decisões de um Carioca e polêmica estabelecida para as futuras gerações.

7. Galatto virou a Batalha dos Aflitos

A epopeia do Grêmio para sair da segunda divisão em 2005 é fartamente conhecida e documentada. Quadrangular final, última rodada, jogo contra o Náutico no Estádio dos Aflitos. Quem ganhar sobe e o empate é tricolor, mas o time tem um homem a menos e pênalti contra aos 35 do segundo tempo. Na confusão após a marcação, mais três jogadores gremistas são avermelhados. A partida fica interrompida por quase meia hora e a torcida timbu sobe a pressão nas arquibancadas. Bola na rede é vitória certa do time da casa, porque o Grêmio não teria como reagir com sete em campo e emocionalmente esfarrapado. Você, claro, sabe que o Náutico perdeu o pênalti e, na sequência, Anderson fez o gol que deu ao Grêmio a partida, o título da Série B e o acesso. Do inferno ao céu em questão de segundos. E ponto de virada desse cenário todo, o momento em que a maré tornou a estar a favor dos gaúchos foi responsabilidade do goleiro Galatto. Então com 22 anos, produto das categorias de base tricolores, ele defendeu com os pés a cobrança do lateral Ademar e deu nova vida ao time. Revigorado, o Grêmio buscou o gol. Galatto se consagrou ali. Nos anos seguintes, porém, não se firmou no time, teve algum sucesso com o Atlético Paranaense sem brilhar e depois colecionou várias camisas. Ainda joga (defende o Juventude), mas será eternamente o goleiro da Batalha dos Aflitos.

6. Nildo evitou o gol 1000 de Pelé

A Fonte Nova registrou em 1969 o possível único caso na história do futebol de um zagueiro que é vaiado pela própria torcida por evitar um gol do adversário. O Brasil vivia a contagem regressiva para o milésimo gol da carreira de Pelé. A cada jogo do Santos, todas as atenções se voltavam para onde quer que o time estivesse, na esperança de que o camisa 10 botasse mais bolas para dentro e chegasse cada vez mais perto da marca milenar. Em partida válida pelo Robertão daquele ano, o time paulista foi a Salvador enfrentar o Bahia – e Pelé tinha 999. Tão querido era o Rei pelos torcedores do Brasil inteiro e tão histórico era o momento que até mesmo os tricolores presentes dedicavam algumas preces à possibilidade de testemunharem in loco o gol mil. E ele quase veio. Uma bola sobrou para Pelé na área após uma bobeada da defesa. Ele deu uma finta de corpo num zagueiro, driblou o goleiro e empurrou para as redes desguardadas. Todos se erguem dos assentos. Eis que surge em disparada o outro beque, Nildo, apelidado de Birro Doido, campeão estadual com o Bahia em 1967. Na velocidade, ele esticou a perna esquerda e bloqueou a trajetória da bola, evitando o milésimo por milímetros. Fez o seu trabalho com louvor e… tomou uma senhora descompostura do estádio inteiro. O Bahia foi o auge da carreira de Nildo, e adiar o grande feito do rei do futebol foi o seu cartão de visitas para sempre.

5. Anselmo lavou a alma dos flamenguistas

A Libertadores ainda é um torneio rústico, para dizer o mínimo, mas já foi bem mais indomável. Em 1981, Flamengo e Cobreloa disputaram a final. O time de Zico tinha mais bola, mas o adversário chileno tinha o zagueiro Mario Soto, notório açougueiro em campo. Depois de o Flamengo levar o primeiro jogo, no Maracanã, o Cobreloa assegurou sua sobrevivência com uma vitória magra em Santiago, ajudada pelas agressões de Soto a Adílio e Lico – o último teria que ficar fora do jogo de desempate. Reza a lenda que o beque usava uma pedra para golpear os oponentes, e que até o ditador Augusto Pinochet, presente ao estádio, teria se espantado com a violência do conterrâneo. O título seria decidido em Montevidéu, e o Flamengo fez valer a sua superioridade. Resolvida a taça, faltava resolver Mario Soto. O técnico Carpegiani chamou o centroavante reserva Anselmo e colocou-o em campo nos minutos finais com apenas uma ordem: “Vai lá e quebra ele”. Missão dada é missão cumprida. Foi direto a Soto e sentou-lhe a mão na cabeça sem hesitação ou disfarce – e, como definiria Júnior anos depois, “com a força de 15 milhões de flamenguistas”. O chileno caiu nocauteado e Anselmo foi prontamente expulso. Voltou ao Brasil festejado pela massa rubro-negra como o vingador da Libertadores. Ficou no Flamengo até o ano seguinte apenas e depois viveu bom momento no Ceará. Mas fez sua fama mais com o punho do que com os pés.

4. Héverton rebaixou a Portuguesa só pisando no gramado

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Como vimos no caso de Anselmo, é possível que o lance mais notório de um jogador não envolva nem tocar na bola. o volante Héverton, de passagens pouco momentosas por Corinthians e Vitória, é um exemplo mais extremo disso. Quando defendia a Portuguesa, em 2013, mudou os rumos do Campeonato Brasileiro e do seu time apenas entrando em campo na última rodada. Vamos por partes. Duas semanas antes, ele havia tomado cartão vermelho após o apito final do jogo contra o Bahia por ofensas ao árbitro. Cumpriu suspensão automática na rodada seguinte, mas um julgamento no STJD condenou-o a duas partidas fora. O problema é que a decisão foi tomada na sexta-feira antes da rodada final do torneio e só foi publicada na segunda-feira posterior. Assim, quando a Portuguesa entrou em campo para seu último compromisso, contra o Grêmio, não tinha conhecimento de que Héverton não poderia jogar. O atleta, que começou no banco, entrou no segundo tempo. Com isso, destinou a Lusa a perder os pontos da partida, que a teriam salvo do rebaixamento. Seguiu-se uma controversa batalha judicial que fez de Héverton pivô de um caso de “tapetão” que o futebol brasileiro não presenciava havia anos. Constrangido, ele até quis se aposentar, mas acabou indo para o Paysandu, e depois para times de menor expressão. Novas informações surgiriam tempos depois, dando conta de que a diretoria da Portuguesa na época teria conhecimento da situação do jogador e escalou-o de propósito, supostamente por vantagens financeiras para os cartolas. Tudo ainda é nebuloso, e marcará permanentemente a carreira do volante.

3. Márcio Nunes quebrou Zico antes de uma Copa do Mundo

O lateral-direito Márcio Nunes teve uma carreira curta, quase toda dedicada ao Bangu. Defendeu o time na fase áurea dos anos 1980, e era titular do vice-campeonato brasileiro de 1985. E é tido como um dos maiores estraga-prazeres do futebol brasileiro. No Carioca de 85, em partida contra o Flamengo, o defensor entrou em uma dividida com Zico, recém-retornado da Udinese para os braços da torcida rubro-negra. A bola ficou em segundo plano. Márcio Nunes saltou com o corpo completamente na horizontal, as duas pernas espetadas para frente e as travas das chuteiras em exposição, atingindo o adversário em cheio. Zico não levantou mais, e o banguense foi expulso. O saldo da entrada violenta para o craque do Flamengo foram dois joelhos e um tornozelo torcidos, uma fíbula contundida, escoriações na perna, três cirurgias e meses fora de campo. O pior é que não foi só a torcida do Flamengo que fez de Márcio Nunes inimigo juramentado. A gravidade dos ferimentos pôs em dúvida a participação de Zico no Copa do Mundo de 1986, o que abalou todos os torcedores brasileiros. De fato, o camisa 10 da seleção não foi ao México 100%, e o país creditou a perda de mais uma Copa ao defensor do Bangu. Márcio Nunes recebeu o perdão de Zico, mas o lance o abalou profundamente. Ah, e lembra que eu disse que a carreira dele foi curta? Foi porque aos 25 anos sofreu entrada semelhante, rompeu os ligamentos de um joelho e teve que se aposentar forçadamente.

2. Adriano Gabiru derrubou o Barcelona

O caso de Gabiru é bastante peculiar entre os outros nomes aqui elencados. Até aqui, estivemos falando de jogadores que foram alçados a um status inédito por seus lances famosos. O meia alagoano, porém, já tinha alguma notabilidade antes do seu momento de glória – foi titular do Atlético Paranaense campeão brasileiro de 2001, virou ídolo da torcida e chegou a ser convocado para a seleção. Porém, uma vez escrito na história o acontecimento que vamos relembrar, tudo mais ficou desimportante. Hoje, ninguém consegue falar de Adriano Gabiru sem lembrar, quase que exclusivamente, daquele gol. E que gol foi. Em 2006, o Internacional conquistou a América e se qualificou para disputar o Mundial de Clubes, onde também estaria o poderoso Barcelona de Ronaldinho (que vinha de dois prêmio de melhor do mundo). O elenco colorado estava bem provido de opções ofensivas: Fernandão, Iarley, Alex, os garotos Alexandre Pato e Luiz Adriano. Acuados em campo contra os favoritos catalães, nenhum deles incomodou muito. Já passava da metade do segundo tempo quando Gabiru entrou. Logo ele, que vinha desagradando a torcida ao longo de todo o ano. Minutos depois, um rápido contra-ataque conduzido por Iarley achou o meia disparado pela esquerda. Ele bateu colocado e achou as redes. Virou instantaneamente herói, reconciliado com os torcedores. Afinal, foram duas alegrias: levar o título mundial inédito em cima de um grande adversário e frustrar Ronaldinho, cria do arquirrival Grêmio. O Gabiru jogador deixou o Inter pouco depois, circulou entre clubes médios e perdeu espaço no cenário principal. O Gabiru ídolo permanece no Beira-Rio e na memória coletiva.

1. Cocada fez o gol do Cocada

O primeiro lugar desta lista fica com o jogador que serviu de inspiração para ela. O Vasco conquistou em 1988 um bicampeonato carioca que não conseguia alcançar havia 38 anos, e sempre que esse título é mencionado fala-se que foi o jogo do “gol do Cocada”. O jogador é tão amarrado ao lance que acabou por batizá-lo, e se você conseguir me dizer qualquer outra coisa sobre Cocada, ganha um doce (uma cocada, quem sabe). Irmão menos famoso do atacante Müller, Cocada foi lateral-direito e reserva profissional. Teve uma passagem esquecível (e esquecida) pelo Flamengo, e depois seguiu para o Vasco. A decisão do Carioca de 88 foi entre os dois times. O jogo ia se encaminhando para terminar em 0-0, placar que já garantia o bi cruzmaltino, quando Cocada substituiu o ponta Vivinho. Aos 44 do segundo tempo, depois de uma roubada de bola, o lateral foi lançado em velocidade, cruzou o campo de ataque e disparou uma bomba do bico da grande área, acertando o ângulo. Gol que sacramentava o triunfo. Na comemoração, Cocada correu para o banco do Flamengo e provocou o técnico Carlinhos, que o dispensara do clube rubro-negro anos antes. Acabou expulso e iniciou uma briga generalizada entre os dois times. Ao fim da peleja, o jogador de uma gaiata entrevista em que “previu” que entraria para os anais por seus feitos naquele dia. Na mosca. Então ficamos assim: Cocada entrou no radar do futebol brasileiro numa noite de junho de 1988. Fez um gol histórico. Tomou um cartão vermelho. Provocou um pega-pra-capar. Foi campeão. Tudo em quatro minutos. E nunca mais foi visto. Fim.

As 11 melhores capas de jornal sobre o 7 a 1

Há exatamente um ano, a seleção brasileira…

Quer saber? Não precisa lembrar da história.

Aqui estão as 11 melhores capas de jornal sobre aquele dia.

11. A Bola (Portugal)

Único jornal gringo, mas eu não podia perder o trocadilho. A foto de David Luiz, símbolo daquela derrota, é forte: tristeza, vergonha, o gesto que tenta pedir desculpas.

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10. Jornal NH (RS)

Quando confrontados com um acontecimento tão chocante e sem precedentes, nosso grande desafio é encontrar palavras para contar a história. O jornal de Novo Hamburgo fez da própria indescritibilidade as suas palavras. Se não tivesse complementado com o texto de baixo, ficaria ainda melhor.

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9. O Dia (RJ)

Fale a verdade, foto mais do que oportuna. Muitos usaram, mas só aqui ela tomou a capa inteira. A manchete faz referência a uma declaração do próprio Felipão em entrevista coletiva alguns dias antes, e reflete a desintegração da figura do técnico, muito querido pelos brasileiros até a segunda passagem pela seleção.

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8. A Tarde (BA)

Capa limpa é sempre bom, e a ideia do obituário tem que ser representada nesta lista – melhor que seja na versão com as datas, mais bem sacada. Eu tiraria o “em 2014”, mas isso é picuinha minha.

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7. Lance! (RJ e SP)

A ideia da “tábula rasa” é muito boa, mas a execução sofre um pouco pelo excesso de palavras hiperbólicas (pecado, aliás, cometido por muitos e muitos jornais, dado o calor do momento).

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6. Extra (RJ)

Lembrar a seleção de 50 é clichê? É sim! Mas pode? PODE MUITO!

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5. O Vale (SP)

Eu confesso, sou fã de editoriais na capa. É uma prática que deve ser usada com parcimônia e sabedoria, claro, mas justamente por isso acho que ela fortalece o jornal e ressalta mais marcadamente, na história documental, os grandes eventos.

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4. Diário Catarinense (SC)

Combinação perfeita: uma foto auto-explicativa sozinha na página e sem muitas palavras por cima, apenas o necessário para dar o tom da cobertura. Perde alguns pontinhos pela falta do ponto de interrogação (sou desses) e pelo fato de que a imagem não é local.

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3. Gazeta do Povo (PR)

A melhor foto de torcida daquele dia, na minha opinião. A manchete acerta três vezes: economia de palavras, força dramática e oportunismo com a expressão oficial da Copa.

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2. Metro (Nacional)

A foto é originalmente da Folha de S.Paulo, mas lá ela aparece menor e rodeada de outras manchetes, já que o tradicional diário paulistano preferiu não dar a capa toda só para o jogo. O Metro valorizou melhor a imagem.

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Legenda da foto: “Para não esquecer: placar de Brasil x Alemanha no Mineirão, às 19h17 de ontem”

1. Meia Hora (RJ)

Merecida vencedora de um Prêmio Esso, e ostentando a típica criatividade molecona do Meia Hora. Nada mais a tratar. Apenas aprecie.

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Os 11 cartolas que mais fizeram cartolices

O cartola é uma figura essencial do futebol brasileiro. Aquele dirigente falastrão, paternalista, aferrado ao poder, nada profissional, metido em maracutaias e politicagens. Que vê seu clube como uma extensão de si mesmo e faz de tudo para levá-lo ao sucesso, em parte por paixão de torcedor e em parte por vaidade pessoal. Há também a variedade que comanda entidades, e que compensa com mais despotismo o que não pode ter de títulos.

A categoria está em alta. Cartolas tupiniquins exercem alguns dos principais papéis na investigação que está fazendo a casa da FIFA cair como nenhuma outra casa jamais caiu antes. É o Brasil fazendo bonito na primeira divisão da criminalidade internacional. Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo del Nero são a geração de ouro da nossa cartolagem, os nossos Gullit-Rijkaard-Van Basten de terno e gravata.

Em homenagem a eles, vamos recordar os maiores representantes do ofício na história do futebol brasileiro. A trinca de ouro atualmente ocupando manchetes policiais em todo o planeta vira hors concours aqui, senão não teria graça. Fica como café-com-leite também o grande capo da famiglia FIFA, o inabalável João Havelange, que é o bode na sala do escândalo. Noves fora esse hall da fama, eis a nata da dirigência boleira nacional.

11. Carlito Rocha (Botafogo)

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Carlito Rocha é uma exceção nesta lista pelo fato de que não se metia em delinquências. Fora esse detalhe, preenchia ao extremo todos os outros requisitos da cartolagem e era particularmente talentoso em uma característica: a excentricidade. Era supersticioso ao ponto de parecer lunático. Foi jogador e técnico do Botafogo, mas foi na condição de presidente do clube, entre 1948 e 1951, que mais se celebrizou. Mandava dar nós nas cortinas da sede social como forma de azarar as pernas dos adversários, recusava-se a estar dentro de um carro que desse ré por achar que era má sorte e carregava consigo um alfinete de fralda repleto de medalhinhas de santos. Em sua gestão, o Botafogo arrancou o Campeonato Carioca de 1948 das mãos do Vasco, que era, na época, o melhor time do Rio de Janeiro e base da seleção brasileira. Uma das contribuições mais longevas do dirigente ao clube de General Severiano foi o cachorro Biriba, adotado como mascote. O animalzinho, que pertencia ao zagueiro Macaé, invadiu o campo durante uma partida de aspirantes que o Botafogo acabou por vencer. Dali em diante, Carlito só entrava no estádio com Biriba em punho.

10. Laudo Natel (São Paulo)

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O ponto de partida para os cartolas metidos em práticas escusas é com o ex-governador de São Paulo e ex-presidente do São Paulo Laudo Natel, um dos principais responsáveis pela construção do estádio do Morumbi – através de manobras no mínimo duvidosas. Natel presidiu o Tricolor entre 1958 e 1971, justamente o intervalo durante o qual foi erguida a obra. Durante esse período, acumulou por alguns anos o cargo com o posto de vice-governador do estado (justiça seja feita, licenciou-se do clube sempre que assumiu a titularidade do governo, uma vez pela cassação de Adhemar de Barros e outra por eleição indireta). Também ocupou um assento na diretoria do Bradesco, que usou para facilitar a obtenção de créditos e títulos para o São Paulo. Jamais ficou claro se aproveitou suas posições políticas para beneficiar diretamente o clube, mas a cessão do terreno onde se encontra o estádio é envolta em mistério até hoje, e as boas conexões de Laudo Natel, combinadas com sua longeva presidência, contribuem para tornar a história toda ainda mais suspeita.

9. Andrés Sanchez (Corinthians, CBF)

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Atravessando a cidade de São Paulo, chegamos ao Corinthians e a Andrés Sanchez, um cartola dos novos tempos. Envolvido em políticas clubísticas desde cedo (foi fundador da torcida organizada Pavilhão Nove), Sanchez assumiu a presidência em 2007 e conduziu o Timão no renascimento pós-rebaixamento. Sua grande obra foi a construção do Itaquerão, feito que alcançou através de sua amizade com Lula, então presidente da República. O financiamento da Caixa Econômica Federal, as isenções tributárias concedidas e a briga política para colocar o novo estádio na Copa do Mundo (e assim justificar sua construção) são os rastros deixados pelas relações perigosas de Andrés Sanchez no caminho para a realização do projeto da casa própria do Corinthians. Aliado de primeira hora de Ricardo Teixeira, conseguiu rachar o Clube dos 13 no meio de uma negociação de direitos de televisão que prometia ser histórica, tudo para ajudar o status quo da CBF. Chegou a diretor de seleções e tinha tudo para suceder Teixeira, mas a renúncia do mentor mudou o cenário e ele perdeu força. Hoje é deputado federal e ainda vai aprontar muito.

8. Vicente Matheus (Corinthians)

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Outro que não sujou o nome com falcatruas, Vicente Matheus sobe na lista pela excelência nos critérios “longevidade” e “boca grande”, além da entrega carnal que tinha pelo Corinthians. Diretor de futebol no auge do sucesso do time nos anos 1950, foi presidente por 16 anos, ao longo de oito mandatos que abrangeram porções de quatro décadas diferentes – e ainda emplacou a esposa, Marlene, em uma eleição. Na sua gestão foi quebrado o tabu de 23 anos sem títulos, e foi com ele que o Timão conquistou o Campeonato Brasileiro pela primeira vez. Matheus investia (muito) dinheiro do próprio bolso para financiar o clube (prática adotada por vários cartolas hoje) e bancou o crescimento da Gaviões da Fiel, que ganhou muita influência na política interna corintiana graças a seu apoio. Talvez seja mais conhecido do grande público como frasista desastrado. São de sua autoria pérolas como “O Sócrates é inegociável, invendável e imprestável”; “Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático”; “Comigo ou sem migo o Corinthians vais ser campeão”; e “O difícil, vocês sabem, não é fácil”.

7. Eduardo José Farah (FPF)

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Como eu disse, existem cartolas que fazem fama não liderando clubes, mas comandando federações, regendo campeonatos e moldando o cenário do futebol nacional de forma mais ampla. É o caso de Eduardo José Farah, que foi presidente do Guarani no fim dos anos 60 mas ganhou fama mesmo em seus 15 anos como mandatário da Federação Paulista de Futebol, entre 1988 e 2003. Sua longa gestão foi marcada por invencionices que tiveram vida curta, como as disputas de pênaltis para desfazer todos os empates e a escalação de dois juízes por partida. Farah também investiu na importação de árbitros estrangeiros para apitar jogos do Paulista, iniciativa que culminou na infame performance do argentino Javier Castrilli na semifinal de 1998, entre Corinthians e Portuguesa. No mesmo ano, bolou o bizarro “Disque-Marcelinho”: a FPF comprou o passe de Marcelinho Carioca do Valencia e promoveu uma votação telefônica entre as torcidas para decidir qual clube ficaria com o meia (ganhou o Corinthians). Uma ideia do cartola que pegou foi a adoção do spray dos árbitros – que foi por muito tempo visto como uma excentricidade. Farah também ficou marcado por denúncias de sonegação, evasão de divisas e desvio de recursos da Federação, e pela campanha que fez contra as torcidas organizadas. Sua presidência baniu os bandeirões, proibição que vigora até hoje no futebol paulista e que deixa os estádios menos festivos.

6. Caixa D’Água (FERJ)

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Enquanto Farah reinava em São Paulo, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro vivia sob o jugo de Eduardo Vianna, mais conhecido pelo apelido de “Caixa D’Água” (recebido nos tempos de estudante, quando ia aos bebedouros da escola paquerar as colegas). Homem de muita instrução e cultura, usou toda a sua inteligência para reinar por 22 anos na FERJ, escorado na base eleitoral das inúmeras ligas amadoras do Rio. Assumiu a Federação em 1984 e só deixou o posto graças à pequena inconveniência de seu falecimento em 2006. Carregou nas costas denúncias de formação de quadrilha, estelionato e falsidade ideológica, foi acusado de desviar receitas de bilheteria do Maracanã e chegou a ser afastado judicialmente do cargo por duas vezes, mas sempre conseguiu voltar. Bancou viradas de mesa no Campeonato Brasileiro quando elas beneficiaram times cariocas, e também aprontou das suas no campeonato estadual local. O Carioca de 2002, eternizado como “Caixão”, foi uma odisseia que só terminou sete anos depois nos tribunais, em meio a mudanças no regulamento e polêmicas de arbitragem. Curiosamente, um dos prejudicados naquele certame foi o Americano, clube do coração de Caixa D’Água, a quem ele era constantemente acusado de beneficiar.

5. Nabi Abi Chedid (Bragantino, CBF)

FUTEBOL - HISTÓRIA DO BRAGANTINO

Membro mais notável da família que colocou o Bragantino no mapa do futebol nacional, o libanês de nascimento Nabi Abi Chedid foi presidente entre 1959 e 1977, e em sua gestão o clube conquistou pela primeira vez o acesso para a elite do Campeonato Paulista. Os anos dourados no início da década de 90, com título estadual e vice Brasileiro, foram sob os auspícios de seu irmão Jesus (sim), mas Nabi era patrono e comandava o futebol. Suas atenções, porém, estavam divididas com voos mais altos. Sua carreira passou por todos os níveis da cartolagem: do Bragantino foi para a presidência da FPF, entre 1979 e 1982, e de lá ambicionou a CBF. Em 1986, ano de eleição na entidade, o cenário eleitoral projetava um rigoroso empate entre Nabi e o candidato da situação, Medrado Dias (havia número par de federações na época). Sedento pela vitória, o cartola apelou a uma manobra: como o estatuto da CBF previa a vitória do candidato mais velho em caso de igualdade de votos, Nabi inverteu a chapa com seu vice, o sexagenário presidente da FERJ Octávio Pinto Guimarães. O detalhe, que faria Frank Underwood corar, é que Nabi apostava que o câncer que acometia Guimarães deixaria a presidência vaga em breve. Não foi o que aconteceu. O novo mandatário cumpriu o mandato e faleceu cerca de um ano após o fim, deixando seu ávido vice de mãos abanando. Modo de dizer, claro, pois o cartola continuou influente em todos os níveis do futebol e deteve mandatos de deputado estadual durante toda a vida adulta, até sua morte em 2006. O estádio do Bragantino foi rebatizado em sua homenagem graças ao atual presidente, Marquinho Chedid – seu filho, que sucedeu Jesus e está no posto há quase 20 anos.

4. Rivadávia Corrêa Meyer (AMEA, CBD)

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Hora de voltar bastante no tempo e revisitar os primórdios do futebol brasileiro, quando o amadorismo ainda vigorava e ser jogador não era uma profissão. Esses tempos teriam durado para sempre se dependesse de Rivadávia Corrêa Meyer. Ligado ao Botafogo, onde fora atleta e dirigente, detinha a presidência da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA) do Rio de Janeiro no início dos anos 30, quando esquentou no país a disputa entre os puristas do esporte amador e os defensores da profissionalização. Rivadávia era capitão do primeiro time. Considerava que pagar alguém para jogar futebol era indigno, e até chamou publicamente os atletas que reivindicavam salário e reconhecimento profissional de “gigolôs”. Lutava uma causa perdida, pois tinha o apoio apenas de seu Botafogo, do Flamengo e de clubes pequenos (do outro lado estavam Fluminense, Vasco, América, Bangu e, eventualmente, a própria CBD). Mas conseguiu provocar uma cisão no futebol carioca, que forçou o surgimento de uma liga paralela e acabaria por sepultar a AMEA. Depois disso, presidiu a CBD entre 1943 e 1955, ou seja, durante a Copa do Mundo de 1950, no Brasil. No calor do torneio, expôs a seleção às hostes de políticos que quiseram tirar vantagem do contato com os jogadores e permitiu o oba-oba sobre o time, inclusive com manchetes de jornal proclamando os brasileiros campeões antes mesmo do jogo final. Deu no que deu. Sua presidência também organizou um torneio internacional de clubes, a Copa Rio, que, em sua terceira e última edição, foi batizado com o nome do próprio Rivadávia. Modéstia não era o seu forte.

3. Castor de Andrade (Bangu)

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Muitos cartolas têm as ilicitudes como, digamos, negócios paralelos. Castor de Andrade, patrono e benemérito eterno do Bangu, fazia diferente: o crime era seu meio de vida. Herdou do pai um dos maiores impérios de jogo do bicho do Rio de Janeiro e conseguiu a proeza de expandi-lo. Virou um dos homens mais poderosos do estado e circulava entre as elites nacionais, ganhando reverência até do ex-presidente João Figueiredo. Nunca assumiu formalmente nenhum cargo na diretoria do seu clube do coração, mas fez de absolutamente tudo para ajudar o Bangu: usou dinheiro da contravenção para bancar o elenco, subornou árbitros, fez fluir propinas, supostamente botou na gaveta até jogadores adversários quando foi conveniente. Durante mais de 30 anos exerceu sua influência, período no qual o time alvirrubro teve suas maiores glórias: finalista do Carioca por quatro temporadas seguidas, campeão em 1966, vice-campeão brasileiro em 1985. O poder de Castor de Andrade fez-se evidente até mesmo na escolha do mascote oficial do Bangu, em 1981: justamente o animal que batiza o bicheiro. Quem procurar a história do cartola no site do clube vai perceber uma reverência quase religiosa. Os registros falam em “melhor amigo e salvador” do Bangu, “acima do bem e do mal”, e não fazem a menor questão de disfarçar o império mafioso de Castor – pelo contrário, enaltecem-no. O bicheiro também tinha envolvimento no Carnaval: patrocinou a Mocidade Independente de Padre Miguel e foi fundador e primeiro presidente da Liga das Escolas de Samba.

2. Alberto Dualib (Corinthians)

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A dinastia Matheus no Corinthians deu lugar a outra longa presidência de um nome só: a de Alberto Dualib. Eleito para o cargo máximo em 1993, só largou o osso em 2007, praticamente arrancado da cadeira pela justiça. No teste do sucesso do clube ele passa com êxito: o Corinthians teve seus melhores anos sob Dualib, vencendo vários estaduais, duas Copas do Brasil, três Brasileiros e o primeiro Mundial de Clubes da Fifa. Testemunho da força política de Dualib é o fato de que ele conquistou para o clube o direito de participar do Mundial mesmo sem ter vencido antes uma Libertadores. Um dos títulos nacionais alcançados durante a gestão do cartola foi o de 2005, para o qual o Corinthians se reforçou pesadamente graças ao aporte de dinheiro da Media Sports Investment – a famigerada MSI, uma obscura empresa de investimentos em esportes. Seus rostos eram o russo Boris Berezovsky, presidente, e o iraniano Kia Joorabchian, representante no Brasil, ambos figuras carimbadas do submundo das negociatas internacionais. A parceria rendeu apenas este título, mas muitas dívidas para o Corinthians e acusações de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro sobre Dualib. Dois anos depois o presidente estava deposto, deixando como seu legado final um doloroso rebaixamento. Dos maiores altos aos menores baixos, o reinado de Dualib mostrou tudo que um cartola de marca maior pode fazer por um clube de futebol.

1. Eurico Miranda (Vasco)

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Quem mais senão o imperador de São Januário para ficar com o primeiro lugar? Para quem conhece a peça pode ser difícil acreditar, mas Eurico Miranda só exerceu formalmente o cargo de presidente do Vasco por seis anos (2001-2007), antes de retornar em triunfo no ano passado. Mas sua influência na Colina teve início nos anos 60, e por muito tempo foi ele quem deu as cartas no clube, mesmo sem ocupar a cadeira máxima. Foi responsável por repatriar o ídolo Roberto Dinamite do Barcelona, em 1980, e por roubar Bebeto do arquirrival Flamengo em uma das transações mais célebres do futebol brasileiro, em 1989. Na década seguinte tornou-se vice-presidente de Antônio Soares Calçada, a quem enfrentara em eleições anteriores, e, diante da personalidade mais discreta do titular, virou o manda-chuva. Sua figura encharutada virou símbolo de um dos melhores períodos da história do Vasco. Os sucessos (quatro estaduais, um Rio-São Paulo, dois Brasileiros, uma Mercosul e uma Libertadores) vieram na mesma proporção dos desmandos. A mão de ferro de Eurico desautorizava treinadores e jogadores, centralizava as decisões, monopolizava entrevistas e se espraiava para a política clubística nacional. Enfrentava até do governador do Rio de Janeiro. No segundo jogo da final do Brasileiro de 2000, contra o São Caetano, o alambrado de São Januário cedeu após um tumulto nas arquibancadas, ferindo cerca de 150 torcedores. Ambulâncias entraram em campo e pessoas eram atendidas no gramado. Eurico desfilava em meio ao cenário de guerra, bradando ordens para que todos fossem retirados e o jogo (que ia dando o título ao Vasco), reiniciado – apesar de o governador Anthony Garotinho já ter determinado o encerramento do evento. Pelo regulamento, o acontecido deveria causar a eliminação do time mandante. A força política de Eurico forçou o descarte dessa regra, substituída apenas por um novo jogo em campo neutro. Em gesto de provocação à Globo, que transmitia a final e teria pintado-o como vilão do desastre, o cartola fechou um contrato para estampar a logomarca do SBT, emissora concorrente, apenas na partida extra. Eurico teve também carreira parlamentar, sendo deputado federal por dois mandatos. Seu maior ato no Congresso foi tumultuar a CPI da CBF/Nike, em 2000, e rasgar o relatório final dos trabalhos em plena sessão. Deixou a presidência do Vasco em 2008, com o clube rebaixado. Após o patético hiato que foi a gestão de Roberto Dinamite, o monarca está de volta, prometendo resgatar o “respeito” e já fazendo das suas cartolices novamente.

Os 11 maiores jogadores da Alemanha

Atual campeã do mundo, anfitriã de um campeonato que é sucesso absoluto de público e crítica, celeiro de craques em todas as décadas, dona de uma história coroada e honrosa, detentora de uma das camisas mais pesadas do planeta bola. A Alemanha também é um país do futebol, desde muito antes de impôr 7 a 1 sobre os inventores do termo.

É hora de celebrar os principais nomes que construíram essa trajetória. Muitos outros aqui caberiam, mas a graça está justamente em se esforçar para escolher. Os meus eleitos são estes. Sem mais delongas, os maiores jogadores da história do futebol alemão.

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O centroavante nascido na Polônia jamais foi um primor de técnica e habilidade. Mas esta lista não honra os MELHORES, e sim os MAIORES. Klose é o jogador com mais gols na história das Copas do Mundo, e ajudou a Alemanha a estar quatro vezes seguidas entre as três primeiras colocadas da competição. Isso garante a ele um lugar aqui.

Klose se destacou pelo Kaiserslautern no início dos anos 2000, e permaneceu no modesto clube até 2004. Sua presença na grande área e o talento no cabeceio sempre foram seus cartões de visita. Em 2006, jogando pelo Werder Bremen, foi artilheiro da Bundesliga e levou o tradicional prêmio Jogador do Ano no país. Pelo Bayern de Munique foi bicampeão nacional e vice europeu, e venceu uma Copa Itália com a Lazio. A carreira em times não é de arregalar os olhos. Mas foi defendendo a seleção alemã, especialmente em Copas do Mundo, que Klose se tornou gigante.

Aos 23 anos foi titular já em sua primeira Copa, em 2002, e marcou cinco gols na campanha do vice-campeonato. Na Copa de 2006, em solo germânico, fez outros cinco e foi artilheiro isolado do torneio. Com mais quatro em 2010 igualou o compatriota Gerd Müller em total de gols feitos em mundiais, e se tornou o único jogador da história a marcar pelo menos quatro vezes em três Copas diferentes. A glória definitiva veio na Copa de 2014, a única em que não foi titular: mais dois tentos para tornar-se o recordista de redes balançadas em mundiais (superando os 15 de Ronaldo) e, na quarta tentativa, o título. O 16º gol foi marcado em cima do Brasil naquele joguinho, lembra?

Aposentado do futebol internacional desde a conquista da Copa, Klose é o maior artilheiro da história da Nationalelf – 71 gols – e segundo jogador alemão que mais atuou pela seleção. Além da marca de gols, detém outros 13 recordes individuais de Copas do Mundo. Nada mal para um caneludo.

10. Matthias Sammera82c51de163334e5d89da07339c474dd

O último grande jogador da Alemanha Oriental conseguiu também marcar sua história no futebol da Alemanha reunificada. O meio-campista Sammer nasceu em Dresden, uma das principais cidades ao leste do Muro de Berlim, e foi um dos maiores ídolos do grande time local, o Dynamo Dresden. Lá venceu dois campeonatos nacionais e uma copa. Pela seleção oriental, venceu a Eurocopa Sub-18 de 1986 e, quatro anos depois, capitaneou o grupo na última partida da história da Alemanha Oriental. Marcou os dois gols na vitória sobre a Bélgica.

Pouco antes da reunificação da Alemanha, Sammer já havia se transferido para o outro lado da muralha, para atuar pelo Stuttgart. Com a junção dos países, passou a defender a seleção recém-nascida, e foi presença certa nas convocações ao longo da década de 1990. Sua posição de origem era o meio-campo, mas eventualmente fez a transição para o papel de líbero armador, onde podia exercer sua técnica e visão de jogo apuradas.

Nessa nova posição teve seus melhores dias vestindo a camisa do Borussia Dortmund, clube no qual desembarcou em 1993, após uma temporada decepcionante no futebol italiano. Foi o principal jogador do time aurinegro que conquistou o bicampeonato na Bundesliga em 1995 e 1996 e a Liga dos Campeões de 1997. Por dois anos seguidos, em 1996 e 1997, Sammer foi eleito Jogador do Ano da Alemanha. Foi também o grande craque da Eurocopa de 1996, e principal responsável pelo título da Alemanha na competição. Também em 1996 venceu a prestigiosa Bola de Ouro de melhor jogador do futebol europeu.

Obrigado a aposentar-se pouco depois desse período de glórias, devido a uma lesão no joelho, Sammer virou técnico. Eventualmente retornou ao Borussia Dortmund para conquistar mais títulos, consolidando seu status de maior ídolo da história do clube.

9. Paul Breitner5332

Famoso pela chamativa combinação entre cabelo black power, costeletas e bigodão, Breitner foi mais do que um rostinho bonito nos palcos do futebol. Jogou como lateral-esquerdo na primeira perto da carreira, e foi o melhor na posição que a Alemanha já teve. Incisivo e muito técnico, migrou para o meio-campo e também teve sucesso.

Breitner teve um início de carreira primoroso. Titular do Bayern de Munique desde sua chegada ao time profissional, também não demorou a tomar conta da posição na seleção alemã, e com 21 anos foi titular na conquista da Eurocopa de 1972. Com o clube, viveu o período de dominância do início dos anos 1970, vencendo um tricampeonato nacional e uma Copa dos Campeões Europeus (precursora da Champions). Coroou os bons anos com o título da Copa do Mundo de 1974, na qual fez três gols. A vitória alemã na final teve contribuição direta do lateral. Depois de a Holanda sair na frente, foi Breitner que empatou, cobrando pênalti. A Alemanha viraria o jogo para sagrar-se campeã.

Depois da conquista, porém, Breitner desligou-se do futebol alemão. Foi jogar no Real Madrid e separou-se da seleção, entrando numa precoce aposentadoria internacional motivada por fatores extracampo: o jogador sempre foi muito politizado, dono de opiniões fortes, e acabou por cultivar inimizades com colegas e superiores. Os dias merengues foram prolíficos, rendendo dois Campeonatos Espanhois e uma Copa do Rei. O retorno à terra pátria foi através do pequeno Eintracht Braunsweig, onde ficou apenas uma temporada e concretizou a virtuosa mudança de função em campo.

Breitner retornou ao Bayern e imediatamente se reencontrou com os títulos. Conquistou outro bi da Bundesliga e bateu na trave em uma segunda Copa dos Campeões. No novo papel tornou-se mais artilheiro, e fazia uma combinação fatal com seu companheiro de ataque e amigo pessoal Rummenigge. Voltou também à seleção, já às vésperas da Copa de 1982, e foi ao torneio, ajudando a Alemanha a voltar à decisão. O título não veio, mas, ao fazer o gol de consolação do time contra a campeã Itália, o jogador tornou-se um dos únicos da história a marcar em duas finais mundiais diferentes. Em sua companhia estão Vavá, Pelé e Zidane.

Breitner pendurou as chuteiras cedo, aos 31 anos. Foi Jogador do Ano em 1981.

oliver-kahn-und-verena-kerth_gallery_large_landscape8. Oliver Kahn

Pode ser difícil de acreditar mas, em meio a quatro títulos e muitas outras campanhas de destaque, a Alemanha só fez o melhor jogador (oficial, pelo menos) da Copa do Mundo uma vez. Foi em 2002, quando o mal-encarado goleiro Kahn fez um torneio quase perfeito. As falhas da decisão estão bem vivas na história e na memória dos brasileiros, é verdade, mas tudo que veio antes disso faz do arqueiro um colosso – o melhor de seu país na posição, na opinião deste blogueiro, batendo por pouco o histórico Sepp Maier.

Formado pelo Karlsruher, clube que ajudou a levar a uma semifinal de Copa da Uefa, Kahn é identificado mesmo com o Bayern de Munique, cuja meta guardou de 1994 até o fim da carreira. Aterrissou na Bavária em uma época de vacas magras, tomou conta da titularidade e foi fundamental na reestruturação do Bayern, que voltou a ser uma potência nacional e internacional. Tudo começou com o título da Copa da Uefa de 1996, passou por um tricampeonato da Bundesliga e culminou com títulos da Liga dos Campeões e da Copa Intercontinental (o Mundial de Clubes ainda não existia) em 2001.

Ao longo desse período, Kahn virou capitão da equpe e foi escolhido seis vezes seguidas como melhor goleiro do país, quatro como melhor do continente e, em 2000 e 2001, Jogador do Ano da Alemanha, além de concorrer repetidamente à Bola de Ouro de melhor futebolista europeu. Na final da Champions de 2001, contra o Valencia, pegou três pênaltis nas cobranças decisivas e foi votado homem do jogo. Se havia um jogador dominante no futebol alemão na virada do milênio, esse jogador era o Titan do Bayern.

Faltava a esse currículo o sucesso pela seleção. O goleiro foi a duas Copas do Mundo e uma Eurocopa como reserva, e foi ganhar a posição já perto dos 30 anos. Logo virou também capitão. A Copa de 2002 foi sua apoteose. Sofreu apenas um gol até a decisão, à qual a mediana seleção alemã provavelmente não chegaria se não fosse por ele. Ao levar o prêmio de craque do torneio foi não só o primeiro germânico a conseguir o feito, mas também o primeiro arqueiro. A final foi uma infelicidade, mas as boas atuações prévias ficaram marcadas. Kahn ainda foi à Copa de 2006, com a expectativa de liderar o time nacional em casa, mas foi preterido – surpreendentemente até – por Jens Lehmann. Em vez de irritar-se, fez-se de esteio do colega e solidificou o status de ídolo nacional.

Após a Copa, Kahn deu adeus à seleção. Pouco depois, durante uma turnê asiática do Bayern de Munique, despediu-se também dos gramados.

jrgenklinsmann1990wc17. Jürgen Klinsmann

Foi o mais internacional dos futebolistas alemães, tendo atuado em clubes de quatro países – além da Alemanha, claro. O entusiástico e eficiente atacante acumulou mais temporadas no Stuttgart, ainda no início da carreira, mas tem identificação com praticamente todos os clubes que defendeu. Carismático, bem-humorado e dono de muita entrega em campo, angariou o carinho das torcidas de Internazionale, Monaco, Tottenham, Bayern de Munique e do minúsculo Orange County Blue Star (Estados Unidos).

Após se destacar no Stuttgart na segunda metade dos anos 1980, sendo uma vez artilheiro da Bundesliga e eleito Jogador do Ano em 1988 (mesmo ano em que conquistou medalha de bronze nas Olimpíadas de Seul), transferiu-se para a Inter de Milão. Lá venceu uma Copa da Uefa, torneio no qual batera na trave alguns anos antes. Enquanto isso, fazia sucesso pela seleção: formou uma forte dupla de ataque com Rudi Völler, foi vice da Eurocopa de 1992 e campeão da Copa do Mundo de 1990, sempre marcando gols importantes.

Teve boa passagem pelo Monaco e ajudou o Bayern a conquistar a Copa da Uefa de 1996, sendo artilheiro da competição, e a voltar a vencer a Bundesliga, em 1997. No Tottenham foi ídolo, apesar de jogar lá por apenas uma temporada e meia: foi o craque da Premier League em 1995 e reforçou o clube na reta final do campeonato de 1998, por empréstimo, quando foi crucial para salvar os Spurs do rebaixamento. No mesmo ano, que seria o último de sua carreira, venceu pela segunda vez o prêmio de Jogador do Ano da Alemanha – que não se restringe aos atletas que atuam no próprio país.

Klinsmann também jogou as Copas de 1994 e 1998, e foi o capitão alemão na conquista da Eurocopa de 1996. Depois da aposentadoria oficial foi morar nos Estados Unidos e teve uma breve volta aos gramados numa história rocambolesca: reforçou o Blue Star, time californiano da quarta divisão, sob um pseudônimo, apenas por diversão. Apenas vários anos depois confirmou o caso, que era tratado como uma lenda nos círculos da bola.

O atacante trocou as chuteiras pela prancheta. Virou técnico da seleção da Alemanha logo após a Eurocopa de 2004, que foi um fiasco, e promoveu uma renovação do elenco em sua gestão, dando as primeiras chances a vários atletas que eventualmente protagonizariam o título mundial de 2014. Conseguiu calar críticos e empolgar a torcida nacional na campanha da Copa do Mundo de 2006, disputada em casa, mesmo caindo na semifinal. Também treinou o Bayern e a seleção dos Estados Unidos.

6. Philipp Lahm2014-07-13T222812Z_992011801_TB3EA7D1QIJO4_RTRMADP_3_SOCCER-WORLD-M64-GER-ARG

O primeiro dos capitães de títulos da Copa do Mundo da Alemanha nesta lista é o versátil Lahm, nominalmente lateral-direito mas capaz de atuar também na esquerda e no meio de campo. Usou a braçadeira no mundial de 2014 e foi o terceiro alemão a levantar a Taça Fifa. Foi também o capitão do Bayern de Munique na conquista da única tríplice coroa da história do futebol germânico, em 2013.

Nascido em Munique e criado no Bayern, o jogador passou duas temporadas emprestado ao Stuttgart, onde aprendeu a atuar na lateral canhota. De volta ao clube de origem, Lahm domina a ala direita desde 2005, quando retornou e virou titular. Já era figura fácil na Nationalelf, inclusive como líder. Havia capitaneado as seleções de base e, como suplente, participara da Eurocopa de 2004.

Dos cinco torneios internacionais que disputou como titular (Copas de 2006, 2010 e 2014 e Eurocopas de 2008 e 2012), foi votado o melhor de sua posição em todos – independentemente de qual das laterais estivesse preenchendo. Por cinco vezes foi também o o melhor lateral do continente. Virou capitão nacional a partir do mundial de 2010, graças à contusão que impossibilitou Michael Ballack de participar do torneio, e só foi largá-la depois da Copa de 2014, quando anunciou voluntariamente sua aposentadoria internacional apesar de ter apenas 30 anos. A chance de sair assim tão por cima, afinal de contas, não é de se jogar fora.

Além do papel de protagonista no tetracampeonato mundial da Alemanha, Lahm foi central também à brilhante temporada do Bayern em 2012-13. O clube bávaro conquistou os três títulos mais importantes possíveis: a Bundesliga, a Copa da Alemanha e a Liga dos Campeões. Completou assim a tríplice coroa, feito único no futebol alemão e apenas a oitava ocorrência no futebol europeu. As primeiras mãos a tocar cada um dos troféus naquela jornada foram as do capitão Lahm. Detalhe que ele só foi assumir o posto em 2011, depois ter alcançado a mesma responsabilidade pela seleção.

Mais recentemente o jogador tem acumulado atuações como volante, aproveitando toda a sua qualidade com a bola nos pés para abrilhantar a saída de jogo do Bayern.

81RummeniggeBALLON5. Karl-Heinz Rummenigge

A Alemanha é conhecida por produzir jogadores físicos, rápidos, fortes e determinados. Rummenigge era de outra escola. Extremamente técnico, habilidoso, elegante, driblador, completo em todos os aspectos do ataque. Finalizava e armava com igual talento. Foi o melhor jogador alemão da entressafra entre os títulos mundiais de 1974 e 1990, e o grande craque da seleção e do país nos anos 1980.

King Kalle se projetou jogando, que surpresa, pelo Bayern de Munique, que já foi mencionado dúzias de vezes nesta lista. De imediato assumiu um papel de destaque na equipe, que era a base da seleção alemã. No meio craques do nível de Uli Hoeness, Sepp Maier, Gerd Müller e Franz Beckenbauer, o garoto Rummenigge, 20 anos recém completados, achou seu espaço. Venceu duas Copas dos Campeões e a Copa Intercontinental de 1976, sobre o Cruzeiro.

Rumo ao fim da década, o Bayern se renovou. Os ídolos foram embora, aposentados ou transferidos. Rummenigge virou o dono do time, e fez jus. Foi artilheiro da Bundesliga três vezes, bicampeão nacional e venceu a Bola de Ouro duas vezes seguidas, em 1980 e 1981, como melhor jogador do continente. Teve a valiosa ajuda do amigo Breitner, que retornou ao Bayern para compor a dupla de meio-campo que ficou conhecida como Breitnigge. Só faltou ao par um título europeu, que quase veio em 1982: pararam na final, diante do Aston Villa.

O meia-atacante foi fundamental à seleção alemã, que defendeu por dez anos, e o ponto alto foi a conquista da Eurocopa de 1980. Dois anos depois foi um dos destaques da Copa do Mundo da Espanha, da qual foi vice-artilheiro com cinco gols. A Nationalelf cairia na final, perdendo para a Itália. O mesmo destino esperava Rummenigge em 1986, dessa vez contra a Argentina – e ele marcou na final. Jogou aquele torneio baleado e aposentou-se do cenário internacional logo depois, sem conseguir levantar a Taça Fifa. Também havia jogado o mundial de 1978.

Em 1984, Rummenigge descolou uma transferência milionária para a Internazionale. Com o dinheiro, o Bayern montou sua próxima geração de ídolos. Depois da aposentadoria continuou ajudando o clube bávaro: virou cartola.

4. Fritz Walterbc8b38caf3d497eb0d8357f195aac8af

Rápido, pense em tudo que a Alemanha significa e apresenta no futebol internacional. Aplicação, vontade, consistência, seriedade, competência, resiliência. Tudo isso condensado é a campanha do primeiro título mundial germânico, na Copa de 1954, que começou com a humildade dos coadjuvantes e culminou no destronamento dos favoritíssimos húngaros. Aquela seleção campeã contra todas as probabilidades teve como líder e símbolo maior seu capitão, o meia-atacante Fritz Walter. Um craque e um sobrevivente.

Por toda sua carreira Walter defendeu o Kaiserslautern, time de sua cidade natal. Foi protagonista do futebol do país desde as primeiras botinadas, e fez uma estreia em grande estilo na seleção nacional, assinando um hat-trick. Porém a trajetória teve que ser interrompida pela Segunda Guerra Mundial. Convocado pelo exército para lutar, o atleta, que não compartilhava das ideologias nazistas, trocou as chuteiras pelos coturnos. Foi capturado pelos soviéticos e enviado para um campo de prisioneiros na Romênia, onde contraiu malária. Escapou de ser eventualmente enviado para um gulag, onde certamente morreria, graças à intervenção de um guarda húngaro, que já o tinha visto jogar e conseguiu convencer os colegas a não levá-lo.

Libertado e de volta à vida civil depois do conflito, Walter encontrou o futebol alemão em frangalhos. Ajudou o Kaiserslautern a ser campeão nacional duas vezes (os primeiros títulos do clube, e os únicos até a década de 1990) e vice outras três. Defender o time era tudo que podia fazer, uma vez que a seleção alemã estava banida de competir internacionalmente. Quando a proibição foi revogada, Walter tornou-se o capitão da Nationalelf e liderou a classificação para a Copa do Mundo da Suíça, em 1954, que seria o reencontro do país que provocou a guerra com o mundo que ainda tentava se recuperar dela.

A Alemanha não constava entre as favoritas, e entrou no torneio de cabeça baixa, tentando humildemente reconquistar algum respeito. Ao longo da trajetória de seis jogos, Walter liderou impecavelmente o time, armando jogadas e motivando os companheiros. Fez três gols e brilhou na semifinal contra a Áustria, marcando duas vezes e dando duas assistências. A decisão foi contra a forte Hungria, invicta há 31 partidas. A improvável vitória por 3-2, de virada, entrou para a história como “O Milagre de Berna”, compõe o mito fundador do futebol alemão. E Walter virou o símbolo do triunfo que devolveu à Alemanha algum orgulho.

O jogador ainda atuaria pelo Kaiserslautern por mais cinco anos e jogaria a Copa de 1958, já não como capitão. Em 1956, no rescaldo da Revolução Húngara, que representou a submissão definitiva do país à União Soviética, Walter providenciou suporte logístico e financeiro para que a seleção nacional pudesse continuar jogando. Uma pequena retribuição, e um pedido de desculpas pela destruição do sonho da Copa, à nação do homem que possivelmente salvou sua vida na guerra.

Fritz Walter é um dos “capitães honorários” da seleção alemã, e dá nome ao estádio do Kaiserslautern. Também influenciou o vocabulário do país: até hoje, dias nublados e chuvosos na Alemanha são conhecidos como Fritz Walter Wetter (“clima de Fritz Walter”). Segundo consta, as complicações oriundas da malária faziam com que o jogador ficasse debilitado no calor, e tivesse suas melhores atuações em tempo ruim.

i_old_ger_matthaeus_920_th3. Lothar Matthäus

O interminável Matthäus, dono de uma carreira de duas décadas em alto nível, guarda a honra de ter sido o primeiro agraciado com o prêmio de Jogador do Ano da Fifa, em 1991. Até hoje é o único alemão com esse troféu na estante. O meio-campista e líbero é o recordista histórico de partidas em Copas do Mundo, com 25 ao longo de cinco edições, e também o jogador que mais atuou com a camisa da Alemanha – foram 150 aparições. Em meio a tantos feitos invejáveis, talvez o maior deles seja o de ter sido considerado por Diego Maradona o maior rival e competidor que o argentino já teve.

Matthäus surgiu como um foguete no Borussia Mönchengladbach e alcançou o vice da Copa da Uefa em 1980. Chegou à seleção antes dos 20 anos, Já disputando – e vencendo, mesmo como reserva – a Eurocopa do mesmo ano. Seria também vice da Copa do Mundo de 1982, e a partir daí seus dias de coadjuvante estavam acabados. Conquistou uma vaga no meio de campo da Nationalef, descolou uma transferência para o Bayern de Munique e partiu para voos maiores.

Com a equipe bávara, em duas passagens distintas, levantou sete Bundesligas, três copas nacionais e uma Copa da Uefa. Bateu na trave duas vezes na Liga dos Campeões, em 1987 contra o Porto (quando o torneio ainda se chamava Copa dos Campeões) e em 1999 contra o Manchester United, sempre sofrendo viradas nos minutos finais. Nunca ter erguido a principal taça do continente foi a grande frustração da carreira. Os períodos defendendo o Bayern foram interrompidos apenas por quatro temporadas que Matthäus passou na Internazionale, compondo um talentoso pelotão alemão com o atacante Klinsmann e o lateral Andreas Brehme. Na Itália, ganhou um scudetto, uma nova Copa da Uefa e protagonizou duelos memoráveis contra Maradona, que jogava pelo Napoli.

Matthäus também encontrou o gênio argentino em momentos decisivos de Copas do Mundo. Em 1986, já como destaque do time, foi designado para marcar El Pibe na decisão, mas Maradona estava impossível naquele mundial e levou a melhor. Quatro anos depois, no solo italiano que ambos conheciam tão bem, voltaram a se encontrar em uma decisão. Matthäus já era capitão da Alemanha, marcara quatro gols e se projetava como um dos melhores da competição. A vitória magra da seleção germânica deu a ele a chance de arrancar a Taça Fifa das mãos do rival. De quebra, ao fim do ano, foi eleito Jogador do Ano da Alemanha e levou a Bola de Ouro europeia. No ano seguinte, estreou a condecoração máxima da Fifa.

Mudando de posição ao longo da década para compensar o envelhecimento e manter o melhor uso de seus talentos, Matthäus virou volante e depois líbero. Capitaneou o time nacional novamente na Copa de 1994 e depois caiu em ostracismo devido à projeção de seu desafeto Berti Vogts para o cargo de treinador. Perdeu a braçadeira e acabou não convocado para a Eurocopa de 1996, que a Alemanha venceu. Mas retornou para a Copa de 1998, onde igualou o mexicano Antonio Carbajal ao disputar o quinto mundial e participou das partidas que o deram o recorde de participações no palco mundial.

O veteraníssimo craque manteve-se em atividade mesmo depois disso, e até mereceu pela segunda vez o título de Jogador do Ano alemão. Foi 1999, ano em que conduziu o Bayern de volta à final da Liga dos Campeões – mas perdeu para o Manchester com gols nos acréscimos, como já foi dito. Tinha, então, 38 anos. Disputou mais uma Eurocopa com a seleção, em 2000, que marcou sua despedida internacional. Ainda jogaria por alguns meses no MetroStars, dos Estados Unidos, e teria uma carreira esquecível como treinador. Já havia, porém, se firmado no panteão da Alemanha.

2. Gerd Müllerla-legende-vivante-gerd-muller-meilleur-buteur-de-nationalmannschaft-et-du-bayern-munich-vient-fermer-la-marche-avec-un-record-de-732-buts-d-ou-son-surnom-der-bomber_55303_wide

Alguns atletas do futebol não podem ser descritos como “jogadores”. Isso implicaria um envolvimento com diferentes habilidades e etapas do jogo, versatilidade que Gerd Müller não tinha. Ele era, simplesmente, um fazedor de gols. E é possível que ninguém tenha sido melhor nessa tarefa do que ele. Baixinho para a posição de centroavante (1.76m), compensava com velocidade, finalização impecável e um senso de colocação fora do comum.

A trajetória de bolas nas redes começou no minúsculo TSV Nördlingen, clube de sua cidade natal. Em apenas uma temporada lá, Müller marcou gols em uma média de mais de um por jogo, e chamou a atenção de outro time pequeno – o Bayern de Munique. Não se espante: naqueles tempos, em meados dos anos 1960, o Bayern não era muita coisa. Tudo mudaria em breve, muito graças à chegada de seu artilheiro do futuro. Ele desembarcou na Bavária em 1964 e já no primeiro ano ajudou o time a vencer a Liga Regional Sul e conseguir o acesso para a Bundesliga.

Na divisão principal da Alemanha, Müller fez a festa. Foi artilheiro de sete das quinze temporadas que disputou, e totalizou 365 gols – a melhor marca da história da Bundesliga. Só em 1971-72 foram 40, o recorde da liga em uma só temporada. Venceu o prêmio de Jogador do Ano em duas ocasiões, 1967 e 1969. Este segundo foi conquistado na temporada do primeiro título nacional do Bayern desde os anos 1930. Ao todo, o centroavante conquistou quatro com o time, além de quatro Copas da Alemanha. Também foi tricampeão da Copa dos Campeões, marcando em duas das decisões e sendo goleador máximo de duas das edições. No total, foi artilheiro de quatro torneios continentais. Na Copa Intercontinental de 1976, também fez um e levou a taça. Mora no coração de todos os torcedores do Bayern como um dos monstros sagrados da história do clube.

Pela seleção da Alemanha, Müller jogou comparativamente pouco. Foram menos de 70 partidas oficiais e apenas três torneios. A passagem, porém, foi muito bem aproveitada. Com 68 gols marcados, alcançou média de mais de um por jogo e estabeleceu um recorde que só seria quebrado depois de quatro décadas, por Klose – que jogou mais do que o dobro de vezes. Disputou  Eurocopa de 1972, a primeira que a Alemanha venceu. Dos cinco gols da seleção, quatro foram de Müller, artilheiro e melhor jogador da competição.

Seus dez gols na Copa do Mundo de 1970 são marca em uma única edição superada apenas pelos 13 do francês Just Fontaine, ainda em 1958. Desde então, ninguém mais. A atuação, que incluiu dois hat-tricks em quatro dias, o gol da vitória na quarta-de-final contra a Inglaterra e dois no apoteótico duelo de semifinal contra a Itália, rendeu-lhe a Bola de Ouro de melhor jogador europeu do ano. Com outros quatro gols no mundial de 1974 – que a Alemanha venceu, com gol decisivo dele na final – Müller somou 14 tentos em Copas, total que só seria superado mais de 30 anos depois, primeiro pelo brasileiro Ronaldo e depois pelo compatriota Klose. No entanto, Müller precisou de apenas dois torneios.

Os recordes não param por aí, e mesmo os que já foram derrubados levaram décadas para cair. O alemão manteve-se como maior artilheiro de competições europeias de clubes até ser superado pelo espanhol Raúl, em 2010, e segurou o posto de maior artilheiro de um só ano de calendário (de janeiro a dezembro) no futebol europeu até aparecer um certo Lionel Messi, que tirou-lhe a glória em 2012. Um feito que ainda resiste é o de maior artilheiro internacional do futebol mundial (contando gols por seleção e clubes em partidas internacionais), mas que fatalmente será tomado por Messi e/ou Cristiano Ronaldo – dois seres extraterrestres, admita-se.

A dificuldade que jogadores sobrenaturais encontram para ultrapassar os números de Gerd Müller, mesmo tantos anos depois e em outro tipo de futebol, são testemunho indiscutível de que Der Bomber não tinha igual no palco da grande área.

1. Franz BecFranz Beckenbauerkenbauer

Não é à toa que ele é o Kaiser. Vitorioso a nível nacional e internacional, com time e seleção, como jogador e como técnico, Franz Beckenbauer e futebol alemão são sinônimos inseparáveis. É um dos poucos defensores da história do esporte, senão o único, a ser rotineiramente incluído entre os melhores de todos os tempos. Técnica e taticamente brilhante, revolucionou sua posição. Modelo de líder, capitaneou e comandou esquadrões rumo a conquistas históricas. Tem a salas de troféus mais abarrotada do que muitos times. Não é à toa que ele é o Kaiser.

Beckenbauer foi produto da base do Bayern de Munique num tempo em que o clube bávaro disputava divisões inferiores e não era uma força do futebol alemão. Em sua primeira temporada como profissional, porém, ajudou na conquista do título da Liga Regional Sul e da promoção para a Bundesliga. Fazia parte de um grupo de jogadores jovens que, juntos, leveriam o Bayern à estratosfera. Além dele, o centroavante Gerd Müller, o goleiro Sepp Maier, o zagueiro Hans-Georg Schwarzenbeck e o meia Franz Roth eram os destaques do futuro.

O time venceu a Copa da Alemanha em seu primeiro ano como membro da elite, e a partir daí as coisas só melhoraram. Beckenbauer recuou para a posição de líbero, em poucos anos assumiu a braçadeira de capitão e passou a acumular títulos: outras três Copas, quatro Bundesligas, três Copas dos Campeões consecutivas e uma Copa Intercontinental. O clube não teria passado de figurante a dono do mundo sem a colaboração de seu principal líder em campo – e também referência técnica.

Isso porque, apesar de jogar como zagueiro e líbero, Beckenbauer tinha muita qualidade e finesse com a bola nos pés. Quando jovem, atuava no ataque, e depois passou para o meio de campo. Tinha capacidade de fazer a saída de bola ou mesmo avançar para a criação de jogadas. Tinha também a consciência tática para fazer a troca de posições e organizar a equipe toda em campo. Além de tudo, era um primoroso defensor.

Pela seleção da Alemanha, o Kaiser projetou-se para o planeta. A Fifa elegeu-o para os “times dos sonhos” das Copas do Mundo e do século XX. Em sua primeira Copa, em 1966, o ainda jovem líbero foi terceiro artilheiro, com 4 gols, e quase derrubou a anfitriã Inglaterra na final. Em 1970 Beckenbauer protagonizou uma das mais memoráveis cenas do futebol mundial na semifinal contra a Itália: quebrou a clavícula e fez questão de permanecer em campo, braço em tipoia, já que o time não podia mais fazer substituições. A disputa foi perdida na prorrogação, mas ele não comprometeu. Ficou de novo entre os melhores do torneio.

A partir de 1972 Beckenbauer tornou-se o capitão da Nationalelf, e nessa condição ergueu a taça da Eurocopa de 1972, o primeira conquista alemã da competição. Dois anos depois, na Copa do Mundo realizada em sua casa, levantou mais um caneco. Foi o primeiro capitão a erguer a Taça Fifa, feita especialmente para aquela edição do mundial. Pela primeira vez uma seleção campeã europeia conquistava o mundo, e o Kaiser estava no centro dos acontecimentos em ambas.

Ainda falta falar do vice-campeonato da Eurocopa de 1976, da Bundesliga conquistada jogando pelo Hamburgo e da passagem pelo New York Cosmos de Pelé, que rendeu três títulos. Falta falar das duas Bolas de Ouro, recorde para um zagueiro, e dos quatro prêmios de Jogador do Ano da Alemanha, recorde absoluto. Falta falar da carreira como técnico, que teve um título alemão (Bayern), um francês (Olympique de Marselha), uma Copa da Uefa (Bayern) e uma Copa do Mundo (Alemanha, claro). Falta falar do papel fundamental que Beckenbauer teve para fazer da Alemanha novamente anfitriã de uma Copa do Mundo. Ufa.

Intra e extracampo, um dos maiores de todos os tempos. Na Alemanha, maior dos maiores. Não é à toa que ele é o Kaiser.

11 feitos do futebol brasileiro que jamais veremos outra vez

As grandes lendas do futebol se constroem de forma insuspeita. É praticamente impossível detectar quando um recorde será batido, um legado será firmado ou um astro será eternizado. As coisas simplesmente acontecem, nos pegam de surpresa e a partir daí procuramos justificá-las, construir retroativamente o caminho da glória que levou ao momento que testemunhamos em campo. Apenas respondemos ao épico, não podemos antevê-lo. Isso é bom. É parte da beleza do espetáculo.

Essa prática de reagir ao inexplicável e desvendar sua trajetória nos deu, como espectadores, a curiosa habilidade de identificar aquilo que é irrepetível. Quando paramos para pensar sobre o que testemunhamos, temos a perspectiva da sequência de acontecimentos que, projetando adiante, percebemos que não ocorrerá de novo. Marcas existem para serem superadas, mas às vezes nos deparamos com algumas que, sendo frutos dessas circuntâncias históricas tão particulares, resistirão para sempre.

Aqui estão alguns exemplos disso.

11. O Santos e o São Paulo foram bi da Libertadores e do Mundial

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O Santos de Dorval e Gilmar, o São Paulo de Cerezo e Raí

Não estou revelando nenhum segredo da humanidade. O Santos de Pelé & companhia derrotou Peñarol e Boca Juniors antes de derrubar Benfica e Milan, em 1962 e 1963. O São Paulo sob a batuta de Telê Santana venceu Newell’s Old Boys e Universidad Católica e depois abateu Barcelona e Milan, em 1992 e 1993. Conquistas enormes, e amplamente conhecidas. É tão comum lembrá-las que não paramos para pensar que são praticamente inalcançáveis para qualquer outro clube brasileiro no estado atual das coisas. Desde o bi tricolor, por três vezes times nacionais conseguiram retornar à final continental como defensores do título (o próprio São Paulo em 1994 e 2006 e o Palmeiras em 2000) mas não ganharam nenhuma. Garantir a Libertadores por vezes consecutivas já se mostra tarefa árdua. O desempenho nos Mundiais também decaiu: se até 1993 os representantes brasileiros venceram seis dos sete que disputaram, desde então foram só quatro em onze, e em tempos recentes está difícil até fazer frente aos times africanos. Não é só o histórico estatístico que joga contra. O sucesso internacional tende a valorizar os jogadores campeões, o que esvazia os times vencedores e dificulta novas conquistas de forma imediata. Pode ser que demore mais do que três décadas até termos outro clube brasileiro exercendo hegemonia no palco global, se é que haverá algum de novo.

10. Dadá Maravilha fez dez gols em uma só partida

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Dario no Sport, onde jogou entre 1975 e 1976

O irreverente Dario, artilheiro profissional, fez história jogando pelo Sport ao marcar dez gols num jogo do Campeonato Pernambucano de 1976, contra o pobrezinho Santo Amaro (placar final: 14-0). Ele não é o único com a marca, mas há registros controversos para os outros dois casos conhecidos: Mascote, do Sampaio Corrêa, em 1934, e Caio Mário, do CSA, em 1948. Em todo caso, Dadá está garantido no rol. O feito inclusive ajudou-o a ser artilheiro do Pernambucano de 76 mesmo jogando só metade do campeonato – antes do fim, foi negociado com o Internacional e deixou a Ilha do Retiro. Se já é difícil vislumbrar goleadas dessa magnitude, imagine com participação tão avassaladora de um jogador só. É mais comum que os times se poupem depois de garantir um resultado largo, e também que mostrem misericórdia com o adversário, de modo que um placar que alcance dois dígitos é bastante impensável. Além disso, treinadores cultivam a prática de substituir um jogador que arrebenta quando a partida já está no papo para que ele saia sob aplausos, ganhando moral para si e para o time. Uma performance como a de Dario seria certamente interrompida antes da contagem de dez, com essa finalidade.

9. O Corinthians ganhou um jogo do Brasileiro por 10-1

Mas OK, sejamos flexíveis em relação aos gols de Dario e ao resultado do seu Sport. Pode ser que algum campeonato estadual dos mais periféricos, mais dados a surpresas e eventos inusitados, nos presenteie com algo próximo. Mas o que dizer da primeira divisão do principal campeonato nacional de futebol? Em 1983, pela primeira fase do Campeonato Brasileiro, o Corinthians de Sócrates surrou o Tiradentes, do Piauí, por 10-1. O próprio Doutor fez quatro gols. Foi, e ainda é, a maior goleada da história dos Brasileiros. E sempre será. Ou alguém imagina que a primeira divisão, hoje mais estruturada e competitiva, tem espaço para lavadas desse tamanho? Pelo regulamento da época classificavam-se automaticamente para a primeira divisão os campeões estaduais (caso do Tiradentes), e é cristalino que alguns deles não tinham nível para encarar os grandes times. Hoje não funciona mais assim. Um clube pode dominar seu estado por anos a fio, mas só chegará à elite nacional se atravessar as divisões inferiores uma a uma. Esse processo filtra os candidatos, de modo que a Série A é mais equilibrada e não comporta a discrepância técnica que deságua em um 10-1. Claro que, mesmo no contexto daquele momento, o resultado foi uma excrescência – o Tiradentes até conseguira vencer o Corinthians algumas semanas antes, jogando em casa. Hoje, porém, seria absolutamente proibitivo.

8. Durval foi decacampeão estadual passando por cinco clubes

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Dois dos títulos de Durval: Sport (2009) e Santos (2012)

Se você rapidamente inclui o zagueiro Durval numa lista de carreiras mais estreladas do futebol brasileiro, você provavelmente é parente dele. Mais conhecido pelas conquistas da Copa do Brasil de 2008 com o Sport e da Libertadores de 2011 com o Santos, o beque capixaba é um coadjuvante profissional, mas foi capaz de enfileirar nada menos do que dez títulos estaduais consecutivos, ao longo de passagens por cinco clubes de cinco estados e quatro regiões do país diferentes. A sequência começou em 2003, no Botafogo-PB, e seguiu por Brasiliense e Atlético Parananese – um título por camisa. Com o Sport foi um tetra, entre 2006 e 2009. Em seguida, um tri pelo Santos, até 2012. A toada só foi interrompida em 2013, mas foi por pouco: o Santos foi vice paulista, e Durval, tão determinado que estava em prolongar sua marca, até fez gol em uma das partidas da decisão, contra o Corinthians. Clubes, sempre na disputa, podem ser decacampeões – aconteceu com América-MG (1916-1925) e ABC (1932-1941), no tempo do ronca. Atletas, com suas trajetórias de altos e baixos, idas e vindas, necessitariam de uma enorme combinação de coincidências. Se o jogador é muito bom, descola transferência para algum lugar onde não há estaduais. Se é muito ruim, não vai para times competitivos. Aconteceu com Durval. Os planetas não se alinham assim duas vezes.

7. O Campeonato Gaúcho de 1994 durou mais de nove meses…

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O Inter campeão de 94: Luís Carlos Winck, Jairo, Luiz Fernando, Alex, Zinho, Sérgio Guedes / Caíco, Celso Vieira, Leandro, Nando, Dinei

Falei sobre regulamentos insanos aqui, mas só abordei Campeonatos Brasileiros. Se qualquer competição entrasse na conversa, certamente o Campeonato Gaúcho de 1994 teria dado as caras. Com uma primeira divisão inchada, composta por 23 times, a federação estadual queria um torneio que servisse para botar ordem no futebol local. Haveria nove rebaixados, sendo que um deles, o lanterna, iria direto para a terceira divisão. Era um campeonato propositalmente ruim, porque deveria deixar um cenário de terra arrasada para que o Gauchão pudesse recomeçar do zero, um pouco mais arrumado. Foi adotado um sistema de pontos corridos em turno e returno, o que significava que cada time teria que disputar impensáveis 44 partidas. A carga pesada de jogos não conseguiu conviver muito bem com o fato de que os clubes tinham outras competições para disputar ao longo do ano, o que exigiu um malabarismo de datas e várias remarcações de jogos. O estadual teve a primeira rodada no dia 5 de março, mas alguns times só puderam estrear duas semanas depois. A bola parou de rolar em 17 de dezembro, quase nove meses e meio após seu início. Mesmo na realidade anárquica dos torneios brasileiros, é muito tempo. O Campeonato Gaúcho que demorou mais do que uma gestação humana ganhou o apelido de “O Interminável”, foi um fracasso de público e crítica e ainda gerou outra marca que deve atravessar a eternidade.

6. …e o Grêmio jogou três vezes no mesmo dia

O Grêmio disputou cinco competições em 1994 (Gaúcho, Copa do Brasil, Brasileiro, Conmebol e Supercopa Libertadores), totalizando 85 jogos oficiais – média de um a cada quatro dias. O estadual era a mais desimportante delas, mas também a que mais ocupava calendário. Priorizando os demais campeonatos, o clube foi adiando seus compromissos pelo Gauchão, até que chegou no mês de dezembro ainda precisando disputar oito partidas (e só para cumprir tabela, pois já nem podia ser campeão). A solução para acomodar tudo no curto tempo que restava foi honestamente quadrúpede: fazer o Grêmio entrar em campo três vezes no mesmo dia, aliás na mesma tarde. Entre as 14h e as 20h do dia 11, o Tricolor enfrentaria, em sequência, Aimoré, Santa Cruz e Brasil de Pelotas. No calor castigante do verão de Porto Alegre, menos de 300 pessoas compareceram ao Olímpico para a rodada tripla, durante a qual o Grêmio teve que escalar 34 jogadores diferentes (muitos deles juniores). O dia hercúleo rendeu duas vitórias, um empate e faturamento total de bilheteria de R$ 690. Quatro atletas participaram de dois dos jogos, incluindo o volante Émerson, que faria longa carreira na seleção brasileira e no futebol europeu. No mesmo ano, o Juventude (também Gaúcho) e o São Paulo (Brasileiro e Conmebol) tiveram que fazer dois jogos em um dia só. Mas dose tripla, só mesmo o Grêmio.

5. Mazarópi ficou mais de 20 jogos sem tomar gol

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Mazarópi protege a meta do Vasco

O recorde mundial de impenetrabilidade de um goleiro em competições oficiais não pertence a lendas da meta como Buffon, Banks, Yashin, Casillas ou Van Der Sar. É de um brasileiro, e um que passa longe de figurar entre os maiores arqueiros da história do país. Estou falando de Mazarópi, que fez fama pelo Grêmio no anos 80. Antes disso, porém, o guarda-redes com jeito de caipira (daí o apelido) defendeu o Vasco. E como defendeu. Entre os Campeonatos Cariocas de 1977 e 1978, Mazarópi ficou 1.816 minutos sem precisar buscar uma bola no fundo do gol. Isso dá nada menos do que vinte partidas inteiras, mais uns quebrados. A série começou em jogo contra o Bonsucesso que o Vasco venceu de virada por 2-1 (o gol adversário foi marcado aos 13 do primeiro tempo). Atravessou o segundo turno inteiro do torneio de 77 – que o Vasco obviamente venceu – e o início do torneio de 78. O responsável por estragar a festa foi o meia Manfrini, do Madureira, aos 33 da primeira etapa do 21º jogo após o último gol. Fizeram parte da sequência cinco clássicos. Apenas os jogos pelo Carioca nesse período entram na contagem, porque o recorde considera invencibilidade em uma competição. Hoje, 20 jogos cabem em um estadual inteiro, e superam todo o primeiro turno do Brasileiro. Inimaginável que algum goleiro consiga sobreviver intacto a essas jornadas. No Brasil recente, a melhor tentativa pertence a Rogério Ceni, que em 2007 mal alcançou a metade da marca de Mazarópi (988 minutos). E falando nele…

4. Rogério Ceni fez mais de cem gols como goleiro

O ídolo maior do São Paulo é também o principal expoente de uma espécie em extinção no futebol: os goleiros artilheiros. Nas novas safras da posição, praticamente inexistem profissionais de alto nível que também dublem como batedores de faltas e pênaltis, as principais válvulas de escape para que os goleiros escrevam seus nomes nas tábuas de artilheiros. Essa falta de renovação no ofício é que transforma o recorde de Rogério Ceni de impressionante em imbatível. No momento em que escrevo estas mal traçadas, são 127 gols autorados pelo capitão tricolor, total que ultrapassa o dobro do registrado pelo patrono dos arqueiros matadores, o paraguaio José Luis Chilavert. Já se vão quase dez anos desde que Rogério superou Chilavert, numa histórica partida contra o Cruzeiro em que pegou um pênalti e marcou duas vezes para salvar a pele do time, que perdia por 2-0. Ao longo da carreira Rogério tornou-se o maior goleiro artilheiro de todos os principais campeonatos que disputou, e está a um tento de entrar na lista dos dez maiores goleadores do São Paulo. Pare um pouquinho e pense no absurdo desse fato. Um GOLEIRO estará entre os dez jogadores de toda a história octogenária de um clube de futebol. Quer mais? Rogério é o maior artilheiro são-paulino em Copas Libertadores e o terceiro maior em Brasileiros. Mesmo ignorando tudo isso, ficam os 127. Não há ameaça visível no horizonte.

3. O Botafogo cedeu metade da seleção na Copa de 1934

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O Brasil na Copa de 34: Martim, Pedrosa, Sylvio Hoffmann, Tinoco, Luiz Luz, Canalli, Waldemar de Britto, Leônidas da Silva, Armandinho, Luisinho

A pior participação brasileira em um Copa do Mundo foi resultado de uma bagunça institucional que se arrastou por anos e cindiu todas as categorias possíveis que faziam o esporte – atletas, clubes, dirigentes, ligas, até a federação nacional. Tudo motivado pela inevitável adoção em definitivo do regime profissional no futebol brasileiro, o que aconteceu a partir de 1933. Mas o amadorismo caiu atirando. Quando se aproximava a Copa da Itália, havia duas entidades gerindo o esporte no país: a desafiante FBF, reunindo os profissionais, e a tradicional CBD, último bastião dos amadores. Como apenas essa última era reconhecida pela Fifa, ficou encarregada da representação brasileira no mundial. Os clubes da FBF, maioria, recusaram-se a colaborar. O único grande que apoiava a CBD era o Botafogo, e basicamente o time alvinegro inteiro foi recrutado: ambos os goleiros, um zagueiro, cinco médios e dois atacantes, total de dez atletas. A CBD ainda conseguiu enxertar o elenco com outros dez jogadores profissionais que atraiu mediante pagamento (que ironia). Com metade da delegação, o Botafogo estabeleceu o recorde de mais jogadores cedidos por um clube ao Brasil numa Copa (apenas três foram titulares: o goleiro Pedrosa e os médios Martim e Canalli). Algo que só ocorreu por contingências irrepetíveis da guerra fria que profissionais e amadores travavam. Nem em outras Copas do mesmo período foi preciso convocar tantos jogadores de um só clube. Nenhuma equipe brasileira de hoje tem condições de colocar seu time titular inteiro na seleção. Clubes estrangeiros juntam mais atletas de nível mundial, mas dez brasileiros? Nem o Shakhtar Donetsk. E olha que eles tentam.

2. Gilberto Nahas expulsou dois times inteiros de uma vez

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Nahas tenta controlar avaianos e alvinegros

Gilberto Nahas foi sargento da Marinha e árbitro entre os anos 50 e 70. Em 1971, foi escalado para apitar um clássico amistoso entre Avaí e Figueirense, em Florianópolis. Organizado pelas autoridades locais, o jogo seria realizado no dia 1º de abril como celebração de aniversário do golpe militar de 1964. Havia muitos almirantes e políticos presentes ao Estádio Adolfo Konder. A peleja corria bem, sem gols, até os dez minutos do segundo tempo. Foi quando o zagueiro avaiano Deodato deu um pontapé no centroavante alvinegro Cláudio, que o provocava. A briga rapidamente se espalhou entre todos os atletas dos dois times, que transformaram o gramado num octógono. Torcedores também invadiram o campo para contribuir. O juiz Nahas, observando seu jogo se converter em caos, tomou medidas drásticas: puxou o cartão vermelho e ergueu-o para todos os lados, gritando que estava expulsando todo mundo. Sim, todo mundo. Todos os 22 jogadores numa sentada. Nem a pressão de seus superiores hierárquicos da Marinha, que foram atrás dele para reverter a decisão e garantir a continuidade do evento (não esqueça, era um jogo promovido pela ditadura), adiantou. Nahas bateu o pé, disse que a autoridade em campo era ele e manteve as expulsões. O incidente entrou para a história como “Clássico da Vergonha”. Os militares não conseguiram impedir o fim prematuro da partida, mas, nos tempos modernos, o comercialismo conseguiria. Nenhuma TV aceitaria a interrupção inesperada do jogo que transmite, então certamente há orientações aos árbitros para não perder as estribeiras desse jeito. Além do quê, nem as mais homéricas batalhas campais do futebol brasileiro resultaram em dois times no chuveiro mais cedo – no máximo, os jogadores mais exaltados de cada lado. O “golpe de estado” de Nahas, que sabotou a festa da ditadura, continuará ímpar.

1. Amadeu Teixeira treinou o América-AM por 53 anos

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A bola, a santa e Amadeu Teixeira, o Senhor América-AM

Quantos técnicos o seu time já demitiu nos últimos, digamos, cinco anos? Será que o número atinge dois dígitos? Bem provável. A dança das cadeiras dos treinadores é um fenômeno inerente ao futebol brasileiro dos dias atuais. De raro em raro conseguimos ver um clube que mantém o mesmo “professor” por três, quatro anos, quando a fase é muito boa, mas não é a regra. Amadeu Teixeira, entretanto, não dá a menor pelota para a regra. O manauara assumiu a prancheta do América de Manaus, clube de sua família, em 1955, quando o time era tetracampeão amazonense. Só foi deixar a função em 2008, mais de meio século depois. Estava, então, no primor de seus 82 anos de idade e teve que se afastar por questões de saúde, portanto não foi demitido. Foram 53 anos como técnico, um recorde inigualável, intocável, inequivocamente insuperável na história passada, presente e futura do futebol brasileiro. Um caso único de ligação umbilical entre um homem e seu time de futebol. Teixeira ajudou a fundar o América com 13 anos de idade, mas era muito ruim de bola para ser jogador. Virou roupeiro. Depois foi massagista e fisioterapeuta, antes de ser promovido a treinador e ir ficando. Não viu muito sucesso: venceu apenas uma vez o estadual, em 1994, e foi duas vezes campeão da Série B amazonense (1960 e 1962). Virou o presidente de honra do Mequinha da floresta, passando o bastão para o filho e a presidência oficial para a neta. Lenda viva do futebol local, ganhou um ginásio com seu nome em Manaus. Acima de tudo, Amadeu Teixeira estabeleceu um feito que viverá para sempre, como o maior absoluto da história do futebol brasileiro.

Os 11 melhores momentos de Ricardo Teixeira na piauí

Em 2011, quando escrevi originalmente esta lista, Ricardo Teixeira estava no auge de seus poderes e de sua arrogância. Havia sido bem-sucedido em trazer a Copa do Mundo para o Brasil, fazia o governo federal dançar miudinho para organizar o evento do jeito que ele queria e estava seriamente cotado para a futura sucessão de Joseph Blatter na presidência da FIFA. Sentindo-se invencível, o imperador da CBF abriu a guarda e permitiu que a revista piauí publicasse um delicioso perfil que entregava toda a sua prepotência e empáfia. Comprovando que quanto maior o salto maior a queda, dali para frente a carreira de Ricardo Teixeira foi morro abaixo, culminando com sua renúncia antes da Copa que, ele imaginava, seria sua apoteose. Gosto de acreditar que a reportagem teve papel importante nisso. E que minha lista é, de certa forma, um registro histórico daquele momento.

A esta altura todo mundo já sabe, e muitos já leram. A edição de julho da revista piauí (é com minúscula mesmo) traz um extenso perfil de Ricardo Teixeira escrito por Daniela Pinheiro, que passou cerca de dez dias na desagradável companhia do imperador da CBF. O texto, muito bem escrito, é chocante em seu conteúdo por expôr a falta de vergonha na cara e consideração pela sociedade que caracterizam Teixeira. As frases embasbacantes reproduzidas pela jornalista (todas elas confirmadas pela CBF, diga-se) estão por toda a internet. Li a reportagem e selecionei as 11 mais marcantes, na minha opinião, para comentar.

Antes de prosseguir para a lista, uma observação. Eu quero estar vivo e bem atento no dia em que Ricardo Teixeira morrer. Quero saborear. Não que eu esteja desejando a morte dele. Mas um dia ele vai morrer, é óbvio. E também não desejo a ele um fim doloroso, cruel, terrível, enfim, que seria condizente com suas ações enquanto vivo. Por mim ele pode morrer dormindo, sem dor, cercado pela família – e pela famiglia – na maior paz. Só digo que, nesse dia, quero aproveitar cada segundo do fato, quero me deleitar com a notícia.

Enfim. A lista.

11. “Só jornalista fala mal de mim. Olha como a imprensa brasileira é escrota! A imprensa brasileira é muito vagabunda”

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Não existe sequer uma pessoa pública com culpa no cartório que não reclame da imprensa. Ricardo Teixeira não seria diferente, mas vai além e xinga-a abertamente, para uma repórter, sabendo que vai tudo parar numa revista. Imagino que, em geral, quem não gosta muito de jornalistas só empregaria esse palavreado nos bastidores, de forma velada. Teixeira, porém, não se preocupa nadinha com isso. Ele sabe que pode falar o que quiser e fazer o que quiser. Segundo ele, e imprensa é “escrota” e “vagabunda” porque fala mal dele, e diz que só a imprensa faz isso. Calculo que ele não deve sair na rua (no Brasil, porque é habitué nas calçadas da Suíça) há uns dez anos para acreditar que é só a imprensa brasileira que o despreza – a parte séria dela, pelo menos.

10. “O neguinho do Harlem olha o carrão do branco e fala: ‘Quero um igual’. O negro não quer que o branco se foda e perca o carro. Mas no Brasil não é assim. É essa coisa de quinta categoria”

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Uma vez Tom Jobim disse que “sucesso no Brasil é ofensa pessoal”, querendo dizer que nosso país ainda não aprendeu o significado de meritocracia. Ricardo Teixeira tentou parafrasear o brilhante músico e não só passou longe da elegância de Jobim como também banhou a frase em um racismo asqueroso. Certamente imaginava-se o “branco” dirigindo seu carrão através de uma multidão de “neguinhos” reverentes. É uma metáfora interessante. O “carrão” seria a CBF, que é mesmo muito sua, o “Harlem” seria todo o Brasil e os “neguinhos” seríamos todos nós, que temos que prestar homenagem a Ricardo Teixeira, em vez de desejarmos sua imediata expulsão do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo e da CBF.

9. “Não vai ter isso, está tudo sob controle”

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Esta frase refere-se a um momento em que Teixeira procurou tranquilizar um representante da empresa que negocia pacotes de hospedagem para a Copa no Brasil, que estava preocupado com possíveis perguntas sobre preços de hotéis em uma entrevista do presidente da CBF com a Globo. Em resposta, Teixeira mandou isso aí. Em outras palavras, “tenho a Globo na rédea curta”. Reclamações? Críticas? Investigações? Verdade? Nada temam, empresários que pretendem fazer a festa no mundial de 2014, Ricardo Teixeira não vai deixar que essas coisas atrapalhem os negócios. Vale observar aqui que a Globo não é censurada: ela concorda com todas as restrições, por conveniência. Esta frase indica um cenário de indignidades em que a Vênus Platinada divide a responsabilidade, mas não deixa de ser indicativo da postura de dono do mundo de Teixeira.

8. “Com dinheiro, se faz tudo”

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O presidente da CBF pronunciou estas palavras à repórter para explicar os atrasos nas obras dos estádios da Copa. Ele diz que está tudo dentro do prazo e que tudo será entregue a tempo, graças ao poder da grana. De futebol Ricardo Teixeira não entende chongas, tenho certeza, mas em bufunfa é um especialista como poucos. A frase significa que qualquer obstáculo na execução dos planos pode ser transposto com uma injeção de dinheiro, só que esqueceu de dizer que o dinheiro não é dele, é nosso. Os estádios serão pagos, na absurda e estrondosa maioria, com verbas públicas. Mais correto seria Teixeira dizer que “Com o dinheiro do Brasil, eu faço tudo”. Talvez coubessem algumas perguntinhas em resposta à máxima digna do filme Wall Street: presidente, com dinheiro se faz inclusive um dirigente esportivo mudar de voto em eleição da FIFA e em escolha de sede de Copa do Mundo?

7. “Só fico preocupado quando sair no Jornal Nacional”

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Novamente o desprezo pela imprensa em geral. Ricardo Teixeira é bombardeado de todos os lados por acusações de corrupção, desvio de dinheiro, recebimento de propina e negócios escusos de forma geral. Para ele, é tudo insignificante. Coisa da “mesma patota”, explica em outro momento: UOL, Folha, Lance, ESPN. Veículos sem audiência, diz ele, sem leitores, ouvintes ou espectadores. Só interessa a Globo e seu principal veículo. É um agrado à parceira, claro, como faz um dono com seu cachorrinho de estimação. Mas, assim como o JN é o maior telejornal do Brasil, a Folha é o maior jornal impresso, o Lance é o maior diário esportivo, o UOL e a ESPN estão entre os maiores em suas áreas de atuação. Os adversários são sim, grandes. Mas ele sabe que não é uma questão de tamanho. Além disso, ele sabe que as pessoas que lhe interessam não dão bola para as notícias desfavoráveis, onde quer que saiam. É uma questão de poder. Ver-se acuado no JN significaria perder o comando sobre a Globo. É isso que preocupa, não uma imagem suja – ora, se ele já conviveu tanto tempo com ela…

6. “O feio é perder, minha querida. Quando ganha, acabou”

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Em suma, os fins justificam os meios. Esse é o lema preferido de muitos tipos lamentáveis de pessoas: os canalhas, os intolerantes, os populistas, os protoditadores… Teixeira é tudo isso junto. A frase foi dita à jornalista quando ela perguntou sobre a eleição da FIFA que manteve Joseph Blatter no cargo e o porquê de, uma semana depois dos atribulados incidentes que marcaram o evento, ninguém mais tocar no assunto. Percebe-se, então, que Teixeira está defendendo o aliado e chefe. A vitória apaga tudo de ruim, portanto. Lembremos que este é o homem que comanda a preparação de uma Copa do Mundo zilionária, repleta de manobras políticas e problemas administrativos. Para ele, o importante, no final, é a festa. Se for bonita, e, ainda, se o Brasil ganhar, danem-se as fortunas arrancadas da saúde, da educação, do saneamento básico e enterradas em estádios faraônicos e nos bolsos de alguns engravatados.

5. “Ai, pai! Não me belisca!”

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Esta frase foi dita pela filha de Ricardo Teixeira, Antônia, de 11 anos, durante um almoço. A cena: Teixeira discursava para a jornalista, pomposamente, sobre sua irrevogável preferência por Joseph Blatter no pleito da FIFA. A pequena Antônia, confusa, exercitou a doce inconveniência de todas as crianças e perguntou, em voz alta “Ué, mas você não quer o Bin Hammam?”, em referência ao oponente de Blatter, Mohamed Bin Hammam. O papai foi rápido e tascou na menina um beliscão por baixo da mesa, pretendendo punir a filha longe das vistas da repórter. Novamente Antônia botou a boca no mundo. Lá atrás vimos como Teixeira valoriza o sucesso individual. Ele não parece pensar o mesmo dos enganos: é sempre culpa dos outros. Neste caso, é culpa da filha o fato de ele ter misteriosamente mudado de opinião sobre o melhor candidato. Em outra passagem do perfil, ele diz que a imprensa é que é a culpada pelo atraso no estádio de São Paulo. O êxito é dele, mas o fracasso deve ser compartilhado, ou simplesmente jogado sobre os outros, quem sabe na forma de um beliscão.

4. “Que porra as pessoas têm a ver com as contas da CBF? Não tem dinheiro público, não tem isenção fiscal. Por que merda todo mundo enche o saco?”

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Como diz o próprio Teixeira, a CBF é uma entidade “pri-va-da” – assim mesmo, escandindo as sílabas, como se os brasileiro fossem alunos de pré-primário com dificuldade para entender as coisas. Ele reclama do interesse das pessoas pela forma como a CBF gere seus recursos, já que tudo ali é privado, e compara a entidade a bancos como o HSBC ou o Bradesco. De fato, a CBF não recebe dinheiro público ou isenção fiscal, e nem precisa, graças à sua dúzia de patrocinadores. Mas um cidadão insatisfeito com o HSBC pode mudar de banco. Eu, insatisfeito com a condução do futebol brasileiro, não tenho outra escolha a não ser o que a CBF decide fazer. É um monopólio, e, ainda por cima, construído sobre algo que nem foi a CBF que desenvolveu, que é o futebol brasileiro. Por mais pri-va-da que seja a confederação, ela não gere algo que é seu. Claro que Ricardo Teixeira, o dono do mundo, não consegue compreender isso.

3. “Isso é o governo. E se o governo acha que a Copa não é prioridade, não posso fazer nada. Esse é o SEU país”

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O manda-chuvas critica o governo por não dar a devida atenção e urgência às obras de infra-estrutura da Copa. Preocupado ele, não? Com o bem do país? Claro que não. Com o bem da sua festa. Ricardo Teixeira é o dono da Copa do Mundo, presidente do comitê organizador, patrão de tudo que diz respeito ao mundial. Como tal, é claro que ele se considera em posição de cobrar do governo federal que coloque seu brinquedinho no topo da lista de prioridades. Atenção, presidente Dilma Rousseff: não é a senhora que decide o que o Brasil precisa. A senhora acha que devemos investir no pré-sal ou no Minha Casa, Minha Vida? Mude os planos, pois Ricardo Teixeira pensa diferente. Mas acredito que a presidente já saiba muito bem disso. Afinal, foi o líder dela na Câmara que disse que seria uma “temeridade” não fazer a Copa, certo? Ele deve ter andado conversando com Teixeira.

2. “Em 2014, posso fazer a maldade que for. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Porque eu saio em 2015. E aí, acabou”

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Aqui está a prova definitiva de que, para Ricardo Teixeira, a Copa do Mundo é DELE. A imprensa fala mal dele? Não deixa entrar! A imprensa critica, desagrada? Usa a Copa como instrumento de vingança! Veja só como ele fala em mudar horários de jogos com a maior sem-cerimônia do mundo, como se milhares de pessoas não fossem gastar altas somas e viajar grandes distâncias dependendo de uma programação bem estabelecida, e não sujeita a ataques egomaníacos de um cartola acometido de desenfreada safadez. A Copa do Mundo é um exercício de poder de Ricardo Teixeira, nada mais que isso. Não é a maior competição do esporte mais popular do mundo. Não é um grande fato jornalístico. Não é um evento que atrai a atenção de milhões de pessoas. Não é um bem coletivo da humanidade que foi colocado, temporariamente, sob guarda do Brasil. É propriedade do presidente da CBF, para ele modelar como bem entender e jogar na cara de quem o incomoda.

1. “Caguei montão”

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Curto e grosso. Quando convidado a dar sua opinião sobre as graves denúncias contra sua pessoa – uma oportunidade até para apresentar uma defesa séria e embasada -, foi apenas isso que Ricardo Teixeira disse. É o que ele pensa da sociedade, das leis, da justiça. Ele caga nisso tudo. O mundo é seu trono – em todos os sentidos. Não há muito o que comentar aqui. Apenas leia e releia essas duas palavras acima e assimile bem o significado da existência de Ricardo Teixeira.